Cheguei à quinquagésima coluna no “Obras Inquietas”, lá no Artrianon ( www. artrianon.com ), ou seja, cheguei à 50a obra que me desperta algum tipo de inquietação. Pode parecer pouca coisa, mas são 50 textos curtos que, apesar de terem sido muito prazerosos de escrever, também tocaram fundo em algumas feridas e medos internos que eu sequer imaginava existir.

Para “comemorar” a efeméride, nessa semana tratei de um pintor que respeito muito e, talvez por isso, sempre mantive distância. Em “A cabeça da Medusa” (1612), de Pieter Paul Rubens, o aspecto grotesco da cabeça cortada por Perseu revela tanto surpresa quanto pavor, assim como Rubens tenta responder uma pergunta sobre a qual a mitologia silenciou: o que aconteceu com as cobras da cabeça da Medusa? Freud viu esse quadro como uma representação da castração masculina (bom, afinal, onde o Freud não vê falos masculinos?), mas gosto de um aspecto particularmente inquietante da análise dele: sentimos uma estranha excitação e fascínio diante da obra, algo quase sexual, quase devasso, quase puro. Existe alguma perturbação expressa nesse quadro, mas o fato de não conseguimos definir com clareza o que é deixa as fronteiras entre o macabro e o sedutor ainda mais borradas.

Boa leitura.

“A cabeça da Medusa” (1612), Pieter Paul Rubens

O crime acabou de acontecer; o sangue fresco ainda escorre do corte repleto de crueldade o qual, certeiro, separou o pescoço do resto do corpo. Os olhos que antes levavam desespero ao mundo agora são um espelho estarrecido de finitude: então eu também posso morrer, então não sou imortal. Sobre a cabeça, aquelas que viviam em precária harmonia – unidas em torno do horror inspirado pela sua dona – entregam-se à feroz luta da sobrevivência. Irmãs até então inseparáveis atacam-se com raiva; existem aquelas que tentam aproveitar até o último resquício de vida do ser que lhes animava e dava propósito, sorvendo até a derradeira gota teimosa de sangue; uma delas aproxima-se, sorrateira, do olho vítreo, imaginando qual o gosto da carne de Deus. Outras cobras, pela primeira vez descobrindo o que é ser livre, esgueiram-se sobre a pedra onde jaz a cabeça, sem imaginar a solidão que lhes espera nesse mundo em que deixarão de ondular e passarão a rastejar por migalhas de sol. Enquanto as serpentes decidem seu destino (algumas gritam em silêncio para o sol indiferente), os vermes se aproximam, famintos, ansiosos para possuírem a cabeça sem vida e que, no passado, transformava carne em pedra. Tudo escorre em direção ao inexorável fim, pois aquilo que começa um dia acaba, mas ninguém nunca nos avisou sobre o fedor acre de sangue coagulado, ninguém falou sobre a solidão do vento a mexer nos cabelos insensíveis, ninguém nos avisou que a vida continua, pasma e patética, depois que morremos – e que, na história do universo, somos meros suspiros impregnados de efemeridade, nunca uma respiração.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/11/26/obras-inquietas-50-a-cabeca-da-medusa-1612-pieter-paul-rubens/

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