Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, em homenagem ao Halloween, tratei de um ilustrador extremamente singular e não tão badalado, o holandês Alexander ver Huell. Ele se notabilizou pelas suas obras repletas de romantismo e sensibilidade, que adornaram muitos livros do período que vai de 1822 a 1845. Porém, um dia – e ninguém sabe ao certo o que aconteceu -, ele se transformou em um homem repleto de paranoia e de fobia social, e as cenas românticas de antes foram invadidas pela morte, por demônios e pela bizarrice.

A ilustração que escolhi, “Espalhados por toda a parte” (o nome original está em latim, “Straas ubique”, mas optei por passar para português), me é significativa por um evento pessoal: certa vez, um amigo estava em uma casa noturna de Porto Alegre e passou mal, tendo que sair às pressas do lugar. Alguns dias depois, perguntei-lhe o que tinha acontecido e ele disse que, de repente, ao olhar as outras pessoas presentes no lugar, dançando e se divertindo, viu somente gente morta. Ainda lembro dele segurando meu braço e perguntando com urgência “tu não viu? TU NÃO VIU?”. Não enxerguei nada, mas sempre fiquei pensando que, talvez, o olhar seja somente uma questão de perspectiva.

Enfim, eis o texto. Boa leitura.

“Espalhados por toda a parte” (1864), Alexander ver Huell

O homem caminha com pressa, evitando olhar para os lados. Cobre o rosto, com receio de revelar o permanente ricto de terror que vinca os seus lábios em um constante gemido. Eles estão por todos os lugares. Em cada esquina, em cada rua, em cada casa, a doença e a morte espiam o estranho que atravessa os seus domínios. Atrás de risadas histéricas e da alegria fugaz da pele, escondem-se cadáveres putrefatos cobiçando a vida daqueles que ainda não escutaram o canto de sereia do Inferno, a música terrífica que se espalha pela catedral do mundo, o ruído que mora no fundo do pesadelo. A loucura eriça os pelos do homem enquanto ele atravessa as ruínas daquela necrópole, a cidade dos mortos que ainda respiram. “Estão todos mortos! Vocês e seus filhos, amantes, netos, cachorros, vocês não estão vivos, mas se arrastam pelo mundo sem sentido algum que não seja satisfazer o buraco infinito que mora no fundo da cova dos seus ossos!”, o homem deseja gritar, mas não sabe qual serão as consequências de revelar a verdade, então prefere silenciar. Estar vivo e não viver com a intensidade de um arrepio recém-surgido ou com a raiva com que a água na ânfora espia a sala ao seu redor é como estar morto, e o homem atravessa rapidamente o carnaval de gente a rir, a brincar, a sofrer, a se angustiar, sabendo que somente ossos vazios cobertos de enganosa pele estão ali, em uma confraternização macabra que marca os seres de vida comum que vieram ao planeta somente para servir de pasto para os vermes. Os passos velozes do homem e o medo que escapa dos seus olhos esbugalhados não deixam dúvida: ele está em um mundo repleto de inimigos, com o odor nauseabundo da morte a infestar cada recanto, cercado por cadáveres que ignoram essa condição, em eterna fuga de si mesmo, e ninguém sabe disso, não existe conforto em nenhum lugar, não existe descanso em nenhuma cama, não existe sorriso verdadeiro em nenhum rosto – só a morte a espreitar a sua vida com a mesma curiosidade com que a cascavel contempla a vítima distraída.

Texto originalmente publicado no link  https://artrianon.com/2017/10/29/obras-inquietas-48-espalhados-por-toda-a-parte-1864-alexander-ver-huell/

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