Estão por todos os lugares, os polemistas, e essa é uma das suas principais características: a onipresença. A capacidade de dar o tapa, esconder a mão e apontar para outra pessoa na multidão. O aparente desdém com que iniciam uma briga inócua e depois recuam um passo, vendo a multidão se alvoroçar em dois lados vociferantes de ódio. Quando isso acontece, ele se retira até um canto e espera os momentos em que uma voz racional se erguerá tentando acalmar as fúrias. Nesse momento, o polemista precisará intervir, gerando novas ondas de raiva. Para essa figura, o diálogo é algo perigoso – tudo o que importa é a discussão.

De tão esperto na criação da sua imagem, o polemista se esconde atrás de múltiplos nomes. A melhor maneira de desaparecer é estar sempre diante dos olhos alheios até que não sejamos mais capazes de percebê-lo – como um tapete ou uma escada. Assim, ele pode ser chamado de “comentarista”, de “mediador”, de “debatedor”, de “formador de opinião”. São eufemismos para esconder a realidade: o polemista não tem opinião própria. Ele se alimenta das ideias alheias da mesma forma que uma sanguessuga exaure alguém. É um parasita do êxito que nunca lhe pertencerá. Assim como Nero queimando Roma para fazer uma música, o polemista olha o mundo desmoronar, e o sorriso habita seus lábios, pois, para ele, não há maior emoção do que ver os outros brigarem por nada.

Algumas pessoas inclusive consideram o polemista inteligente! Serão capazes de defendê-lo até a morte, pois enxergam nele um reflexo das suas ideias, ao invés de vê-lo como um espelho frio e distante que reflete somente aquilo que os outros querem ver. Inclusive o polemista inicia a conversa anunciando com a maior desfaçatez, “hoje vou fazer uma polêmica”, como se fosse um grande esforço, e todos aplaudem o vazio que é criar um debate sem a mínima intenção de melhorar o mundo, só deixá-lo pior e mais afundado na areia movediça.

O verdadeiro polemista percebe qualquer fala como uma possibilidade de gerar discórdia. Não escuta o outro, mas o analisa com a intenção de destruí-lo; procura brechas, titubeios, incoerências, e nelas concentra a sua “análise”. Uma palavra no calor do momento, e o polemista chamará a atenção da urbe até então indiferente, colocando-a sob o microscópio, vendo significados e sombras que provem a sua tese. Pois um polemista que faça jus a tal conceituação começa de uma tese e depois procura evidências que a suportem, jamais seria capaz de colher provas para depois concluir: seria horrível se as suas ideias prontas desmoronassem diante da dúvida.

O bom polemista usa chavões e palavras de ordem – existe maneira melhor de evitar o raciocínio do que se refugiar em clichês? Possui a capacidade de distorcer ideias e frases até que encaixem em alguma polêmica. Sobe aos limites rarefeitos das palavras e pretende discutir conceitos que levam a buracos negros argumentativos, para então poder declarar, triunfante, “eu sempre soube!” Quando não consegue isso, ressuscita alguma questão antiga, e olha as mesmas velhas discussões ressurgirem, renovadas. O polemista tem medo da criatividade ou de ideias jovens: prefere o ranço das discussões cansadas ao invés de se esforçar lendo ou estudando novos assuntos.

Ninguém conhece a obra do polemista, pois ele é incapaz de construir: nunca teve a angústia de erguer o edifício de um texto no meio da planície deserta da folha; nunca encostou o pincel em uma tela e perguntou-se se aquele risco de cor estava destinado à glória ou ao fracasso; nunca teve pesadelos com notas musicais atropelando-se em busca de uma ordem no meio do caos do silêncio. Da mesma forma que um abutre, ele adeja sobre a vida do outro, ansioso para cravar o bico nela e, ao menos, sentir alguma emoção genuína – a destruição. Para isso a claque é essencial: qual a graça de destruir se não existir aplausos no fundo? Contudo, a destruição promove uma satisfação momentânea, que o levará à outra destruição, e depois outra, como um Genghis Khan para sempre infeliz, ao passo que a criação – ah, o prazer dela é insuperável.

Outra característica interessante: os polemistas acham que estão salvando o mundo. Eles realmente acreditam que são essenciais, de que polêmicas levam à mudança de paradigmas, de que é bom fazer o povo se agitar com discussões estéreis. Pensam estar fazendo um favor, mas isso por que confundem a sua posição com a dos argumentadores. Esses sim têm ideias próprias, têm bagagem cultural, têm capacidade de defender um ponto de vista com tanta lógica e coerência que até mesmo o mais encarniçado dos adversários – apesar de discordar – reconhece valor nos pensamentos do outro.

O polemista pensa que tocar napalm em uma floresta é a melhor maneira de vencer o “inimigo”(considerado infantilmente como todo aquele que não comunga dos seus pensamentos). Mal sabem que, assim que a onda de napalm passar, a ideia continuará de pé no meio do campo devastado, encarando o outro com um sorriso de piedade nos lábios. Pois essa é a melhor e única forma de vencer um polemista: mostrar ao mundo o vácuo que habita no seu interior. Mostrar que ideias são à prova de balas – e de tiros de festim.

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