As pessoas sempre nos decepcionam

Se decepção matasse, hoje eu cairia morto.

O último baluarte da decência e da civilização acaba de desmoronar diante dos meus olhos, confirmando a constatação a que cheguei algum tempo atrás: as pessoas sempre nos decepcionam. Algumas antes do imaginado, outras depois, mas, no final das contas, elas acabam desapontando.

Estou lendo “Heróis”, de Lucy Hughes-Hallett, um livro que trata de como a Humanidade sempre temeu – e buscou – figuras individuais que poderiam ser consideradas como “salvadores da pátria”. O problema é que a característica maior do herói é ser imprevisível, louco e desprovido de padrões morais, ou seja, como diria Brecht (mas por um outro lado), “pobre do país que precisa de heróis!”. Segundo a autora, os heróis oscilariam entre dois extremos: a fúria de Aquiles ou a esperteza de Ulisses. Usando essa base como paradigma, ela analisa Alcibíades, Catão, El Cid, Francis Drake, Wallenstein e Garibaldi.

Sempre tive como uma das minhas mais inabaláveis certezas o fato de que Catão foi um dos últimos homens de verdade que pisou no planeta, e olhem que ele viveu entre os anos de 95 a.C e 46 a.C. Nós todos, os outros humanos, não passariam de meros arremedos, de pálidas sombras da grandiosidade daquilo que Catão representou.

Catão foi o homem incorruptível. Alguém que esteve diante de todos os tipos de tentação e nunca cedeu a elas. Um roched0: incapaz de contemporizar, de buscar o caminho cômodo, de ceder um milésimo que fosse nas suas convicções. Um exemplo de decência e de integridade moral em uma época de devassidão e de valores conspurcados. Um homem que fez tremer gigantes do porte de Júlio César, Virgílio, Cícero, Pompeu e tantos outros.

Não sou somente eu quem admira Catão. Ele tem um conjunto de fãs realmente invejável. Citarei alguns: Cícero afirmou “sozinho, ele [Catão] vale mais do que cem mil outros”. Horácio, que escreveu a “Arte poética”, elogiou o seu “coração feroz”. O grande Lucano o chamou de “godlike”, em uma época que tal comparação era uma ofensa religiosa, mas ninguém foi capaz de contestá-lo. São Jerônimo afirmou que Catão possuía uma glória que não poderia ser aumentada por louvações e nem diminuída por censura. Virgílio disse que gostaria de passar a Eternidade nos Campos Elíseos ao lado de Catão. Dante Alighieri colocou todos os suicidas no círculo mais baixo do Inferno, menos Catão, que foi promovido a guardião do caminho que leva do Inferno até o Purgatório. E o florentino ainda afirmou na “Divina Comédia”: “E que homem sobre a Terra é mais merecedor de representar Deus que Catão? Nenhum, certamente.” Mais “fanboy” impossível.

Não. Catão teve um admirador ainda mais apaixonado, o filósofo francês Michel de Montaigne, que escreveu:

“Eu rastejo em lama mundana, mas não deixo de ver no alto das nuvens as incomparáveis estaturas de certos espíritos heróicos, dos quais o mais sublime era Catão, esse grande homem que foi verdadeiramente um modelo escolhido pela Natureza para mostrar o quão longe a virtude humana e a coragem podem chegar. (…). Catão era um homem diante de quem até mesmo os loucos escondiam seus defeitos.”

Catão

Imaginem um homem que não se dobra nunca. Imaginem alguém que não tenha medo de desagradar outras pessoas e cujo único compromisso é com as suas posições morais. Além disso, Catão era rabugento, mau humorado e não tolerava brincadeiras, piadas e nem distrações pueris. Segundo Plutarco, Catão deixava os grandes homens de Roma angustiados, pois a sua retidão moral os envergonhava pela impossibilidade de imitá-lo. Quando alguém via Catão no júri e era culpado, recusava-se a ser julgado e assumia logo a culpa. Por isso, ele é encarado por muitos como eternamente fadado à derrota (temos como vencer sendo sempre inflexíveis ou a vitória só pode ser atingida com contemporizações e concessões?), mas também é visto como a necessária bússola moral em uma época na qual ela fazia uma falta gigantesca.

Dispondo somente da sua voz, do conhecimento das leis e da certeza que tinha sobre a própria retidão, Catão acreditou que bastava existir um único homem correto para corrigir o mundo. Uma andorinha pode, sim, fazer verão. E tão forte era a sua crença nisso que a sociedade romana lhe temia e respeitava no que foi considerado um dos mais estranhos cultos à personalidade de todos os tempos, pois ele não era belo, não era um prodígio de inteligência, não tinha fama e nem fortuna – possuía somente a cegueira da própria moralidade, e isso bastava para aterrorizar todos.

Um louco, vocês dirão. Mas, e se Catão for o único certo e nós todos estarmos errados até hoje? Impossível não rir ao pensar que Sêneca, quase cem anos depois da morte do senador romano, imaginou Júpiter descendo até a Terra em busca de um exemplo de grandeza humana e vendo o “espetáculo de Catão… de pé, ereto, em meio às ruínas do Império.” O mesmo Sêneca que, vivendo sob a sombra de Nero, manifestou a sua admiração dizendo que “ninguém jamais viu uma transformação sequer em Catão”. Assim como as baratas resistem às bombas nucleares, somente Catão era capaz de sobreviver moralmente ao escrutínio do mais poderoso dos deuses.

Não vou contar todas as histórias de Catão. Basta saber que ele foi o único homem capaz de se contrapor a Júlio César olho a olho e não esmorecer, nem mesmo no momento da sua morte. César nunca reconheceu virtudes no inimigo; odiava-o com todas as suas forças, talvez por ver nele uma integridade moral inatingível para qualquer ser humano normal. Durante 17 anos os dois se enfrentaram nas ruas de Roma, em debates no Senado, em lutas, votações e polêmicas. Ao final, como a História sabe, Catão acabou vencido em Útica e, assim, definiu-se o destino de Roma. O episódio incrivelmente violento da sua morte demonstra a fortaleza moral e a inescapabilidade dos parâmetros morais que constituem a tônica da sua vida – após ler “Fídon” de Platão duas vezes, Catão dormiu calmamente e, quando despertou, enfiou a espada na própria barriga. Ao perceber que corriam para tentar salvá-lo, com as suas entranhas saindo pelo talho, o homem empurrou o médico que tentava suturar a ferida e rasgou de novo o próprio ventre, enchendo o quarto inteiro de sangue.

Ao lado dos demais admiradores de Catão, sempre o tive como um modelo impossível de ser alcançado. Confesso ser incapaz de guardar parâmetros morais rígidos, pois ter essa conduta é condenar-se à morte ou ao ostracismo, ainda mais na sociedade atual, na qual valores morais são prova de fraqueza ou de debilidade do espírito. Assim como Sêneca, imaginava que, se existisse uma pessoa capaz de encarar o próprio Deus (ou Júpiter ou Alá ou Shiva) no olho e constrangê-lo com a sua convicção serena do que é certo, esse homem só poderia ser Catão. Era uma das poucas certezas que eu possuía – isso até eu descobrir uma história estarrecedora, algo que manchou de forma indelével a sua imagem.

Catão também tinha um podre. Contam os historiadores – e com provas documentais ainda por cima, ou seja, nem o conforto de ser uma tentativa de enxovalhar a sua imagem me salva – que Catão estava casado com sua segunda mulher, Márcia, com quem já tivera dois filhos (e ela estava grávida do terceiro) quando foi abordado por Hortêncio, o único advogado que conseguia vencer Cícero no Senado. Esse advogado queria estreitar os laços com Catão por intermédio da junção de suas famílias, e pediu em casamento Pórcia, a filha mais velha do inflexível romano. Ele recusou, pois Pórcia estava casada com outro cidadão. Diante da insistência de Hortêncio, Catão pensou em uma solução intermediária: decidiu divorciar-se da sua mulher grávida e casá-la com o outro homem. A condição era que, tão logo os dois tivessem um filho, juntando as duas famílias pelo vínculo de sangue, Hortêncio se divorciaria e Márcia voltaria a casar com Catão. Um “troca-troca” de famílias em Roma.

O plano funcionou, mais ou menos. Márcia teve um filho com Hortêncio, mas, antes que os dois se separassem, o homem acabou falecendo e toda a sua fortuna passou para Catão, o que acabou sendo um ganho inesperado. César, sempre ciumento da fortaleza moral do seu oponente, insinuou que Catão fez tudo isso por ganância e para se apossar do dinheiro de Hortêncio, mas os romanos não acreditaram, pois ele era incapaz de um plano tão vulgar.

Catão voltou a se casar com Márcia, e a vida prosseguiu. Essa situação é analisada de forma diferente por quem se deteve sobre a vida do romano. Tertuliano considerou essa transação desprezível tanto do ponto de vista afetivo quanto do lado moral. Robert Graves disse que Catão e Hortêncio trataram Márcia como se fosse uma égua reprodutora. No entanto, o historiador Ápio considerou a atitude de Catão exemplar por colocar os interesses de Roma à frente das suas veleidades afetivas.

A maioria dos defensores da conduta de Catão em relação à Márcia afirmam que ele foi coerente com a filosofia estóica: tornar-se afeiçoado em excesso por outro ser humano é tornar-se refém do destino e propiciar o surgimento da infelicidade, algo que o homem sábio não pode fazer. Todos os relacionamentos humanos são temporários e fugazes, não precisando de investimento emocional muito intenso. Permitir que o amor se misture aos princípios morais é ter que abrir mão de um em favorecimento do outro, e isso era algo que Catão, fiel à própria natureza, jamais faria. Em última análise, o gesto dele teria sido algo de notável desprendimento, a atitude mais altruísta que se esperava de um homem preocupado com a falta de moralidade que ameaçava a sua nação: desistir da felicidade pessoal para salvar o coletivo.

Tentamos explicar a conduta implacável de Catão com a sua esposa usando uma série de racionalizações, mas elas não sobrevivem à verdade dos fatos. Catão estava tão imbuído da própria retidão moral que deixou de lado aquilo que lhe tornava humano. Sacrificou a moralidade interna do seu casamento para salvar uma duvidosa moral coletiva que pretendia impor ao povo. Catão estava completamente cego pela sua própria moralidade e, como a mariposa muito próxima da lâmpada, não era mais capaz de distinguir o certo do errado. De tão apaixonado por si mesmo e pela lisura do seu comportamento, pisou em todos que lhe amavam.

Não se pode julgar os deuses da mesma forma que os humanos, e não tenho dúvidas – assim como Lucano – de que, “quando finalmente formos libertos da escravidão, se algum dia isso acontecer, Catão será deificado, e Roma terá um deus de cujo nome não se envergonhará”. No entanto, não posso deixar de lado a frustração de ver a imagem de um dos meus ídolos desmoronar como o Colosso de Rodes sacudido por um terremoto. Afinal de contas, Catão também era humano e até mesmo ele podia cometer condutas repulsivas em prol de um bem maior.

Há alguns dias que esse assunto me incomoda, mas, pensando novamente enquanto escrevo, talvez a conduta de Catão não seja objeto de decepção, e sim de libertação. Se até mesmo Catão decepcionou, qualquer um de nós é passível de frustrar os outros em algum momento. Se isso é inevitável, então, a questão torna-se aceitar tal fato – e pensar como a decepção pode atingir o mínimo alcance. Sujeitar-se a ela e ansiar para que seja de tal ordem que possamos sobreviver ao desprezo e indiferença nos olhos alheios.

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Arquivado em Catão, Generalidades, Moralidade

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