Obras Inquietas 44. “Melancolia I” (1514), Albrecht Dürer

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, cheguei à 44a obra que me desperta algum tipo de desconforto, e a escolhida dessa vez foi “Melancolia I” (1514). do Albrecht Dürer. Não cheguei a ler “O símbolo perdido” do Dan Brown, mas certa vez me comentaram que essa pintura é o centro de onde saem todos os mistérios resolvidos pelo personagem principal. Não surpreende: “Melancolia I” tem 503 anos de idade, e ainda engatinhamos nas tentativas de entendê-la.

Não resisti à tentação de atualizar os símbolos constantes na pintura e, assim, na minha leitura da obra de Albrecht Dürer, fiz citações indiretas aos desenhos de Goya, aos desalentos de Nietzsche, aos receios de Bernardo Soares e, por fim, mencionei trechos da peça para vocal “La nuit”, de Jean-Phillippe Rameau, e da música “Bota pra fudê”, do Camisa de Vênus. Vai aqui o link de “La nuit”:

Boa leitura.

“Melancolia I” (1514), Albrecht Dürer

Tudo tende ao vazio. Ao nada absoluto. À irrelevância. O tempo se arrasta com a paciência de quem sabe ser eterno. Paralisado, o vento suspende a sua caminhada ágil e o ar fede à morte, à imobilidade das águas paradas. Na parede, o Quadro Mágico deixa entrever os mistérios que nunca serão desvendados; enquanto isso, o compasso repousa, indeciso, nas mãos tristes do homem que não sabe para onde ir – ou será um artista à espera da sempre traiçoeira inspiração? A imagem retorce-se lentamente em torno do seu próprio centro, como uma cobra saciada que dorme sob a luz de um sol morto; os animais, os anjos e o céu estão cansados, não conseguem sair da areia movediça caprichosa em que a inação do homem os colocou. Diante da enormidade daquilo que podemos ser e do fracasso inevitável dos nossos sonhos, sentimo-nos insignificantes, incapazes de romper a inércia, incapazes de escapar do buraco negro que mora no nosso peito e diz que não podemos ser nada, que nunca seremos nada, que na nossa lápide estará escrito “nada”. Existe uma beleza tão bonita quanto o sonho, existe uma verdade mais doce do que a esperança? Qual o sentido de viver, se não conseguimos escapar de nossas fraquezas? Se nada acontece, a vida então se repete? Dentro da imagem se esconde o segredo dos erros sempre iguais, da sensação de desalento que às vezes nos acomete, da procrastinação das tarefas, do medo de começar para, então, falhar. A Melancolia é um veneno lento que sufoca a nossa liberdade – é o cadáver silencioso que nos segue dentro da sombra, sempre lembrando que somos humanos, demasiado humanos.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/09/10/obras-inquietas-44-melancolia-i-514-albrecht-durer/

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Arquivado em Albrecht Dürer, Arte, Crônicas, Melancolia I, Obras Inquietas, Pintura, Produção Literária

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