Alguns dias atrás, assisti na Netflix ao filme “Margot e o casamento” (2007). Em geral, narrativas sobre famílias disfuncionais reunidas à contragosto por um evento naturalmente estressante (como um casamento ou um funeral), sendo obrigadas a conviver sob o mesmo teto e com uma explosão prestes a ocorrer graças à mais insignificante fagulha, não me interessam muito. Parecem muito previsíveis na sua tentativa de soarem surpreendentes. Mas assisto por causa dos diálogos e pelo aspecto da construção de personagens.

Entre os filmes com essa temática, apreciei bastante “Margot e o casamento”, em especial por que os diálogos eram abruptamente cortados no seu ponto mais tenso, impedindo de ver o que aconteceu depois de frases tão agressivas ou carinhosas. Foi um mecanismo muito apropriado para demonstrar a tensão existente entre os personagens, que, mesmo rindo e se abraçando, escondiam um inferno de intenções, desejos e fúrias por trás desses gestos. Colocarei aqui o trailer para quem se interessar:

No entanto, o que mais me perturbou no filme foi uma questão tangenciada pelo diretor. O personagem de Margot, interpretado por Nicole Kidman, é uma escritora de relativo sucesso, mas incapaz de se relacionar com as outras pessoas. Cortante, brusca e auto-destrutiva, Margot está casada com um homem que lhe ama, mas o trai com outro que visivelmente não quer nada além de sexo. O filho dela convive em meio às mais absurdas violências verbais e psicológicas, tudo por que a mulher não lhe mente ou atenua nada. No esforço de prepará-lo para a vida, Margot é aquela que mais se esforça para destruí-lo.

Não bastando, a obra literária de Margot é calcada no seu círculo pessoal e, assim, ela utiliza as situações familiares como força criativa, mesmo que ao custo de expô-las – e, no caso da irmã, terminar um relacionamento. Não se sabe o quanto ela não é um fator desestabilizador da própria família para depois poder criar uma história em cima, aproveitando-se das situações como um abutre farejando uma carcaça próxima. Em uma cena emblemática, logo após brigar com o namorado e se refugiar com Margot em um quarto de motel, a irmã vê a escritora ocupada em registrar fatos no seu diário e a impede, dizendo que aquilo é íntimo e dolorido demais para virar literatura.

Sempre me perturba um pouco a ausência de limites éticos no ato de criar uma obra artística. Recordo de uma pintura de Edvard Munch, “Morte no quarto da doente” (1896), em que o artista retrata o suspiro final da sua própria irmã, em um quarto repleto de familiares. O quanto o pintor viveu da dor da situação e o quanto ele estava artisticamente analisando a cena? Não estaria Munch, no mais recôndito da sua consciência, pensando nas cores que usaria para retratar a cena, ou na melhor perspectiva, ou no estremecer da lágrima no olho da sua mãe? Estaria ele sendo cruel, sendo realista com o seu fazer artístico, sendo um crápula ou usando uma estratégia diversiva para fugir da dor? Essas questões sempre me deixam incomodado, e prefiro pensar que existem histórias e cenas que a decência humana nos impede de contar – mas nem todos comungam dessa opinião.

“Morte no quarto da doente” (1896), Edvard Munch

A conduta de Margot e a sua relação complicada com as pessoas suscitaram-me um questionamento: pode um escritor – ou qualquer artista – ser desumano?

Parece uma pergunta ilógica, mas não é. Todas as pessoas esperam que o artista toque naquilo que nos transforma em humanos, a emoção secreta que sequer conseguimos nomear e para a qual a obra de arte serve como porta de entrada. Se sairão anjos ou demônios por essa porta, não temos como saber, mas o objetivo maior da arte é nos aproximar daquilo que temos de mais sagrado ou profano. Esperam que somente humanidade saia do artista, ou aquilo que enlevará o espírito, e, por isso, imaginam-no como alguém capaz de tocar as mais profundas cordas do ser humano. Nesse cenário, imaginar que um artista possa ser desumano soa como um contrasenso: pode alguém desprovido do mínimo senso de humanidade representar adequadamente o humano?

No filme, todas as condutas de Margot apontam não somente para o fato dela ser desprezível, mas de ser alguém pouco conectado aos anseios, medos e sonhos de outros indivíduos. O seu egoísmo é tão grande que ela não trata ninguém de forma decente, encarando todos como possíveis obstáculos a lhe separarem da felicidade. Ela é uma escritora reconhecida pelo aspecto humano da sua obra – apesar de não ter empatia nenhuma ou senso de observação que nos autorize a imaginá-la como uma artista capaz de se conectar a um público.

Não entendo como um artista pode existir sem ser humano. Se a arte é um produto humano, seja como artista ou seja na forma de uma apreensão diferenciada do mundo, tal variável não pode ser desconsiderada. Inclusive vou um pouco mais longe e digo que artista de verdade não é aquele que possui a melhor técnica ou o assunto mais adequado para abordar, mas aquele que consegue articular melhor a sua humanidade de forma a tocar na dos outros. Na minha visão, a arte só existe como forma máxima de expressão do humano, o que me deixa um pouco decepcionado com os tempos atuais, em que ela deixou esse caráter imanente e passou a ser aquilo que o autor diz que é arte, por mais conceitual e vago que seja.

Não faz muito tempo eu comentei que, antes de ser artista, qualquer pessoa deveria se afundar nos estudos sobre a natureza humana e sobre todos os assuntos possíveis do conhecimento. Nenhum assunto pode existir somente sob uma ótica, tudo é um prisma multifacetado, um mosaico de peças que não combinam. A arte não é só fazer uma obra e colocar algum conceito nela, mas uma tentativa tênue de chegar ao infinito usando um meio físico. Os grandes artistas são aqueles que mergulharam tão fundo no seu oceano interior que conseguiram fazer-nos ver o nosso reflexo nele.

Quando penso em artista completo, tanto pelos defeitos quanto pelas virtudes, o único nome que me ocorre é o de Leon Tolstói. O escritor russo foi cheio de falhas e de posicionamentos morais controvertidos, mas, em relação à sua arte, ele tentou ir além de si mesmo. Sempre tentou abandonar o que era e revelar o espelho cujo reflexo fazemos de conta que não existe. Sua versatilidade temática é impressionante. Querem conhecer as paisagens russas e os dramas dos camponeses? Leiam os contos de Tolstói. Querem discutir a instabilidade dos relacionamentos humanos e as hipocrisias sociais? Leiam “Ana Karênina”. Querem saber como é morrer, as pequenas misérias que norteiam as nossas existências e a fragilidade da vida? Leiam “A morte de Ivan Ilitch”. Querem saber como um mundo inteiro pode existir dentro do nosso mundo? Leiam “Guerra e Paz”. Para Tolstói, a arte sempre foi tudo ou nada, e ele se desnudava por completo dentro da obra. Os leitores reconhecem o seu esforço, tanto que continuo vendo a habilidade com que ele construiu as suas tramas até hoje, em um domínio técnico invejável, sem esquecer a piedade com que encarava o seu semelhante.

Leon Tolstói

E aqui chego naquilo que, para mim, diferencia um artista medíocre de alguém inesquecível: a piedade. Os artistas completos cujos nomes lembro – Auguste Rodin, Camille Claudel, Fernando Pessoa, Leon Tolstói, Jane Austen, Fiódor Dostoiévski, Dickens, Diego Velázquez, Joseph William Turner, Artemisia Gentileschi, Mozart, Beethoven, Tchaikovsky – foram pessoas que usaram a sua arte não com o propósito de fazer sucesso ou conseguir sustento material, mas para tocar o humano nas pessoas que sequer conheciam. Para fazer isso, eles não só entenderam o passado e o futuro dos indivíduos, como viram as suas pequenezes e foram capazes de perdoá-los, pois nós não sabemos muito bem o que estamos fazendo e precisamos que alguém nos segure a mão e diga que tudo vai acabar bem no final da nossa história.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s