Ontem assisti a uma montagem de “Yerma”, peça teatral escrita por Federico Garcia Lorca em 1936, e que revela uma incrível atualidade com questões que ainda afligem a Humanidade, como casais que não conseguem ter filhos, a pressão da família para que as mulheres engravidem, as fofocas constituintes de qualquer grupo social, os abortos e a liberdade feminina de dispor sobre o próprio corpo.

Sempre que vou assistir a uma adaptação de alguma obra literária, passo os dias anteriores e posteriores fazendo uma breve imersão no escritor e, assim, acabo redescobrindo algumas preciosidades que julgava esquecidas, bem como anotações de cenas e ideias de histórias futuras. É o Gustavo do passado deixando lembretes e migalhas para aquele que ainda virá.

Lendo a “Obra poética completa de Federico Garcia Lorca”, achei um papel com essa anotação: “Na fila do supermercado, uma moça contava para a outra a angústia que era esperar a mensagem do WhatsApp do rapaz que gostava”.

O poema foi escrito muito antes da criação destas inovações tecnológicas que, no fundo, não servem para esconder a grande verdade: sempre estamos esperando uma mensagem de amor, não interessa a forma ou o mecanismo, mas sempre esperamos.

Eis o poema que tal cena me recordou:

El poeta pide a su amor que le escriba

Amor de mis entrañas, viva muerte,
en vano espero tu palabra escrita
y pienso, con la flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte.

El aire es inmortal. La piedra inerte
ni conoce la sombra ni la evita.
Corazón interior no necesita
la miel helada que la luna vierte.

Pero yo te sufrí. Rasgué mis venas,
tigre y paloma, sobre tu cintura
en duelo de mordiscos y azucenas.

Llena pues de palabras mi locura
o déjame vivir en mi serena
noche del alma para siempre oscura.

Mulher de vestido azul lendo carta – Johannes Vermeer
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