Na minha coluna dessa semana no Artrianon, eu tratei da escultura “O boxeador de Quirinal”, feita por um artista cujo nome se perdeu no tempo, estimativamente concluída entre os anos de 330 e 50 a. C., ou seja, existem fundadas dúvidas sobre a sua idade. Acredita-se que ela mostre o famoso boxeador Theogenes, campeão absoluto de boxe na Grécia por muitos anos.

Ainda que muitas pessoas considerem a postura do boxeador como se ele estivesse repousando – inclusive intitulam a estátua como “O boxeador em descanso” -, eu percebo, pelo olhar meio agoniado que ele dirige a um interlocutor invisível, a pergunta que todos temem ter que responder: chegou a hora das derrotas se tornarem mais frequentes do que as vitórias? Passei do meu apogeu?

Enfim, são reflexões. Quem estiver disposto, sugiro ler esse texto com a bela música “The Boxer” do Simon e Garfunkel como fundo sonoro.

Boa leitura!

“O boxeador de Quirinal” (330-50 a.C.), Anônimo

 

Sentado, o boxeador não tem somente o peso da idade a prostrar a sua coluna, mas também a sombra de algo desconhecido que desce sobre seu corpo e lhe preenche de medo, algo que se mistura ao gosto amargo do sangue e à bile que tenta escalar a sua garganta. É a derrota que experimentou pela primeira vez e, agora, crava dentes ansiosos no seu espírito até então confiante e invencível. Então, é assim que os fracassados se sentem: cercados por rostos indiferentes, por risadinhas desconfortáveis, pela pena. Ele ainda está atordoado; não imaginava que o adversário fosse tão rápido, que seus golpes fossem tão potentes, que a sua resistência fosse tão fácil de ser batida. Os dedos cobertos de cortes e machucados ainda recendem a uma mistura enjoada de sândalo e de esperança; no rosto, cicatrizes espreitam os olhos impregnados de abismo e de angústia. A batalha está cada vez mais se afastando no passado, mas ele sente os grãos da areia do ringue ainda queimarem no seu rosto onde o sangue crava marcas ciumentas por entre riscos, feridas, hematomas. Perdeu alguns dentes, seu nariz está quebrado, os dedos fraturados, mas o pior é o espírito que, jogado sobre a pedra, sabe que aquela é só a primeira de uma sequência de derrotas. Agora que ele tombou diante da arrogância dos jovens, a tendência é cair cada vez mais, até se transformar em uma sombra do lutador inexpugnável de outrora, um andrajo que se arrasta por ringues cada vez mais fedidos e menores. A primeira derrota queima na sua memória, mas nada é pior do que a vergonha de descobrir que, afinal de contas, Theogenes, o boxeador, é só mais um humano prestes a ser engolido pela Velhice e pelo Medo.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/08/27/obras-inquietas-42-o-boxeador-de-quirinal-330-50-a-c-anonimo/

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Um comentário em “Obras Inquietas – 42. “O boxeador de Quirinal” (330-50 a. C.), Anônimo

  1. Quando vejo pessoas dentro dos ringues, logo penso sobre suas motivações para estarem ali.Talvez pense nisso para não deixar de imaginá-los como humanos, porém minha curiosidade é dominada pela angústia.Fico perplexa em segundos. Ouço os apaixonados dizerem que a luta é como um ballet. O jogo de pernas, esquivar o corpo, trazer os braços para frente do rosto ou arremessar contra o outro um dos braços… Pensando assim, algum traço de poesia posso insistir em procurar. Entretanto, é inegável a beleza da peça. Meu olhar ficou retido aos caracóis dos cabelos do boxeador, pois quando imagino um deus mitológico esse detalhe é frequente. Mas como seria um deus derrotado, um deus cansado e rendido ou um deus velho e com medo? Ou seria um deus que decidiu brincar de ser mortal e percebeu na pele qual a medida da audácia e da fragilidade ou da vulnerabilidade e da esperança dos comuns.

    Abraços.

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