Todos dizem que a leitura está sob ameaça. Dizem que os leitores estão em extinção, substituindo os prazeres de um livro pela tecnologia cada vez mais onipresente. O governo afirma que vai investir mais e mais para ampliar a leitura de jovens e adolescentes, enquanto a sociedade reclama que falta investimento.

No entanto, não é o que vejo por aí. Sim, faz falta uma política global de estímulo à leitura, mas essa política seria melhor representada se, ao invés de lançarmos mais obras, concentrássemo-nos em proporcionar um maior acesso ao livro, além de apoio ao autor, reserva de mercado para autores locais (por quê não?), e toda uma rede de proteção à leitura que sabe que ela não se esgota com a leitura solitária de uma obra destinada ao vestibular ou a uma prova, mas é um processo a longo prazo.

Enquanto isso não acontece, percebo o crescimento de uma leitura selvagem, independente dos desejos dos governos ou das opiniões dos entendidos – uma leitura que sobrevive nos locais mais inesperados. Uma atitude quase rebelde e, por ser voluntária e não aparecer nas estatísticas, a experiência transgressora mais incrível – aquela que não é publicizada. Basta olhar para os lados e muitos leitores aparecem, apesar da nossa constante crise de desesperança.Vivenciei duas experiências recentemente:

1 – Quando voltava do Rio de Janeiro para Porto Alegre, ao meu lado no avião sentou-se uma menina de 08, 09 anos, acompanhada da sua mãe. Tão logo se acomodou, entregou-se à leitura de um livro. Curioso para saber qual obra prendia a atenção da minha colega de poltrona, espichei o olho e percebi que era “O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupéry. Não resisti e perguntei o que ela pensava do livro. Muito séria, a menina respondeu que estava lendo pela segunda vez, para “conferir algumas coisas”, e continuava gostando bastante. Perguntou o que eu estava achando do livro que carregava (estou lendo “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby”, do Dickens, um portento de quase 1000 páginas) e respondi que também estava gostando. Assim como quem não quer nada, acrescentei “sabe, eu também escrevo livros…” Não é sempre que me identifico como escritor. A menina me encarou por uns segundos e ergueu “O Pequeno Príncipe”, perguntando “Bons como essa daqui?” Eu respondi que não, infelizmente não. Ela abriu o livro e disse “então não escreve direito, livro tem que ser bom.” Voltou a ler e não conversou mais comigo; perdi o respeito por causa da minha confissão. No meio da viagem, desistiu da leitura e se aninhou nos braços da mãe, dormindo com tranquilidade invejável.

 

Robert Doisneau, La ronde 1956

02 – No domingo passado, passava por uma avenida de Porto Alegre quando percebi um mendigo embaixo da marquise, lendo “O matuto”. Estava completamente envolvido com a leitura, os lábios formando as palavras, e eu paralisei no meio da caminhada. Não sabia que livro era aquele ou, melhor dizendo, nunca o tinha visto. Não sei o motivo, mas, na hora, recordei de José de Alencar. O mendigo percebeu que era observado e me encarou com semblante ameaçador, perguntando qual o problema. Eu confessei minha ignorância: não sabia que livro era aquele, podia me resumir a história? O mendigo ficou contente por ter um interlocutor que não o encarava com pena ou reprovação e desandou a resumir o livro, sobre um homem rico que foi raptado quando criança e levado para uma cidade do interior do país, crescendo como um analfabeto, até ser encontrado e assumir a posição de homem mais rico do país. A autora era Zibia Gasparetto, auxiliada pelo Espírito Lucius. Foi difícil me desvencilhar do mendigo, que desejava passar o dia todo falando sobre o livro. O seu entusiasmo de falar sobre a obra era tão genuíno que somente depois percebi: tanto ele não pedira dinheiro ou comida quanto eu esquecera de oferecer.

Apesar de tudo, apesar das opiniões bocejantes dos especialistas, apesar do descaso dos governos, apesar das inúmeras pessoas que apregoam a importância da leitura sem adotar nenhuma prática pessoal nesse sentido, ainda assim ela sobrevive. Não está nos holofotes, mas é um movimento subterrâneo, quase clandestino. Seja no silêncio do lar, seja em um elevador, seja debaixo de uma marquise, existe uma multidão de leitores silenciosos, e é neles que está o futuro do mundo.

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