Imerso na areia movediça

Excesso de gentileza me deixa desconfortável.

Estava pensando nisso ao comprar o café hoje pela manhã. Muitos anos atrás, acertei com meu terapeuta que iria interagir mais com as pessoas. Ando sempre com as defesas levantadas (“shields up!”, como diria o capitão Jean-Luc Picard da Enterprise): os dramas alheios me invadem sem pedir licença e acabam machucando no processo – quando me contam algo, eu sou você e sou o algo, sinto tudo com a força desproporcional que a imaginação confere -, então prefiro fechar as comportas, evitar interações, passar ao largo dos problemas dos outros antes que eles me afetem. É uma estratégia defensiva. O terapeuta achou necessário começar por um pequeno passo e, assim, todos os dias eu compro um café no McDonald’s e tento interagir por alguns minutos, mantendo uma distância regulamentar.

Nas últimas duas semanas, o pessoal que trabalha no McDonald’s descobriu o meu nome. Afinal, são três anos cumprindo o ritual de comprar o café no mesmo lugar, acabei chamando a atenção. Desde então, basta entrar no McDonald’s e as funcionárias me cercam: “Oi, Gustavo!”, “tudo bem, Gustavo?”, “o mesmo café de sempre, Gustavo?”, “bom dia, Gustavo!”, “cadê o café do Gustavo?”. Isso quando não me dão cafés gratuitos ou trazem meu café antes mesmo de eu pagar, “fiz agora o café e está bem quentinho para ti, Gustavo”. É o inferno para uma pessoa tímida. Não sei como dizer que gostaria de ser tratado de novo com desconsideração e com indiferença – descobrir meu nome abriu as portas de uma série de diálogos íntimos que eu  não teria.

Entendo que, usando o nome, elas tenham a intenção de me tocar, ainda que metaforicamente. Entendo e respeito isso. Imaginem agora o que sinto desde que, nos últimos tempos, várias pessoas por semana passaram a me interromper do nada e começam a falar comigo com grande intimidade. São meus leitores e leitoras, a grande maioria agradecida pelas histórias que escrevo, todos expressando o desejo de compartilhar suas opiniões comigo, todos querendo escutar minhas opiniões.

Não sou mal educado ou mal agradecido. Gosto dos meus leitores – são ótimas pessoas, muito divertidos e costumam interagir até com certa veemência com o livro. Com todos eu parei e conversei por um tempo, e com alguns tirei fotos ou autografei guardanapos e outros papéis (até um braço autografei esses dias).

Após uma longa autoanálise, percebi que essa situação não me fazia bem. Não entrei na literatura para interagir, entrei para escrever. Já lancei duas obras, tive mais leitores do que imaginava que algum dia teria e não pretendo me sustentar com ela, até por que viver de literatura no Brasil é uma utopia que despertaria gargalhadas em Thomas More. Escrever só para mim dá tanto prazer quanto escrever para os outros, e sou meu leitor mais selvagem e exigente. Aliás, por muitos anos fui meu único leitor, e nunca fui condescendente comigo mesmo. A literatura já tinha cumprido o propósito que eu imaginava: escrever livros, ser lido, ser comentado, ser criticado. Mais do que isso é exagero, e dois livros parece uma ótima produção.

Portanto, pensei que agora poderia deixar o meu barco mais preso ao porto. Evitar eventos literários de maneira gradual. Parar de publicar em papel. Restringir exposições públicas. Fechar meus textos comigo, que é o local onde eles nascem e podem permanecer tranquilos. Silenciar aos poucos até sumir de vez. Não parar de escrever – não consigo -, mas permanecer em silêncio. Meu último ato oficial na escrita seria a tese de doutorado de Escrita Criativa, a perfeita saída de cena. Uma andorinha não faz verão; um escritor a mais ou a menos no mundo não muda nada. E eu adoraria voltar a ser leitor.

Entretanto, desde o momento em que pensei isso e decidi esquematizar uma retirada gradual e discreta, fui inadvertidamente sufocado por uma onda de carinho. Não sei se existe serendipidade, não sei se é destino ou mera coincidência, ou mesmo se existem forças invisíveis interligando as pessoas, mas, nas últimas semanas, leitores que nunca conversaram comigo ou entre si me cumularam de mensagens de texto, de e-mails, de gravações de áudio, de fotos dos livros. São agradecimentos, sugestões, perguntas, elogios que me fazem enrubescer.

Em tempos normais, não daria tanta atenção para esse tipo de mensagens, mas foi tão orquestrado e tão simultâneo que me deixou com dúvidas. “Você se torna responsável por aquilo que cativa”, já dizia o sábio Pequeno Príncipe do Saint-Exupéry, e escrever também é um ato de responsabilidade perante os outros. Não sou uma pessoa irresponsável; tenho dezenas de defeitos, mas não esse.

Só agora entendi um conto presente no meu próprio livro, “Tema de Sísifo”. Um homem acorda em uma casa à beira de um rochedo. Passa o dia de forma normal, usufruindo de pequenos prazeres: os raios do sol na parede caiada, uma tigela de arroz, uma sombra inoportuna. Contudo, sua alma não se encontra pacificada; em meio aos ensinamentos deixados por Pitágoras, o homem sente que alguma coisa está fora da ordem. No meio da tarde, caminha na beira da praia; percebe a silhueta distante de pessoas a lhe vigiar, e machuca o pé. Tem a súbita noção de que aquele dia já aconteceu antes. Sente-se invadido pelo terror ao notar que está preso em uma situação impossível de ser vencida, que cada dia será igual ao anterior e ao posterior, pois ele é um “Deus aprisionado na própria armadilha”, o Sísifo por excelência.

Quando escrevi esse conto, não entendi todas as suas possibilidades, mas agora vejo que era a literatura falando comigo, mostrando o espelho incômodo onde estou preso e do qual não consigo escapar. Estou na pior das areias movediças: a que eu mesmo engendrei.

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