O Poema sem Fim de Utrecht

Isso é muito lindo. No exato momento em que estou escrevendo essas palavras – e você está lendo -, um poema sem fim está sendo escrito com palavras e pedras na cidade holandesa de Utreicht.

Os responsáveis pelo poema são os integrantes da Guilda de Poetas de Utreicht. Cabe a eles escolherem a palavra que será escrita em pedra. O funcionamento é simples e, depois de cinco anos, transformou-se em um ritual. Todo sábado, o dono de uma pedreira local transporta uma pedra até a beira do canal local e a deixa ali, até o poeta surgir com seu formão e inscrever a letra. Em seguida, a pedra é arrastada até o fosso em que as suas irmãs se encontram, juntando-se a elas em uma linha sucessiva que forma palavras, que se juntam em versos, que virarão uma poesia que ninguém sabe como ou quando terminará – se é que terminará algum dia.

O projeto – considerado uma “escultura social feita ao ar livre” – começou oficialmente em 2012, mas nesse ano foram acrescentados 648 blocos correspondendo às letras que eram devidas desde o dia 01 de janeiro do ano de 2000, então, para todos os efeitos, é um projeto que teve o seu início com o século XXI e se estenderá enquanto existirem palavras, enquanto existirem pedras, enquanto existirem poetas.

O poema tem um título, “Cartas de Utreicht”, e a linha pela qual ele segue contorna o antigo canal da cidade (Oudegracht), mas já existe uma ideia de como expandi-la se, algum dia, o canal não for mais suficiente para a poesia. Veremos, então, o que é mais forte: o rio ou a poesia. A geografia e suas linhas duras e furiosas ou a instabilidade da imaginação.

O projeto é apoiado pela cidade, que também se mobiliza para saber qual caminho o poema tomará. Leva semanas para as palavras se formarem, e alguns meses para as orações se tornarem compreensíveis, mas quem disse que a poesia não é um trabalho de construção laboriosa e muita paciência? Desconfio muito desses poetas que se jactam de escreverem de forma compulsiva, com a inspiração à flor da pele, em um fluxo contínuo de imagens poéticas. Para mim, a verdadeira poesia se faz assim: uma letra de cada vez, as palavras sendo paulatinamente conquistadas pelo entusiasmo ou pelo cansaço, até se renderem em versos e estes em estrofes. Desconfio da poesia rápida, pois tudo aquilo que é facilmente feito, é também fácil de ser esquecido.

Não posso sequer imaginar como será o dia em que o último poeta de Utreicht – pois tudo chega até o fim, mesmo os poetas – estiver formando as derradeiras letras para colocar nos versos iniciados por uma longa linhagem de homens e mulheres que lhe antecederam, todos unidos sob a mesma bandeira e mesmo sonho. Será que a pedra terá o mesmo peso, será que as palavras ainda farão sentido? Será que ele verá o fim do poema ou o deixará inconcluso, incapaz de encerrar um trabalho de tantos anos?

O Poema sem Fim, ou as “Cartas de Utreicht”, possui os seguintes versos, traduzidos para o inglês pela equipe do Atlas Obscura (www.atlasobscura.com):

You have to start somewhere to give the past a place, the present is getting less and less. The further you are, the better. Go ahead now,

Leave your tracks. Forget the flash in which you may exist, the world is your street plan. Was there a time when you were another: it went by.

You are the other though. You are, as you know, the spell of this story. This is eternity. It takes. It’s time. Therefore, go into your story and swallow. Tell.

Tell us who you are with each step. In our story we disappear naturally, and only you remain in the long run. You and these letters, which are cut out of stone. Like the letters on our grave.

They burst into the Dom. Raised to the sky like an index finger, to indicate the guilty and demand more time. So we can go up straight, like people along the canal.

Stare at their feet. Look up! See Utrecht’s churches protruding above ground level. Raise the hands, begging with the towers to be this privilege: to be, now. The weather is nice.

Stand on. Life is witness to your gaze on the horizon. Your footsteps …

Está ficando um poema ótimo.Provavelmente não estaremos vivos para saber o seu final, e nisso existe uma lição de humildade: o Tempo não existe para a Poesia. Nós criamos o Tempo que nos encapsula, mas, para a Poesia – e para as Pedras – o Tempo é um conceito tão vago que sequer é levado em consideração. O que importa, no final do dia, é prosseguir em frente, sem saber se aquela é a última palavra, uma letra qualquer no muro da existência ou se chegamos ao verso final da vida.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Cartas de Utreicht, Impressões, Lugares, Poesia, Utreicht

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s