Obras Inquietas – 29: Estátua suméria de casal diante de Deus (c. 2.600 a. C.), Anônimo

Ando um pouco atrasado nas minhas atualizações sobre os textos que escrevi para a minha coluna no “Obras Inquietas” lá no Artrianon, mas aos poucos vou colocando eles aqui.

Sou um grande admirador da arte suméria, que teve seu apogeu mais de 2.000 anos antes de Cristo. É uma arte acostumada ao terrível, ao inominável, ao que está além do alcance. Nas estátuas, era costume colocarem homens e mulheres mergulhados no mais absoluto pânico, tentando se deparar com questões que iam muito além da sua capacidade de compreensão, o que não deixa de ser uma ótima representação da Humanidade. A diferença é que, nos tempos atuais, preferimos ignorar as perguntas ao invés de tentar respondê-las.

Boa leitura!

“Estátua suméria de casal diante de Deus” (c. 2.600 a.C.), Anônimo

Contemple o vosso Deus e estremeça, verme. Fique diante do Impossível; sinta a presença queimar o mundo, eviscerar as suas memórias, preencher o universo com um canto de terror e enlevo. Toda a sua vida foi uma antecipação desse momento e, agora que ele enfim aconteceu, a fala sumiu, o choro desapareceu e restou somente o desespero de se saber ínfimo, insignificante engrenagem em um jogo que já existia antes da sua chegada e continuará sendo jogado com bocejante previsibilidade. Sinta a sua real extensão, criatura de pó e cinzas postergadas. Suas mãos ainda recendem à terra que semeou pela manhã; muitas vezes eu o acompanhei nos afazeres no campo, nos olhares temerosos lançados à noite e às crueldades que moram nos gritos invisíveis da escuridão. Eu lambi os seus arrepios de horror quando a Morte chegou, eu estava presente quando a vida lhe bafejou de graça e medo. Vejo que você trouxe a sua mulher, como se isso fosse trazer piedade, como se um Deus pudesse lhe perdoar por algo tão abominável e transitório quanto o amor. Vocês se abraçam, procurando conforto para o que sequer conseguem explicar, preenchidos pela presença de algo inominável, fatídico, repleto de violência e sofreguidão, que está na sua frente e em todos os lugares. Escuto as preces titubeantes entoadas por vocês, dois fazendeiros, buscando uma piedade que jamais oferecerei, e a minha risada faz o firmamento encolher as suas nuvens: eu já estive diante de reis, de prostitutas e de macacos; já fechei os olhos de falsos deuses, já beijei os lábios de criaturas extintas. Não há espaço para piedade nesse mundo, nunca houve. Pois eu sou o vosso Deus, aquele que não possui sombra, o que estava antes e estará depois, o horror sem nome, e vocês não passam de pasto para uma fome que nunca termina.

Texto publicado originalmente no link https://artrianon.com/2017/04/30/obras-inquietas-26-estatua-sumeria-de-casal-diante-de-deus-anonimo-c-2600-a-c/

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2 Comentários

Arquivado em Arte, Arte suméria, Crônicas, Obras Inquietas, Produção Literária

2 Respostas para “Obras Inquietas – 29: Estátua suméria de casal diante de Deus (c. 2.600 a. C.), Anônimo

  1. Fiquei preocupado, teve um hiato muito longo entre um texto e outro, não faça mais isso.

    • Tens razão, Jefferson. Andei um pouco adoentado, mas estou cheio de textos prontos para ir colocando aqui. Nos próximos dias acontecerá uma derrama de textos, heheheheh. Muito obrigado pela leitura! 🙂

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