Sobre o processo de transformar palavras em igrejas

Todo mundo gosta de escrever sobre si mesmo e sobre aquilo que conhece. Desafio mesmo é escrever sobre o que não vemos e, ainda assim, existe.

Três anos atrás, fui convidado a participar de uma antologia de contos. Eu devia escrever sobre Santa Cruz do Sul, sobre algum detalhe da cidade ou de seu povo.

No final, escrevi dois contos. O primeiro, uma história de terror exemplar, “Morrer em Santa Cruz do Sul”, uma trama em que um engenheiro de tráfego descobria que as ruas da cidade tinham vida própria, escolhendo de forma caprichosa as pessoas que deviam morrer, e que cada cidade possuía um espírito sombrio esgueirando-se pelos suas tubulações, esquinas e parques. Um dia ainda pretendo publicá-lo em algum lugar (apesar de ser uma história que dificilmente me deixaria nas graças da valorosa população de Santa Cruz do Sul. É uma homenagem duvidosa, mas interessante, acreditem).

O segundo conto não se passa propriamente em Santa Cruz do Sul, mas no distrito de Rio Pardinho. Uma amiga, Andrea Kahmann, certa vez me contou que a primeira igreja luterana da cidade tinha sido construída em escassos 4 meses e meio por cinquenta e dois homens, que largaram o que estavam fazendo para realizar tal tarefa. A história me fascinou por vários motivos, em especial pela força moral desses homens e suas mulheres que deixaram tudo de lado para construir algo que atravessasse os anos. Em épocas em que somos regidos pelo signo do instantâneo, parece incrível que existem pessoas que pensem não só na satisfação egoísta e momentânea, mas em obras que sobrevivam ao próprio Tempo.

O resultado dessa reflexão foi o conto seguinte, “Cinquenta e duas agonias”, que pretendi escrever como uma homenagem a esses cinquenta e dois desconhecidos. Ainda é uma história que me deixa comovido, pois tenho a forte impressão de que escrevi algo sobre muito maior do que a simples construção de uma igreja.

Eu escrevi sobre essa igreja sem nunca tê-la visto, escutando as histórias contadas pela Andrea, os relatos de outros moradores e investigando sobre o assunto em livros e na internet. Tinha um certo receio de que encontrar a igreja fosse sepultar a minha narrativa antes mesmo que ela conseguisse nascer.

Pois ontem, três anos depois, eu enfim estive na Igreja dos Imigrantes em Rio Pardinho. Foi uma experiência única: encontrar o local que sonhei antes mesmo que ele existisse, e que existia antes mesmo de eu sonhar.

O mais incrível foi ver que a minha história deturpou a realidade: não conseguia mais estar diante da pequena Igreja dos Imigrantes sem ver a sombra dos 52 homens que a construíram. Discreto, o local quase esquecido fica sobre um morro, e a sua vista vai longe. No campanário da pequena torre, uma enorme colmeia de marimbondos despejava criaturinhas voadoras como se fossem mísseis a me cercar. E o silêncio…! Insuperável. Se existe um lugar que eu acredito que Deus possa vir se sentar às vezes para tomar um mate e comer uma cuca, seria sob a sombra da Igreja dos Imigrantes de Rio Pardinho.

Não tenho mais vontade de dedicar histórias para outras pessoas, a não ser que elas façam por merecer – E MUITO. Pois eu dediquei esse conto para a Andrea Kahmann, que não só foi a sua primeira leitora como chorou cântaros quando viu o milagre que a literatura é capaz de fazer: ressuscitar uma história quase esquecida e fazer os mortos sorrirem de novo.

Eis o conto – e com imagens da igreja cuja construção narrei (ou sonhei, o que dá quase no mesmo).

 

Cinquenta e duas agonias

Para Andrea Kahmann,  que acredita.

Ninguém sabe quando a primeira pedra apareceu; não se sabe o local onde ela repousava em mudez eterna, se ela imaginava o destino de tornar-se a primeira, se ela pensava que, algum dia, iria sustentar um templo sobre as suas costas. Assim como nenhum homem escolhe sua missão, não cabe à rocha discutir os desígnios misteriosos que fizeram dela a eleita, ao invés da semelhante que repousava ao lado. Afinal, entre todos os usos que se podia dar a uma pedra, desde assassinatos até a indiferença, fazer parte de um todo maior ainda era o mais louvável.

Os homens apareceram na manhã chuvosa, as roupas sujas e enlameadas antecipando o barro que logo se agarraria como ventosa nos corpos e nem a mais límpida água seria capaz de remover. Do barro eles vieram, e no barro voltariam a se enfiar. Ninguém lembraria o dia em que eles tomaram a decisão, pois ninguém se importa com o início, somente o fim das coisas é que se conta de geração em geração. Não sabemos se eles oraram, se alguém lhes dedicou palavras de incentivo, se eles riam ou se estavam sérios. Não sabemos quase nada sobre eles; talvez alguns nomes ainda nos espiem das lápides do cemitério, talvez eles ainda nos vejam se aproximar da obra para a qual dedicariam tantos medos. O que sabemos é que, um dia, um homem olhou para o pedaço de chão e sonhou um templo. Algumas pessoas sonham filhos, outras sonham futuros, mas este homem, no palácio da sua imaginação, desenhou uma casa para louvar Deus. Era um templo impossível: as cores que lhe foram dadas pelo sonho não existiam no mundo real, o tamanho era desproporcional ao seu custo, ele possuía colunatas, abóbadas, vestíbulos, naves e vitrais que ficariam para sempre presos na mente do homem, limitados pela realidade dura dos tempos difíceis em que viviam. Nunca conheceremos a verdadeira igreja, ela está sepultada com quem a sonhou – e perdida para sempre. Conhecemos somente a sua sombra, a imperfeição que mãos humanas transformaram em realidade. Assim como ignoramos a primeira pedra, nunca conheceremos o projeto original do sonhador, e a noção da nossa falibilidade é pedra angustiada que cai em um poço escuro sem saber onde está o alívio do chão.

Ao final do dia, cinquenta e duas pessoas trabalhavam no terreno. Cinquenta e dois homens de fé, dizia o pastor. Cinquenta e dois loucos, bradavam alguns moradores da região, rindo pelas costas daqueles que abandonaram as famílias e as plantações para construir algo pelo qual não ganhariam nada. Cinquenta e dois hereges, sussurrariam os católicos, incomodados com a ideia de um templo erguido para a pregação de palavras que não as suas. Homens de fé, loucos ou hereges, o rótulo pouco interessava. Se alguém perguntasse para eles o motivo de estarem ali, trabalhando debaixo do sol que nunca sorria e correndo o risco de prejudicar a economia das suas famílias, eles provavelmente não conseguiriam responder. Não era pelo que acreditavam, muito menos por insanidade; faziam por que alguém precisava fazer, por que a Humanidade se divide entre os que fazem e os que ficam assistindo. Precisavam deixar a sua marca no mundo e atravessar os tempos. Seus filhos e os filhos de seus filhos e os filhos destes e todos os demais saberiam de sua existência, não só pelo nome gravado na pedra deitada, mas pelas rochas postas em pé na missão de se tornarem um templo.

Os dias da construção se sucederam. Às vezes, era tão frio que os construtores não conseguiam dobrar os dedos sem a dor estilhaçar suas mãos.Enquanto a geada se espalhava como um manto branco sobre os campos e as árvores secas murmuravam promessas de vento, o mais inabalável dos espíritos encolhia-se e esfregava as mãos em busca de consolo e levantava-as aos céus à espera de mais. Em outras ocasiões, a chuva desmoronava como se o céu quisesse trocar de lugar com a terra, e relâmpagos cruzavam os campos com fúria, despedaçando o silêncio e urrando tempestades. Havia, também,os dias quentes, quando o tempo se arrastava, contado em excruciantes gotas de suor no meio do barro, e o mundo inteiro queimava, devagar e crepitante. Eram cinquenta e dois homens acostumados aos humores da natureza, mas, encolhidos no frio e fugindo do vento insidioso, ou encharcados de tanta água que a pele parecia se dissolver, ou sentindo o calor traçar rios de lava dentro das suas veias, era inevitável que tivessem dúvidas, que sentissem as forças esmorecerem. No entanto, contra todo o comodismo e conforto, não desistiram. Era difícil de explicar tal obstinação para os outros, mas os sacrifícios valiam a pena quando, no final do dia, eles viam o sol se acovardar na linha do horizonte e as primeiras estrelas os recordavam das promessas de um mundo novo, com terras férteis e comida em abundância, mas onde a fé não podia faltar. Ou, então, quando o orvalho da manhã era surpreendido pelo dia, erguendo fumaças tímidas que desenhavam imagens sobre o campo; ou quando as nuvens perseguiam o firmamento e mudavam de tonalidade à medida que o dia passava, limpando um pouco das humanidades afligidas pelo cansaço.

E a igreja subia as paredes em direção ao céu. A cada linha de pedra assentada, o trabalho se intensificava, mas a visão inebriante da obra compensava a dificuldade. Aquilo que tinha sido o sonho de um, agora virava realidade para todos. Eles paravam diante das paredes inconclusas, dos locais em que ficariam as janelas, do ponto em que seria instalado o púlpito, e também sonhavam. Não era um templo que estava naquele terreno; existiam mais cinquenta e duas almas de prédios, cada uma delas com a versão do seu construtor, sentenciada a ruir nas paragens instáveis do sonho enquanto tentava virar realidade. Cada trabalhador acreditava que a sua visão era a mais verdadeira, e, ao final, quando restasse somente uma igreja de pedra, todos teriam certeza que aquela era a sua igreja, a que tinham sonhado em silêncio no meio do campo.

Por vezes, as mulheres vinham ajudar no trabalho. Traziam cucas, pães e assados, espalhando-se ao redor do terreno em um piquenique improvisado, costurando, cerzindo e conversando, enquanto atendiam as crianças que corriam ao redor. Nenhum dos homens confessaria em voz alta, mas a visão de suas famílias e da vida que vicejava ao redor era um estímulo para o trabalho. Mesmo o pastor, com as suas incessantes pregações ao redor da obra, era incapaz de dar a mesma sensação de completude. Ele prometera que, além do culto e da doutrina, a igreja seria o abrigo das primeiras letras, das matemáticas simples e das lições de vida, servindo para formar o caráter das gerações futuras. A sensação de saber que sua obra espalharia religião e educação pelo novo mundo, aliando o divino com o conhecimento humano, também lhes dava força para prosseguir no objetivo: um olho nas pedras, outro nos céus. Entre os extremos, o horizonte ao qual eles chorariam a angústia de nunca mais saber daqueles que ficaram para trás, no velho mundo tão distante. Dali para frente, tudo cheiraria a barro: cheiraria a chão depois da chuva, a lavoura que se sulca para deitar sementes, à terra santa para repousar em paz. E, acima de tudo, o templo e o futuro que deixariam para os filhos e os filhos de seus filhos e aos filhos destes também, que cresceriam com outro clima, outras promessas, outras palavras, tão longe da fome e do flagelo da ignorância. Ou, ao menos, era nisso que acreditavam, no que precisavam acreditar, após tanto mar, tanta mata, tanta raiva, tanto medo.

Nos tempos atuais, as pessoas preferem comprar objetos prontos ao invés de fazê-los e, assim, dificilmente entenderão o que significa construir algo. Contudo, qualquer um que olhe o templo, perceberá que cada mísera pedra foi colocada por duas mãos. Nenhuma máquina ajudou. Cada linha de pedras emparelhada necessitou de força e da dose necessária de conhecimento. Cada parede surgiu graças às pedras colocadas uma a uma e, depois, unidas por argamassa. O templo não foi feito só por rochas ou sonhos, também foi construído com sangue, com calos, com unhas quebradas, com choros disfarçados, com queixas muito humanas. Os cinquenta e dois trabalhadores colocaram parte das suas almas no entremeio das pedras. As dores fazem parte do DNA da obra. Quando ela se alteia ao céu, não são pedras que clamam pela atenção divina: são cinquenta e duas agonias que erguem as suas vozes em uníssono para saudar o sol, para brincar com as nuvens, para ridicularizar os ventos e estremecer as tempestades. Cada homem é uma agonia de si mesmo, e cinquenta e duas almas reunidas no mesmo espaço são invencíveis.

E, assim como o Verbo se fez carne, a carne se fez pedra. As paredes se completaram. O altar foi cuidadosamente colocado. O púlpito para a leitura da Bíblia restou erguido; a palavra de Deus deve estar sempre acima da palavra dos homens. Por esta época, o cemitério ao lado da construção já possuía os primeiros corpos, pois a morte não teve a decência de esperar o término da obra. Não puderam colocar sinos, então sonharam com o seu som a percorrer os campos. Não puderam colocar uma torre, pois isso era proibido para locais não-católicos. As regras dos homens estragavam os sonhos dos construtores, mas o templo continuava existindo. Apesar disso, alguns deles suspiravam ao pensar que jamais escutariam o clamor festivo ou lúgubre do sino a chamar para as celebrações ou a anunciar as mortes, e que jamais veriam a torre cortar o céu azul com o espanto de um passarinho de pedra. Ser humano é conviver com a frustração, e era duro para os trabalhadores saber que nunca veriam o templo desejado. No entanto, sem que precisassem trocar uma palavra a respeito, um pacto se estabeleceu: um dia, um dia longínquo quem sabe, teriam sino e torre, e badalariam o metal na anunciação de seus matrimônios e da glória de se andar pela cidade dos brasileiros tendo pelas mãos os seus filhos legítimos reconhecidos,enfim,pela lei, e não só por Deus. As decisões políticas são passageiras, mas as obras ficam para sempre. E elas poderiam esperar por séculos, pacientes, pois não são somente as pessoas que sonham, um templo também ambiciona o dia em que será perfeito, em que será perfeito, e bom, justo e nobre – tudo conforme a vontade de Deus.

Assim como ninguém sabe quem escolheu e colocou a primeira pedra, nunca teremos noção de quem foi o trabalhador que pegou a última e a depositou na derradeira lacuna. Não saberemos nunca o que os cinquenta e dois homens pensaram ao se afastarem e verem o templo. Não saberemos se choravam, se conversavam ou se seus lábios exibiam sorrisos de júbilo. No entanto, podemos imaginar, e eu imagino o silêncio. Não o silêncio como ausência de som, mas o silêncio primitivo, aquele que existia no primeiro orvalho do mundo, aquele que aparece em intervalos minúsculos da experiência humana; um silêncio tão grande que é possível sentir a nossa alma raspando as paredes do corpo. Imagino que todas as palavras necessárias tinham sido ditas. Imagino que cercaram a entrada da igreja e se entregaram à imensidão do que tinham construído, mergulhando na espiral do mais puro e libertador dos silêncios. Um templo existe antes de ser templo e, apesar das pessoas considerarem o momento do seu nascimento como o dia do primeiro culto, para os seus construtores, ele estava concluído desde o instante em que o hesitante vento esquadrinhou as suas paredes e buliu com a poeira do chão.

Talvez algumas pessoas tenham transmitido para as suas famílias como foi o primeiro culto, mas as palavras exatas se perderam com o tempo. Não sabemos como os cinquenta e dois homens estavam vestidos, não sabemos se olhavam a sua obra com a adoração de quem está diante do objeto amado ou se preferiam lastimar os cortes e machucados nas mãos que, enfim, deixariam o ofício de construtor e voltariam para as plantações negligenciadas. Alguns dos seus nomes seriam apagados pelo tempo, outros deixariam marcas nas lápides do cemitério ao lado da igreja que construíram. Todo homem que constrói algo deixa uma parte da sua alma no objeto, seja ele um texto, seja ele um filho. Hoje, na Igreja dos Imigrantes em Rio Pardinho, cinquenta e duas almas, com suas agonias próprias, sentam-se entre nós e sussurram com vozes imemoriais a sua lição: os homens não são criaturas de poeira. Eles também são feitos de pedra e de sonho.

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1 comentário

Arquivado em Contos, Igreja dos Imigrantes, Lugares, Produção Literária, Rio Pardinho, Santa Cruz do Sul

Uma resposta para “Sobre o processo de transformar palavras em igrejas

  1. Que belo conto, Gustavo!
    Beijos,

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