“Variações de Casanova”, ou como um cavalheiro deveria responder a essa questão?

Quando estou em dor, é na escrita que acalmo minhas turbulências e pacifico o pensamento. Então, perdoem-me a divagação em momento tão impróprio, mas faz parte do meu procedimento de luto, e 2017 tem sido um ano – pelo menos para mim – bafejado pela morte, que está caminhando mais próxima do que eu gostaria. Quanto mais perto ela chega, mais eu falo da vida.

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Ontem fui assistir a um filme, “Variações de Casanova” (2014). Quem me conhece sabe da minha predileção por filmes que versam sobre assuntos literários, em especial personagens e autores, e Giacomo Casanova (1725-1798) sempre me interessou. Ele teve uma vida muito intensa. Foi uma pessoa que se descolou de tal forma da realidade que acabou virando personagem ficcional. Escreveu mais de 28 diários descrevendo as suas aventuras e proezas sexuais. Aquilo que o Marquês de Sade fazia com uma sexualidade violenta, Casanova conseguia através do dom da sedução. Tão forte era a lenda de Casanova que, por muitos anos, se acreditou que ele virou uma espécie de Judeu Errante, um homem que aparecia nas cidades, causava uma onda de seduções e ia embora, deixando no seu rastro várias donzelas grávidas.

Logo na entrada do cinema, a bilheteira me estendeu o ingresso e disse “tomara que o senhor não durma” – um comentário nada auspicioso. A sala estava relativamente vazia – além de mim, mais seis espectadores – e um fato que posso garantir é que todos os seis odiaram o filme. Antes mesmo dele acabar, três pessoas tinham ido embora, e as outras foram embora assim que a luz acendeu.

Por meu lado, gostei bastante. Não tenho essas veleidades de gostar de algo pelo simples prazer de ser do contra, mas apreciei o alto desafio a que o roteiro se propôs. Se teve sucesso em transmitir a intenção é um outro caso, mas a proposta ficcional era ambiciosa: por meio de uma colagem de ficção, história e realidade, “Variações de Casanova” apresentaria trechos do livro “Memórias de Casanova”, dos filmes “Casanova” feito por Ettora Scola e da versão de Fellini para o mesmo personagem, além de músicas das óperas de Mozart  e citações ao filme “Quero ser John Malkovich”. Tudo dentro do espaço dramático por excelência, o Teatro São Carlos, em Lisboa.

Então, é uma peça de teatro que intercala óperas, que intercala literatura, que intercala realidade, que intercala cinema… tudo misturado e em alternância. Muito pós-moderno, muito contemporâneo. Normalmente acho imposições criativas esses voos estilísticos (no estilo de “qual é a necessidade de tanta estrutura para contar uma simples história?”), para não dizer que parecem exercícios de presunção intertextual do autor, mas, dessa vez, foi algo feito com tamanha habilidade que pareceu natural. A única maneira de mostrar um personagem como Casanova, tão multifacetado entre realidade e ficção, é sendo igualmente multifacetado. Nunca vemos o personagem por completo, somente aquilo que queremos ver.

Na interpretação de John Malkovich e de outros atores – um deles é inclusive uma atriz -, Giacomo Casanova é mais do que um personagem unidimensional que só deseja transar com todas as mulheres, mas alguém usando palavras para seduzir todos, não interessa se homens ou mulheres. É um escritor por natureza – ou um mentiroso, como fazem questão de frisar. Ele está preso em um papel eterno da qual não consegue se desvencilhar: o de sedutor. É algo a que ele se submete às vezes com cansaço, como afirma no seu livro: “Se há um aspecto que possa redimir alguém por seduzir virgens ingênuas é que, dessa forma, as estará salvando de um destino pior, tratando-as de maneira mais gentil do que a maioria, como parceiras sexuais no mesmo nível, e que a partir daí elas usariam seus conhecimentos sobre os homens. Fora isso, seria realmente deselegante recusar suas carícias a uma menina que vem até sua cama para submeter-se a elas.”

Não à toa que, em algumas ocasiões, a mesma frase é repetida por diferentes Casanovas: o importante não é realizar algo sempre igual, mas as variações. Todas as seduções são diferentes entre si, não existem duas iguais, e a capacidade de variar é mais atraente do que a existência de uma fórmula fixa. Casanova está mais interessado pelas variações da sedução do que eme stabelecer um vínculo formal. Recordei de um conto do meu primeiro livro, “O homem despedaçado”, e que tem por título“Várias variantes variáveis variam com variações invariáveis”. Quanto mais tentamos variar, mais caímos em um lugar comum: a própria variação. Assim, a variação é uma armadilha pois, dentro de qualquer mínimo ato, existem múltiplas variações que o esgotam. Pensar isso ao extremo esgota o conceito de criatividade, e a transforma em uma variação presa dentro de outra, e ambas presas dentro de outra, e assim por diante. Assim, estamos eximidos do fardo de sermos sempre criativos quando aceitamos que a criatividade é somente uma pequena faceta de livre espírito enfadonhamente prevista no interior de outras.

Tão preso Casanova estava ao destino de sedutor nato que, quando a própria filha o requisitou para um caso amoroso, ele deixou a ideia de incesto de lado e cedeu à sedução. Outra ideia muito bem explorada no filme e que está na base de “Memórias de Casanova”: a noção de liberdade. Para o autor veneziano, o homem sempre tem o espírito livre e, quanto mais fiel for à sua natureza, maior será a sua capacidade de experimentar tal liberdade. Assim, não existe casamento, convenção social, religião ou governo que submeta um homem. Nas suas palavras, “vou começar com esta confissão: o que tenho feito no curso da minha vida, quer seja bom ou mal, foi feito livremente, pois sou um agente livre.” Observem que, para Casanova, não existe certo ou errado, moralidade ou ética. Somente a liberdade traça os seus limites, o que o exime de qualquer culpa. Um pensamento muito semelhante ao do Marquês de Sade, mas, nesse caso, foi usado de forma diferente.

Um filme muito c0mplexo, o que explica a dificuldade de conexão dos espectadores com a história. No palco, John Malkovich interpreta o papel de Casanova. Cai, aparentemente fulminado por um ataque cardíaco, e o drama é tão pungente que os funcionários do teatro correm procurando um médico. Na plateia, uma espectadora vai até o palco, identificando-se como médica. John Malkovich levanta-se, rindo, pois era parte da encenação. Casanova fez de conta que sofreu um ataque cardíaco e a espectadora achou que o homem John Malkovich estivesse morrendo, e essa cena ilustra o quanto os limites entre ficção e realidade estão borrados. Em seguida, o filme muda para o passado, em que o Casanova dito real (ou representado) está preso em uma casa onde as serviçais passam o dia inteiro inventando tormentos psicológicos para ele. Casanova sequer possui mais um nome: inventou tantas peles e pretextos que até o seu nome é uma mentira.

Uma das cenas mais interessantes é quando, no palco de teatro, descem inúmeros espelhos do teto, e todos os Casanovas (o Casanova  da ópera, o do teatro, o do cinema, o real) interagem com todas as Elisas von der Heck, com os espelhos multiplicando as imagens enquanto Casanova brinda, se embebeda e entra em briga corporal entre as suas várias identidades. Uma cena que diz muito sobre a capacidade de fragmentação de qualquer pessoa; estamos sempre em luta contra os outros eus que nos habitam. Nem todos nós somos Fernando pessoa, que conseguiu se dividir em vários.

Por fim, a idêntica pergunta repetida em inúmeros contextos: como um cavalheiro deveria responder a essa questão? Aliás, uma pergunta boa para inúmeras oportunidades do cotidiano em que vivemos.

Na primeira vez, na realidade, Elisa pergunta se é verdade que ele dormiu com a própria filha, e Casanova pergunta “como um cavalheiro deveria responder a essa questão?“. Presume-se que a pergunta é tão abominável que alguém educado não poderia sequer responder. Na segunda ocasião, no segmento da ópera, uma mulher pergunta a quantidade de conquistas amorosas de Casanova, e ele responde com a mesma pergunta, mas o seu sorriso é de vitória, como se a resposta não importasse – ou o valor apontado, 1.003, estivesse defasado.

Na terceira vez, a médica do mundo real que foi socorrer o ator aproveita um momento de interlúdio da peça e pergunta para John Malkovich se é ele é gay ou não. Quando vem a resposta, “como um cavalheiro deveria responder a essa questão?”, percebe-se que o ator desconversou habilmente para não fechar a questão com uma resposta definitiva. Na derradeira ocasião em que Casanova é confrontado, dessa vez durante a peça de teatro, a atriz que interpreta uma criada pergunta se é verdade que John Malkovich (o homem) dormiu com mais de 1.000 mulheres. Quando ele dá a resposta, a mulher sente-se seduzida pela sua discrição, e os dois arranjam um encontro somente com olhares. Responder perguntas com outras perguntas é uma estratégia muito inteligente, e ver a maneira com que a mesma resposta pode ser ressignificada dependendo da intenção do falante foi algo instrutivo.

Não é um filme fácil, e tem uma proposta arrojada, à medida que Casanova se encontra com suas diferentes facetas em inúmeras representações artísticas. Falando em termos de roteiro, é um prodígio juntar tantas expressões de arte sob a mesma batuta e fazer cada uma funcionar em uníssono com as outras. Existem algumas falhas, é claro, mas nada que comprometa o projeto criativo exposto nas duas horas de filme. No meio da história, um momento de desconstrução, quando uma amiga de John Malkovich – para quem ele pediu que produzisse um filme chamado “Variações de Casanova”, em um momento metacinematográfico – vai visitá-lo no camarim e diz que não está gostando de nada, pois não entende o que está acontecendo, e essa foi a reação dos espectadores no meu mundo real. Creio inclusive ter escutado um aplauso tímido quando, na tela, a atriz externou o que estavam pensando na minha realidade de espectador de cinema.

Como eu gosto de filmes que escapam do convencional em termos de roteiro, achei interessante “Variações de Casanova” por demonstrar a tese do meu primeiro livro de contos: cada homem é formado por inúmeros homens que existiram ou não chegaram a surgir. Até mesmo Casanova, o mestre de todos os sedutores, um homem aprisionado pela sua própria fama. Isso explica outra frase recorrente dita por Casanova nos mais diferentes sotaques e acepções: “Eu preciso de variações, eu exijo variações”. É o que nos deixa vivos – a certeza de que sempre podemos fazer algo costumeiro de uma forma alternativa.

 

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Arquivado em Casanova, Cinema, Impressões, Literatura, Produção Literária, Variações de Casanova

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