A felicidade de viver no mesmo mundo em que Tolstói esteve

Cansados dos homens medíocres que nos rodeiam e de seus pensamentos mesquinhos, ínfimos, ridículos? Também estou. Pois bem, então vamos falar de quando lendas caminhavam pela Terra.

Estou lendo a autobiografia de Constantino Stanislavski, “Minha vida na arte”, e quase não consigo sair da cadeira, de tão eletrizante a leitura. Em primeiro lugar pelo estilo: Stanislavski elenca fatos e maravilhas em um ritmo fluido que deixa impossível não mergulhar nas suas vicissitudes, seguindo uma trajetória que atravessou dois séculos e mudou a História do Teatro. Ele é o criador do Sistema Stanislavski de interpretação que, em um resumo grosseiro, afirma que o ator deve interpretar um personagem através de ações físicas que refletem o espírito do papel, usando a sua própria imaginação e vida para ficar o mais próximo possível da verdade, não da representação. O sistema explica os procedimentos de imersão dos atores não só no texto da peça, mas na época, na sociedade, na vida do autor da peça, na sua própria vida, em tudo.

Em segundo lugar, Stanislavski conheceu algumas das maiores mentes da sua época. Entre os homens e mulheres com quem conviveu, pode-se listar Ivan Turgueniev, Leon Tolstói, Anton Tchekhov, Isadora Duncan, Máximo Gorki, Henrik Ibsen, As suas indiscrições e comentários sobre essas fascinantes pessoas estão dispostas de forma tão natural que as risadas surgem de maneira natural, incontida.

Constantino Stanislavski

No entanto, o encontro com Leon Tolstói foi especialmente marcante, tanto que há alguns dias só consigo pensar nele.

Logo no início, o momento em que Constantino Stanislavski pela primeira vez esteve diante do autor de “Guerra e Paz”:

“Um dia, andava tudo ali em polvorosa, quando surge à porta, de repente, a figura imponente de um homem vestido de camponês. Aquele velho de longas barbas brancas, botas de feltro, blusa cinzenta e cinto de couro, entra na sala de jantar, onde o recebem dando gritos de alegria. Custei um pouco a perceber que era Leon Tostói em pessoa: fotografia nenhuma, retrato nenhum poderia representar exatamente a expressão daquele rosto, e sobretudo daqueles olhos, a um tempo agudos e penetrantes, doces e risonhos! Quando Tolstói fixava o olhar em alguém, ficava imóvel, concentrado, como se tentasse aspirar na alma do outro tudo que nela havia de bom ou de mau. Depois, os olhos de Tolstói escondiam-se sob as sobrancelhas, como o sol por trás das nuvens. E se acaso respondia ao gracejo de uma criança, um riso encantador iluminava-lhe a fisionomia. E os olhos, emergindo das espessas sobrancelhas, rebrilhavam de alegria. Às observações de qualquer pessoa, Tolstói reagia imediatamente. E esse entusiasmo, essa vivacidade juvenil, acendia-lhe no olhar centenas de gênio.

(…)

Quando lhe fomos apresentados, ele segurou na sua a mão de cada um de nós, apoiando longamente o olhar no nosso. Eu tive a perfeita impressão de estar sendo atravessado por uma seta.

Esse encontro inesperado desnorteou-me, a ponto de tirar-me a consciência do que se passava em mim e em torno a mim. E quem sabe em que conta os russos tinham Leon Nicolaevitch, disso não se espantará.

Enquanto ele vivia, dizíamos ‘que felicidade viver na época de Tolstói!’. E quando nos sentíamos tristes, impressionados pela maldade dos homens, a ideia de existir lá longe, em Iasnaia-Poliana, um Tolstói, nos consolava e nos reanimava.”

Qual homem ou mulher atual de quem podemos dizer o mesmo, “que felicidade viver na época de Fulano ou Beltrana!” A nossa decadência mede-se pela incapacidade de escolhermos modelos de conduta. Tolstói funcionava não só como um escritor, mas era o farol e baluarte ético da sua época e de todo um país. Quanta responsabilidade estava sobre os seus ombros! Claro que existem revisões atuais do papel de Tolstói, mas ninguém viveu a época com a mesma intensidade que Stanislavski, e o fato dele reconhecer que, mais do que um escritor, a aura de Tolstói impunha-se sobre o ambiente e caía como um manto protetivo sobre o país diz muito a respeito da fraqueza moral que assola os países da atualidade, que trocaram modelos de vida pelos grasnados enganosos da publicidade.

Também gosto de ver a percepção de Stanislavski: Tolstói observava o mundo com tamanha intensidade que parecia atravessá-lo através do olhar. É algo que falo sobre a criação literária. O importante nem é escrever ou o domínio das técnicas, mas saber observar o mundo com intensidade, percebendo que tudo tem um significado e, se determos os sentidos por tempo suficiente, é possível extrair uma história de qualquer coisa.

Leon Tolstói

No jantar daquela noite, o encenador russo continuou passando vergonha. Na cabeceira da mesa, o anfitrião perguntou qual era a peça que seria representada em Toula, e Stanislavski esqueceu por completo o nome. Alguém avisou que era um trabalho de Ostrovski, que Tolstói confessou não conhecer, pedindo para que lhe contassem o enredo. De novo Stanislavski bloqueou diante do olhar quente do grande escritor, sendo incapaz de resumir o enredo da peça que seria encenada. Tolstói se divertiu bastante com as atrapalhações do convidado.

No meio do jantar, o maior autor russo pediu para que Stanislavski tirasse “O poder das trevas” da censura, encenando-a em Moscou. A solicitação foi recebida com tamanho entusiasmo que, ali mesmo, na sala de jantar, a trupe de Stanislavski distribuiu entre si os papéis da peça, fazendo um ensaio geral diante de Tolstói.

No calor do momento, os atores perceberam que o final do quarto ato interrompia a ação justo no seu ponto culminante e, aproveitando a presença de Leon Tolstói no recinto, pediram para que ele “corrigisse” aquele problema. Na mesma hora se calaram, percebendo a loucura do que estavam pedindo. Tolstói riu e respondeu:

– Bom… Expliquem-me por escrito como acham que devo fazer a ligação das cenas no quarto ato, que eu torno a escrever a peça de acordo com as suas indicações.

Ao perceber a perturbação que essa frase gerou no ambiente – quem eles pensavam que eram para corrigir justo Tolstói? – o escritor russo os tranquilizou:

– Acreditem, vocês me prestariam um grande favor. Vocês são especialistas.

Ainda assim, o desconforto continuou, e a peça – após ser liberada pela censura – foi encenada com o defeito no quarto ato. Muitos anos se passaram até o dia em que Constantino Stanislavski recebeu uma carta de Leon Tolstói pedindo uma reunião. Foi ao encontro do escritor na sua casa em Moscou. Para seu espanto, mal tinha entrado e Tolstói anunciou que assistira várias encenações de “O poder das trevas” e, sim, o quarto ato estava irremediavelmente errado. Ele precisava corrigir aquilo o quanto antes, pois o assunto era angustiante, e precisava da ajuda de Stanislavski.

Os dois estavam conversando, e deixarei Stanislavski assumir o controle da narrativa para compartilhar com o leitor a cena que se sucedeu:

Conversamos longamente. Encontrava-se por acaso na sala vizinha a mulher de Tolstói, Sofia Andreevna, que, como todos sabem, era ciumentíssima. Que estaria ela pensando daquele idiota, que se atrevia a criticar a peça e aconselhar o seu genial marido a modificá-la? Que desaforo! Que audácia inaudita! Tanto mais que ela não sabia o que se passara dantes, em Toula.

Não podendo mais conter-se, a senhora Tolstói precipita-se na saleta, dá-me um tapa e um valente empurrão. E ninguém sabe o que aconteceria se a filha do casal, Maria Lvovna, não entrasse e não procurasse acalmar a mãe. Quanto a Leon Tolstói, nem sequer se mexera, não saíra do seu lugar, nem dissera uma palavra em minha defesa. Limitara-se a puxar, o tempo todo, pela barba. Sofia Andreevna acabou indo embora. E ele, vendo-me ali de pé, envergonhado, sorriu amavelmente e disse-me:

– Não faça caso. Ela é mesmo muito nervosa.

Depois acrescentou, mudando de assunto:

– Vamos lá! Onde é mesmo que estávamos?”

Tolstói e Sofia

Esse pequeno drama familiar mascara o motivo pelo qual Leon Tolstói se tornou um dos maiores escritores que existiu no mundo: a capacidade de reconhecer que podia errar, e estar sempre disposto a aprender com quem entende mais. A reação de Sofia Andreevna foi um pouco extremada, mas, para o escritor, não importavam a mulher, o encenador, os conselhos pedidos, mas somente o fato de que a peça de teatro tinha um intolerável defeito que lhe comprometia por completo.

Existiu uma época em que pessoas de grande espírito como Tolstói andaram por esse mesmo chão que hoje tocamos. Pessoas dispostas a observar as virtudes e vícios do mundo e despi-lo com um olhar penetrante; pessoas dispostas a corrigirem seus erros a qualquer custo.

Que felicidade viver no mesmo mundo em que outrora Leon Tolstói esteve.

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Arquivado em Constantino Stanislavski, Leon Tolstói, Literatura, Minha vida na arte

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