Obras Inquietas – 25. “Bela Adormecida” (1899), Henry Meynell Rheam

No meu texto dessa semana no “Obras Inquietas”, eu falei sobre uma pintura de Henry Meynell Rheam, um pintor pré-rafaelita, chamada “Bela Adormecida” (1899).

Existe algo que sempre me deixa perplexo sobre esse quadro. Quando estamos dormindo, ficamos vulneráveis e, nessa condição, qualquer coisa pode acontecer. A sensação de que alguém espia a nossa vigília é uma das mais antigas que tempos, e vem da época das cavernas. Muito dos terrores noturnos que sacodem algumas pessoas – entre elas eu – está nesse receio ancestral: o de que existem presenças que estão ao nosso lado e não conseguimos ver.

A predominância do azul no quadro também não é uma coincidência: no passado, o azul era considerado um tom opressivo.

Boa leitura.

“Bela adormecida” (1899), Henry Meynell Rheam

 

Você pode não saber, mas ele está ali, ao lado da cama, analisando os seus traços fisionômicos com um misto de escárnio e ternura. Pode não ter um nome para essa presença, mas sabe de quem estou falando. É mais um desconforto, uma sombra um pouco mais soturna que se destaca na parede do quarto, um arrepio que não devia eriçar sua pele, mas, ainda assim, está ali. As crianças tentam nomeá-lo: Homem de Areia, Devorador de Sonhos, Bicho Papão. Com o passar dos tempos, damos outros nomes (Horla, vampiro), mas a presença nunca deixa de nos acompanhar. Afinal, nomes não importam, pois ele está sempre no canto do quarto onde a luz tem medo de entrar, velando o seu sonho, tão próximo que a boca está a centímetros do beijo, tão atento que você pode sentir o toque gelado roçar a sua face. Quando está irritado, o hálito dele causa pesadelos horríveis que parecem nunca terminar, e você se sente sufocar no tempo infinito que mora dentro do horror. Quando feliz, ele sussurra histórias que lhe deixam com um sorriso bobo. No entanto, existem vezes em que essa presença invisível deseja o seu mal. Nessas noites, a criatura sem nome e sem rosto senta sobre o seu peito e sorri angelicamente enquanto pressiona o seu pescoço com dedos repletos de morte, sentindo você sufocar dentro do pesadelo, escutando os gritos sem som que você solta. Em geral, após brincar um pouco trazendo a morte para dentro do sono, a presença recua, e se regozija ao ver o seu despertar no estertor de um grito suado. No dia seguinte, você não saberá o que lhe deixou tão mal ou o pesadelo que transformou a noite em um inferno sem fim, e é provável que nunca saiba o quão próximo da morte esteve. Contudo, um dia, a presença irá cansar; os dedos serão um pouco mais firmes ao redor do seu pescoço, sua vontade um pouco menos volúvel. Nesse dia, você estará no pior pesadelo de todos e não irá sair nunca mais dele, enquanto o espectro beija seus lábios e retém o seu último suspiro como se fosse o manjar dos deuses. Algumas pessoas chamam tal presença de Medo, e saber que ele nasceu conosco e está sempre próximo, ansioso para cravar suas garras ao menor sinal de distração, é o que nos deixa em constante estado de tensão por estarmos vivos.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/03/19/obras-inquietas-25-bela-adormecida-1899-henry-meynell-rheam/

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Arquivado em Bela adormecida, Crônicas, Henry Meynell Rheam, Obras Inquietas, Pintura, Produção Literária

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