No meu texto da semana passada no “Obras Inquietas”, eu falei de “Garota comendo pássaro (O prazer)”, de René Magritte, um dos meus pintores surrealistas favoritos.

O que eu mais gosto nos quadros de Magritte é o deslize abrupto entre o título e a imagem. No caso desse, o título é espantosamente linear em relação à imagem, mas a expressão entre parênteses, “(O prazer)”, passa algo de proibido. Perguntado sobre a sua inspiração para o quadro, Magritte foi simples: disse que a ideia surgiu ao ver a sua esposa comendo um pássaro de chocolate. No entanto, a sequência de pinturas que ele fez na época, entre as quais estava “O assassino ameaçado”, demonstra uma certa fixação por mortes e assassinatos.

Para o meu texto, resolvi homenagear Magritte e contrastar a liberdade do pássaro com a prisão da mulher. E alertar que nem sempre aqueles que estão presos desejam se libertar, mas só tirar esse direito de outros.

Boa leitura.

 

“Garota comendo pássaro (O prazer)”, 1927, René Magritte

A liberdade é quente e tem o gosto pastoso de sangue. Nas mãos da assassina, impregnadas de fúria contida, o pássaro agoniza em espasmos de dor, a vida se esvaindo em penas e vísceras enquanto ela trinca a carne ainda vibrante de medo. O vestido a oprime; o ar pesado a cansa; viver é seguir as expectativas dos outros. A jovem nasceu para servir, para obedecer, para abaixar a cabeça, para cumprir o destino de todas as outras mulheres que lhe antecederam, e ter essa consciência machuca mais do que o esperado. O sutiã invisível corta a sua respiração; as mãos pálidas deslizam nos ossos diminutos do pássaro, quebrando-os graças à força que imprimem sem querer, mas o ser não pensa mais em fugir, ele só pode morrer, e a dor dos ossos quebrados não é nada perto dos dentes ferozes que estraçalham a sua barriga e sorvem o seu sangue. Por muito tempo, a mulher olhou os pássaros na árvore do jardim; admirou os seus chilreios, impressionou-se com a alegria deles pulando de galho em galho, observou – com inveja – quando eles voavam para longe, indo para onde bem entendessem, sem ninguém para lhes controlar. Quando se aproximou da árvore naquele dia, tinha o seu objetivo em mente; esticou a mão, prometendo uma carícia na penugem do pássaro, que se aproximou, com a lentidão dos ingênuos. A mulher ainda escuta o som que escapou dos pulmões do pássaro quando foi agarrado com firmeza, o olhar incrédulo e luzidio que lhe lançou ao ver os dentes – aquela coluna branca repleta de lâminas afiadas – aproximando-se da sua barriga. Ainda recorda o suspiro que ele largou quando foi destroçado pela voracidade da sua assassina. A mulher come o pássaro, deleitando-se com a carne cada vez mais morta. Um prazer quase indecente irradia-se da sua boca ensanguentada e preenche a sua pele enquanto ela saboreia a vida de outra criatura. Em breve a mulher voltará aos grilhões com os quais é forçada a se acostumar, mas, hoje, a liberdade do passarinho vai ser um alívio para aquela raiva fria que somente um condenado à morte é capaz de sentir. Já que ela não pode ser livre, que o pássaro também não seja.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/03/11/obras-inquietas-24-garota-comendo-passaro-o-prazer-1927-rene-magritte/

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