Obras Inquietas – 24. “Garota comendo pássaro (O prazer)”, 1927, René Magritte

No meu texto da semana passada no “Obras Inquietas”, eu falei de “Garota comendo pássaro (O prazer)”, de René Magritte, um dos meus pintores surrealistas favoritos.

O que eu mais gosto nos quadros de Magritte é o deslize abrupto entre o título e a imagem. No caso desse, o título é espantosamente linear em relação à imagem, mas a expressão entre parênteses, “(O prazer)”, passa algo de proibido. Perguntado sobre a sua inspiração para o quadro, Magritte foi simples: disse que a ideia surgiu ao ver a sua esposa comendo um pássaro de chocolate. No entanto, a sequência de pinturas que ele fez na época, entre as quais estava “O assassino ameaçado”, demonstra uma certa fixação por mortes e assassinatos.

Para o meu texto, resolvi homenagear Magritte e contrastar a liberdade do pássaro com a prisão da mulher. E alertar que nem sempre aqueles que estão presos desejam se libertar, mas só tirar esse direito de outros.

Boa leitura.

 

“Garota comendo pássaro (O prazer)”, 1927, René Magritte

A liberdade é quente e tem o gosto pastoso de sangue. Nas mãos da assassina, impregnadas de fúria contida, o pássaro agoniza em espasmos de dor, a vida se esvaindo em penas e vísceras enquanto ela trinca a carne ainda vibrante de medo. O vestido a oprime; o ar pesado a cansa; viver é seguir as expectativas dos outros. A jovem nasceu para servir, para obedecer, para abaixar a cabeça, para cumprir o destino de todas as outras mulheres que lhe antecederam, e ter essa consciência machuca mais do que o esperado. O sutiã invisível corta a sua respiração; as mãos pálidas deslizam nos ossos diminutos do pássaro, quebrando-os graças à força que imprimem sem querer, mas o ser não pensa mais em fugir, ele só pode morrer, e a dor dos ossos quebrados não é nada perto dos dentes ferozes que estraçalham a sua barriga e sorvem o seu sangue. Por muito tempo, a mulher olhou os pássaros na árvore do jardim; admirou os seus chilreios, impressionou-se com a alegria deles pulando de galho em galho, observou – com inveja – quando eles voavam para longe, indo para onde bem entendessem, sem ninguém para lhes controlar. Quando se aproximou da árvore naquele dia, tinha o seu objetivo em mente; esticou a mão, prometendo uma carícia na penugem do pássaro, que se aproximou, com a lentidão dos ingênuos. A mulher ainda escuta o som que escapou dos pulmões do pássaro quando foi agarrado com firmeza, o olhar incrédulo e luzidio que lhe lançou ao ver os dentes – aquela coluna branca repleta de lâminas afiadas – aproximando-se da sua barriga. Ainda recorda o suspiro que ele largou quando foi destroçado pela voracidade da sua assassina. A mulher come o pássaro, deleitando-se com a carne cada vez mais morta. Um prazer quase indecente irradia-se da sua boca ensanguentada e preenche a sua pele enquanto ela saboreia a vida de outra criatura. Em breve a mulher voltará aos grilhões com os quais é forçada a se acostumar, mas, hoje, a liberdade do passarinho vai ser um alívio para aquela raiva fria que somente um condenado à morte é capaz de sentir. Já que ela não pode ser livre, que o pássaro também não seja.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/03/11/obras-inquietas-24-garota-comendo-passaro-o-prazer-1927-rene-magritte/

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