Como melhorar uma história usando assassinatos

Uma interessante – e divertida – moda está crescendo no mundo literário anglo-saxão. Muito melhor do que autoficção e representatividade, questões amplamente não-literárias que transformaram a literatura brasileira em um longo e enfadonho desfile de platitudes, egos e estatísticas.

Ela começou com uma reflexão sobre as regras de escrita de Elmore Leonard. São regras bem práticas, bem diretas e dizem respeito ao ato de escrever qualquer história. Por exemplo, a primeira regra é “Nunca comece um livro descrevendo o tempo”. A segunda é “Evite prólogos”, e por aí as regras seguem.

O escritor Marc Laidlaw levou adiante as ideias de Elmore Leonard e tirou a ênfase da primeira frase da história, passando para a segunda:

De acordo com ele, a primeira frase de quase todas as histórias pode ser melhorada se a segunda for “E então os assassinatos começaram”.

Isso gerou uma onda de escritores imaginando histórias em que a segunda frase seria obrigatoriamente “E então os assassinatos começaram”.

Também deixa qualquer história infantil mais interessante:

Um exercício de criação literária sendo feito ao vivo e com a participação da imaginação de centenas de leitores, eis o que deixa a literatura viva e interessante.

Tenho falado muito com outros escritores sobre os motivos pelo qual a literatura é tão pouco consumida no Brasil, e uma das conclusões a que cheguei é que, no nosso país, a literatura deixou de ser arte e virou palanque para tantas causas que as pessoas passaram a considerá-la panfletária.

Tiraram toda a graça de escrever e ler uma boa história. Hoje, todos leem livros esperando que, em algum momento, ao estilo dos antigos contos de fadas, alguém vai aparecer e dizer qual a moral da história. Ou, pior ainda, leem o livro julgando o tempo inteiro a sombra que deveria pairar quase invisível por trás dele: o seu autor.

Está bem chato escrever no Brasil atual. É como carregar uma granada sem pino no meio de um campo de batalha, sabendo que, a qualquer deslize ou distração, ela pode explodir nas nossas mãos. Por enquanto ainda tive sorte, mas mesmo ela eventualmente acabará e, se existe algo que me consola é saber que, se esse dia chegar e a literatura virar não mais liberdade, mas medo, eu vou recolher-me à minha escrivaninha e continuar escrevendo em silêncio. À esta altura do campeonato, escrever não é algo que preciso tanto de outras pessoas, é mais uma questão interna do que uma necessidade de exposição.

Meu dever único é ser fiel à história. Sem concessões, sem medos. Mesmo que ninguém a leia e mesmo que eu seja julgado pelo o que digo ou pelo o que omito. Se for para escrever com medo do leitor, melhor nem escrever, até por que cada leitor vai pensar uma coisa diferente e nunca agradarei a todos.

Por isso acho relevante esse desafio literário que circula nos Estados Unidos e na Inglaterra. Parece mais importante do que discutir uma série de questões paralelas à Literatura. É um exercício de criação brejeiro e divertido, tudo aquilo que devia ser importante para nós e estamos fazendo cada vez menos. Isso por que escrever devia ser algo divertido, não a chatice que se tornou. Então, enquanto não me cercearem de vez, prosseguirei escrevendo e me divertindo, pensando em assassinatos escondidos dentro de cada livro.

 

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Desafio literário, Temas de crítica literária

Uma resposta para “Como melhorar uma história usando assassinatos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s