Crônicas de um ano inteiro: “Manter silêncio no Dia Internacional das Mulheres”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, eu falei sobre a literatura como o mais vertiginoso exercício de alteridade que existe – e o motivo pelo qual o silêncio pode ser uma atitude mais construtiva do que ficar fazendo textões no Dia Internacional da Mulher.

Boa leitura.

Manter silêncio no Dia Internacional das Mulheres

A semana que cerca o Dia Internacional da Mulher é uma das mais complicadas do ano para o meu ofício de escritor. Isso por que os canais de comunicação que as pessoas usam para chegar até mim (e-mail, Facebook, Whatsapp) são abarrotados por mensagens pedindo textos sobre as mulheres e, infelizmente, serei obrigado a negar todos. Em outros tempos, eu costumava escrever textos – longos ou curtos – sobre a força, a beleza e a fortaleza feminina; compartilhava poemas, imagens, trechos de livros, pinturas. No entanto, nos últimos anos, fui aos poucos silenciando sobre o assunto e, agora, com exceção de algumas poucas mulheres extremamente próximas que considero dever humano (e não masculino) cumprimentar, prefiro manter-me calado.

Levei muito tempo para aprender o óbvio: eu não sou mulher, Não sei como elas pensam e se sentem e, portanto, não tenho o direito de deixar a minha vaidade assumir uma voz que não lhe pertence. Posso indicar dezenas de mulheres capazes de escrever textos maravilhosos. Sou uma pessoa afortunada, pois conheço escritoras capazes de moldar uma folha de papel em um universo, poetas capazes de fazer versos devastadores, fotógrafas que podem sintetizar sentimentos em um clique, atrizes que podem ser muitas mulheres no corpo de uma só. Qualquer uma delas é capaz de dizer muito mais sobre as mulheres do que eu. Elas podem ser políticas, podem ser líricas, podem ser agressivas, podem ser engraçadas, podem até não serem capazes de se expressar de forma esteticamente correta, mas todas sabem muito bem o que é ser mulher.

Nessas condições, o silêncio é a melhor postura para um homem. Ao invés de tentar expressar solidariedade ou se subrogar na voz alheia, ficar quieto é uma forma de respeito. Em um mundo onde todos querem ter direito de falar e desabafar seus pensamentos sobre qualquer assunto, o silêncio por vontade própria é uma virtude subestimada. Além disso, ele é um exercício de humildade: quando não somos capazes de entender algo, o melhor é aprender com quem sabe. Longe de ser uma atitude indiferente, o silêncio pode ser uma forma de ação: se não estamos falando, estamos escutando, e quem escuta algo com o intuito de aprender sempre acaba sofrendo modificações.

Por isso, em épocas nas quais se fala tanto de mulheres como a semana que cerca o Dia Internacional da Mulher, prefiro ficar em silêncio, e estou muito tranquilo com essa decisão. Pois aprendo algo muito precioso para usar no dia a dia: aprendo a alteridade, ou seja, a capacidade de sentir o mundo como se fosse outra pessoa.

Toda literatura é um exercício de alteridade. Quando lemos algo, parte essencial da relação que estabelecemos com o livro é sentirmos a história como se estivéssemos a vivendo. Quando o escritor falha nisso, falhou completamente. Se o leitor pensar, por um segundo, que é impossível que um capitão de perna de pau persiga uma baleia branca descomunal, o livro fracassou. Quando eu leio “Jane Eyre”, eu preciso ser Jane Eyre, mesmo que numa versão masculinizada, pois preciso ver a história que ela está me contando, e não é o Gustavo quem está ali, nem a Charlotte Brontë, mas Jane Eyre. A alteridade é cruel e implacável; a única forma que temos de entender o mundo da personagem é nos colocando dentro da sua mente e alma, mas isso implica em deixarmos de lado quem somos.

Uso o exemplo da literatura, mas a alteridade está por tudo. Quando escuto a história de um cliente no escritório de Direito, eu preciso entender que ele agiu daquela forma por que foi pressionado pela sua formação social, intelectual, familiar e cultural, e não pela minha lógica de advogado. Quando somos atendidos em uma quitanda por um rapaz magro, de aparelhos nos dentes e espinhas por todo o rosto, precisamos entender o mundo do seu ponto de vista, e saber que ele talvez não tenha vida social, talvez não tenha muitos amigos ou uma namorada, talvez precise estudar um turno e trabalhar o outro para ter algum dinheiro para ajudar a sua família. Como podemos tratar mal uma pessoa que já se sente mal? Não seremos nós a gota que vai fazer o copo explodir? Uma piada simpática que pode dar algum alento para alguém vai tirar um pedaço nosso? A alteridade é o que nos faz escutar o outro ser e tentar entender como ele se sente, pois não somos – e nunca seremos – iguais a ele.

Por isso, é interessante aproveitar o Dia Internacional da Mulher não para encher o mundo de demagogia barata, de palavras falsas que serão esquecidas adiante, de depoimentos lacrimosos e repletos de metáforas (quem sabe mexer com palavras sabe manuseá-las ao seu bel prazer). Podemos fazer o mais difícil: silenciar e tentar ver o mundo em que não vivemos, o das mulheres. Um local sórdido, assustador, repleto de desigualdades, com violência sempre à espreita em cada esquina. É saudável tentarmos experimentar a alteridade com quem mora ao nosso lado ao invés de se perder em tergiversações que não passam de uma arrogância disfarçada.

Eu disse antes que a alteridade é cruel, mas não mencionei um detalhe igualmente importante: entrar no mundo de outra pessoa é terrível, em especial quando viramos o pescoço e olhamos para a imagem que ela faz a nosso respeito. Aí está a verdadeira mudança, muito melhor do que elencar poemas alheios ou encher a paciência alheia com textos repletos de clichês sobre a importância da mulher: escutar o que ela tem a dizer, aprender um pouco e deixar de agir como um abobado.

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Arquivado em Alteridade, Crônicas, Mulher, Produção Literária

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