Obras Inquietas: 23 – “Remake da Pietà” (2011), Jan Fabre

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, lá no Artrianon, eu falei sobre uma escultura de Jan Fabre, “Remake da Pietà” (2011).

Na época da sua realização, essa obra foi extremamente polêmica. Era uma releitura da “Pietà” de Michelangelo, e comparar Maria à Morte foi considerado um insulto por muitos católicos. Além disso, o corpo do filho morto revela traços de decomposição e ele está de uniforme militar. Apesar da polêmica, ainda prefiro a opinião do próprio Jan Fabre sobre a obra: o enfoque não é o corpo do filho, mas o fato de que a mãe sente-se morta ao abraçar a vida a que deu origem e que, agora, não mais existe no mundo.

Boa leitura.

“Remake da Pietà” (2011), Jan Fabre

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A vida dela acabou no momento em que soergueu o corpo sem vida do próprio filho, enlaçando o pescoço que, mal a morte se apossara dos batimentos cardíacos e determinara o seu silêncio, já esquecia a consistência elástica e logo seria pedra. A partir de então, a mulher não mais sorriria do mesmo jeito, por mais que tentasse; as risadas perderiam a inocência, sempre com um travo de amargura; a comida iria ganhar o sabor de cinzas e de dores mal curadas, os dias de sol virariam uma piada sem graça que demora a acabar, as noites se transformariam em infernos insones povoado pelo silêncio. Ela estava morta, mas – ironia das ironias – ainda respirava, ainda sentia, e estava afundada no poço de um desespero tão terrível que temia abrir a boca e despejar gritos como se fosse uma catarata que se liberta da incômoda represa. Desde aquele dia, o mundo deixaria de ter cores, as roupas não mais serviriam para embelezar, as olheiras e rugas tomariam posse ciumenta do seu rosto. Nunca mais escutaria o filho cantar, nunca mais ralharia com ele quando abrisse uma panela, nunca mais sorriria ao imaginar os netos futuros: tudo acabado, tudo. Menos ela, a mãe, que continuaria a vagar pela Terra como se fosse uma sombra sem o corpo que lhe dá substância. Valia a pena viver, se estava morta por dentro? A mulher reconhece no filho o seu semblante, sabe que morreu junto e, agora, a existência irá se limitar à uma espera indiferente pelo momento em que a Morte virá também buscá-la, pois quem mata o filho de alguém condena a sua mãe a se tornar uma escrava da vida. O inferno de perder a alma e continuar viva está recém no início, e a mulher logo chorará a primeira de muitas lágrimas que se tornarão suas mais fiéis companheiras, mas agora, nesse segundo, ela só quer dar um último abraço antes que as trevas engulam o corpo tão amado.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/03/05/obras-inquietas-23-remake-da-pieta-2011-jan-fabre/

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Arquivado em Crônicas, Escultura, Jan Fabre, Obras Inquietas, Produção Literária, Remake da Pietà

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