Crônicas de um ano inteiro: “Um mundo de chorões”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, eu falei sobre o desagradável costume de reclamarmos de tudo – e o quanto essa conduta nos impede de resolver os problemas, transformando o mundo em um lugar repleto de chorões sem iniciativa.

Os leitores atentos perceberão a minha auto-referência jocosa ao conto “Um mundo de moscas”, que está no livro “O homem despedaçado” (aliás, seria legal pensar em um “Um mundo de moscas choronas”, em que cada mosca que forma o homem representa uma reclamação chorona) e, ao final, uma desconstrução brincalhona com o “Tabacaria”, do Fernando Pessoa. Também coloquei uma frase de Chesterton e duas de Francis Bacon (ah, e também o Edgar Allan Poe), então, fica o registro, para que não chamem minhas brincadeiras intertextuais de plágios.

Boa leitura.

 

Um mundo de chorões

demoro

Não faz muito tempo, li uma entrevista do criador do Facebook, Mark Zuckenberg, na qual ele afirmou que estávamos usando de forma errada as redes sociais. Elas não foram concebidas para espalhar discursos de ódio ou mensagens raivosas, mas para ajudar as pessoas a criar novos laços entre si. Era para ser uma rede social no sentido de solidária, não um local que espelhasse as piores facetas humanas. Por segundos, imaginei a extensão do fracasso desse pobre homem: criou um produto com uma finalidade nobre e, que droga!, todo mundo entendeu errado. Mark ficou rico, mas por que nenhum de nós leu com cuidado as letrinhas pequenas que explicavam o verdadeiro motivo da criação de uma rede social.

Para mim, o maior problema da rede social nem é a disseminação de discursos de ódio, mentiras ou insultos. Os seres humanos sempre foram assim, a diferença atual é só a velocidade e alcance dessas informações. O mais desagradável em uma rede social é ver o quanto somos chorões e reclamões. Por Tutatis, estamos sempre chorando de tudo: se o dia está quente, reclamamos; se está frio, protestamos. Xingamos a chuva e resmungamos sobre a seca. Reclamamos da derrota do nosso time e dos roubos que cometem os árbitros – e políticos, e donos de empresa, e jornalistas, e quitandeiros, hoje usamos “ladrão” para qualquer situação, é uma palavra tão desgastada que quase soa como sinônimo de sucesso. Reclamamos de quando acordamos cedo e de quando estão fazendo obras nas proximidades das nossas casas. Reclamamos que o meteoro não veio e que o mundo ainda existe do jeito que está. Reclamamos da morte de inocentes e do alarido de crianças. Reclamamos do troco que veio errado, do ar condicionado do cinema, do filme indicado para o Oscar (e dos que não foram). Reclamamos de tudo e de todos.

O esporte nacional por excelência é a reclamação. O culpado é sempre o outro. Afinal, do alto da minha perfeição, posso julgar as condutas alheias com dureza e punir quem não se comporta como desejo. Aqueles que seguem as regras da minha consciência, bom, nem merecem um elogio, pois estão fazendo só a sua obrigação. Por sua vez, quem for diferente do que penso, será punido com uma exemplar reclamação. As redes sociais transformaram-se em um grande SAC do universo.

Se a reclamação ainda fosse direcionada para uma melhora geral das condutas alheias ou até mesmo para uma necessária auto reflexão sobre os próprios atos de quem reclamou, seria algo saudável. No entanto, ela é um insidioso vício, pois visa a reclamar pelo simples prazer de ouvir a própria voz protestando. Não é uma reclamação que serve de início para um debate saudável, mas um protesto que só serve para ecoar no vazio. Logo será esquecido e, amanhã, faremos uma nova reclamação, e assim irão os dias, uma reclamação grudada na outra até o final dos tempos.

Outra desagradável consequência das redes sociais é a quantidade de pessoas que, não bastando reclamarem o dia todo, pensam em disfarçar as suas opiniões atrás de uma roupagem irônica, pseudo auto-depreciativa ou até mesmo engraçada. O resultado disso é a rede social ter se transformado em um lamentável arremedo de stand up comedy com um palhaço que enuncia uma piada ruim atrás da outra, resmungando de tudo e de todos enquanto debocha da plateia, que aplaude de forma educada e distraída. Se existe algo que deveria ser ensinado nos colégios é a arte de fazer uma ironia eficaz e corrosiva de tal maneira que rimos, sem saber se somos elogiados ou insultados. As pessoas deviam ler mais Chesterton e Thackeray antes de saírem por aí fazendo ironias; não existe nada mais lamentável do que uma ironia feita por alguém que se pretende ser culto e “descolado”.

Nosso culto à reclamação fácil nos transformou em uma nação de poltrões. Ninguém resolve mais diretamente os seus problemas: preferimos nos afastar e reclamar nas redes sociais. Distante dos conflitos, com a garantia de um afastamento físico, somos os mais corajosos seres que já pisaram na Terra, os senhores da justiça, os arautos do correto. Pensamos em cuidadosas ironias, travestindo nossa covardia em reclamações lindas – colocamos até fotos! Se tivermos a habilidade suficiente, quem sabe não transformamos nossa reclamação em um meme? Covardia gera covardia, e ela se espalha como ondas em um lago, colidindo ou se juntando com outras reclamações, até se transformar em um tsunami ou em um maëlstrom. Estamos afogados em um oceano de reclamações. Sempre chamou minha atenção aquelas pessoas que olham algo que lhes repugna escrito na rede social e chamam seus “amigos” para se juntarem à discussão e agredir o autor do comentário. Para mim, é o equivalente virtual de chamar os amigos no recreio para bater no coleguinha que se comporta diferente.

Tão enfadonha é essa cultura da reclamação impensada que provavelmente alguns leitores estão agora pensando ,“olha aí o cara, fez um texto reclamando de quem reclama, mas que cara de pau”. Eu poderia responder dizendo que sempre coloquei o pronome “nós” nesse texto para me incluir na coletividade e dizer que também reclamo, ou seja, estou fazendo uma auto-crítica, mas seria muito fácil escapar das consequências do que escrevi dessa forma engraçadinha. A realidade é que esse texto constata um grave defeito de nossas personalidades: não enfrentamos mais os problemas. Não queremos mais acertar o mundo. Não queremos mudar. Nós só queremos reclamar, e achar mais amiguinhos que reclamem conosco, e mergulhar fundo no poço de nossa miséria.  Reclamar é um vício debilitante e paralisante, pois não muda a situação, só ajuda a compartilhar nossas covardia e fraqueza com o resto das pessoas. Está na hora de descermos da mansarda e encararmos o mundo como heróis reais, não como aqueles que olham a vida passar – e ficam reclamando ao invés de agirem.

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em Crônicas, Generalidades, Produção Literária, Reclamações

2 Respostas para “Crônicas de um ano inteiro: “Um mundo de chorões”

  1. Lucilene Pinheiro

    Gustavo, adorei o texto!!!
    Um abraço!
    Lucilene Pinheiro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s