A arte como antecipação do pós-humano em Hopper e Stalenhag

Eu me recordo que, quando escutei a primeira vez o termo “pós-humano”, dei uma gargalhada e disse “mas o que é isso? Os humanos viraram obsoletos e vamos começar a discutir os eventos pós-advento da Humanidade? Já largamos os pontos, gurizada?”.

Pois era isso mesmo, mas um pouco diferente.

O pós-humano é uma corrente de pensamento nascida na ficção científica e no avanço tecnológico, espelhando as preocupações com uma série de circunstâncias que extrapolariam o limite humano, como, por exemplo, robôs, computadores que pensam, casas e carros inteligentes, e por aí vai.

Continuei acompanhando o assunto, mantendo uma respeitosa distância. Hoje sei que o pós-humano se espalha entre nós: tudo que melhora o alcance dos sentidos humanos ou amplia as suas capacidades já pode ser considerado pós-humano, e então vemos óculos com informações digitais, próteses que permitem a amputados terem vida normal e até mesmo substâncias que melhoram o rendimento físico de alguém.

Pós-humano não quer dizer que os humanos deixaram de existir, mas sim que eles coexistem em um ambiente onde existem seres melhores, com habilidades ampliadas e menos falíveis.

A literatura há tempos faz simulações de como seria um mundo pós-humano. Dois dos meus livros prediletos tratam justamente sobre as possibilidades desse cenário. Em “Eu, robô”, do Isaac Asimov (por favor, não vejam o filme, é horrível), as Três Leis da Robótica servem de mote para uma série de atritos entre homens e máquinas. Do ponto de vista jurídico, é muito interessante ver como uma norma, quando usada de acordo com o sentido estrito da lei, pode se tornar não só anti-ética e imoral, como assassina. Por sua vez, em “Crônicas marcianas”, do Ray Bradbury, o homem é o câncer do universo: sai da Terra, mas leva os seus problemas e mesquinhezas por onde quer que vá.

Outro campo que trata do mundo pós-humano é o das artes gráficas e, quando vi essa série de desenhos do artista sueco Simon Stalenhag, não contive o encantamento. Ele imagina um local do planeta Terra após a invasão (e derrota) alienígena. Um lugar com carcaças abandonadas, com mistérios a serem explicados, com robôs e humanos patrulhando estradas, com dejetos de guerra empilhados por todos os cantos.

Lembra muito os quadros de Edward Hopper. Dá para sentir a solidão, o fustigar da chuva gelada nos nossos rostos, o barulho de sirenes distantes, a morte a assombrar as estradas. Humanos e pós-humanos lutando juntos pela sobrevivência, e inaugurando um novo tempo em que ser humano será o princípio para ser algo a mais.

É interessante pensar no trabalho de Hopper como antecipação do pós-humano. Ainda mais por que tal ideia sequer era mencionada na época em que o pintor americano viveu, quando, no máximo, falava-se em “cyberpunk”. Os cenários quase vazios, o isolamento dos seres humanos concentrados nas suas próprias preocupações, o silêncio que sai do quadro e invade o mundo do espectador, todos esses elementos evocam o sentimento pós-humano: a ideia de que existem dois tipos de pessoas no mundo, um melhorado por meios artificiais, outro ligado às tradições. O homem se tornou obsoleto e, assim, está cansado e sozinho no planeta.

Edward Hopper, Sol em Prospect street, Gloucester Massachussets (1934)

Edward Hopper, Sol em Prospect street, Gloucester Massachussets (1934)

 

Edward Hopper, "Excursão na filosofia" (1959)

Edward Hopper, “Excursão na filosofia” (1959)

 

Edward Hopper, "Tarde em Cape Cod" (1939(

Edward Hopper, “Tarde em Cape Cod” (1939(

Descobri sobre o trabalho de Simon Stalenhag no link http://dangerousminds.net/comments/dreamy_sci-fi_paintings_show_the_world_after_an_alien_invasion

A julgar pela reportagem, a obra do artista  imagina uma Suécia dos anos 80/90 onde um experimento atômico deu muito errado, sendo sucedido por uma invasão de “misteriosas criaturas” (ainda não se sabe se são alienígenas). É uma distopia, evidentemente, mas também suscita questões do pós-humano. Se a evolução tecnológica é inevitável, melhor não lutarmos contra a perda de algumas das características que constituem a nossa Humanidade, mas tentar imaginar um tempo em que a igualdade deixará de existir e seremos todos diferentes uns dos outros, tanto em espírito quanto em corpo.

Ah, uma última observação. Não faz muito me comentaram que existe uma teoria pós-humana também da literatura. Mantenho a opinião que então proferi: a julgar pela qualidade do material humano das obras literárias contemporâneas, o ideal seria pensarmos em uma teoria PRÉ-humana, pois estamos involuindo ao invés de avançarmos….

Deixo abaixo alguns desenhos de Simon Stalenhag para vocês viajarem nesse mundo tão distante, tão possível:

simon1lknasfka

 

simon2lasknflnksa

simon4islndgklnad1

simon5klansfgknlas

simon7lkandkfsa

 

simon9ksanklfnsa

simon10sjkzbfjk

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Arte, Edward Hopper, Generalidades, Isaac Asimov, Literatura, Pós-humano, Ray Bradbury, Simon Stalenhag

Uma resposta para “A arte como antecipação do pós-humano em Hopper e Stalenhag

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s