Obras Inquietas – 21. “Retrato de Varya Adoratskaya” (1914), Nicolai Fechin

Na minha coluna da semana no “Obras Inquietas”, escrevi sobre um quadro de Nicolai Fechin, “Retrato de Varya Adoratskaya” (1914).

Existem poucos detalhes sobre esse quadro. Alguns dizem que Varya Adoratskaya era vizinha de Fechin durante os 4 anos que ele dedicou-se de forma quase exclusiva à pintura de retratos. O rosto de espanto da menina revela uma ponta de medo; sobre a mesa, restos de bonecas e de um chá da tarde mostram melancolia. No meu texto, falei sobre o dia em que perdemos a inocência, mas o quadro também possui um momento histórico interessante: 1914 foi o ano em que iniciou a Primeira Guerra Mundial e, em 1917, viria a Revolução Russa. As cores vivas da pintura também são a despedida de uma forma inocente de ver o mundo.

Boa leitura.

“Retrato de Varya Adoratskaya” (1914), Nicolai Fechin

retrato

Existiu uma época em que o mundo era um local incrível: cheio de novidades, de luzes, de sons estranhos que tentávamos transformar em imagens, de sabores esdrúxulos que agradavam ou repudiavam ao paladar. Todos nós passamos por essa época. Não sabíamos então, mas era o melhor dos tempos. Precisávamos desbravar territórios novos, mapear locais ainda desconhecidos, e cada dia era um novo dia, cheio de aventuras e de descobertas. Não sabíamos o que era segunda feira ou álcool; desconhecíamos o conceito de responsabilidade, de dor, de noites repletas de angústia. A morte era uma ideia inexistente e, assim, todos éramos imortais. Contudo, aos poucos, o universo que circulava ao nosso redor começou a se firmar. Passamos a reconhecer rostos, lugares, vozes amigáveis, gritos ríspidos. Não demorou muito para a fome nos pressionar, para a solidão visitar nossos dias, para o terror habitar as trevas do quarto. O mundo foi diminuindo de tamanho, e deixou de ser mágico para se transformar em um local repleto de perigos e de instabilidades. Os confortos diminuíram, enquanto que os desesperos começavam a projetar suas sombras sobre as nossas vidas. Tudo que é maravilhoso um dia morre. Fechar os olhos hoje não serve para criar outra realidade quando voltarmos a abri-los; estamos presos a um destino que brinca conosco como se fossemos lambaris em um açude, e nunca escaparemos. A única constante da vida é estar vivo. E assim vamos até o dia em que a tristeza ensombra nossos olhos pela primeira vez e é quando, mesmo sem saber, que a experiência de ser humano começa, pois viver não passa de se arrastar de uma dor até outra até o conforto final. Por isso, nenhum de nós esquecerá o anônimo e terrível dia em que, enfim, a inocência morre – o dia em que o medo nasce.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/02/19/obras-inquietas-21-retrato-de-varya-adoratskaya-1914-nicolai-fechin/

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Arquivado em Arte, Crônicas, Nicolai Fechin, Obras Inquietas, Pintura, Produção Literária, Retrato de Varya Adoratskaya

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