Obras Inquietas – 20. “Os síndicos da guilda de ourives de Amsterdam” (1627), Thomas de Keyser

Na minha coluna da semana passada do “Obras Inquietas”, eu abordei uma pintura de Thomas de Keyser, “Os síndicos da guilda de ourives de Amsterdam” (1627). Falei sobre a sensação de estar sendo constantemente vigiado e julgado por olhos invisíveis, que são os da sociedade.

No mesmo período, muitos pintores fizeram grupos de homens olhando interrogativamente para o espectador da obra, como se soubessem de algum segredo não revelado. Eu poderia ter escolhido o famoso quadro de Rembrandt, “A guilda dos tecelões” (1662). Mas gosto do quadro de Thomas de Keyser por dois motivos: a mão impaciente do homem sentado na extremidade direita e o olhar enviesado do síndico inclinado sobre ele. Existe uma grande ironia nessa pintura; os homens parecem prestes a estourar em gargalhadas.

Boa leitura!

“Os síndicos da guilda de ourives de Amsterdam” (1627), de Thomas de Keyser

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Estamos sendo observados. Mesmo que não conseguimos ver, eles estão lá. Não importa o local ou o tempo, sempre existe alguém a nos analisar, a medir nossos passos e atitudes, a nos recriminar em silêncio distante. Nunca estamos certos. Nunca seremos livres. Os olhos invisíveis nos perseguem; não conseguimos nos esconder da sua suave recriminação, da expressão de desalento, das risadas indiscretas dos lábios ocultos por sombras e barbas. Olhe a mão do homem à direita: ela oscila, irônica, dando a dimensão da sua incapacidade. Com a expressão concentrada de quem nasceu para julgar e condenar, os homens não se impressionam com as nossas maiores glórias e nem se atemorizam com nossos crimes mais grotescos. Para esses olhos incansáveis, somos fracassos ambulantes, seres mesquinhos que fazem tudo errado, tudo. Todos carregamos alguma culpa, algum pecado, algum segredo que não ousamos confessar nem para o travesseiro nas trevas, mas eles – os homens – sabem disso. Não só sabem como estão disfarçadamente escarnecendo dos nossos esforços. Não precisam dizer a sua opinião: a maneira com que nos olham revela um misto de pena e de desesperança. Quando viramos as costas, as suas risadinhas e os cicios nos deixam desconfortáveis; viramos para encará-los, e o escárnio se transfere para outro ponto, incessante. Passamos a vida inteira sonhando em sermos dignos e respeitados por esses homens, mas eles sabem de antemão que nunca conseguiremos. Pois somos humanos e, por definição, estamos condenados a sermos falhos, insuficientes. Inadequados. Viver em sociedade é isso: ter uma sombra invisível a pairar sobre as nossas cabeças, julgando todos os nossos movimentos, rindo em silêncio das nossas angústias – e torcendo pela nossa queda.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/02/11/obras-inquietas-20-os-sindicos-da-guilda-de-ourives-de-amsterdam-1627-thomas-de-keyser/

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Arquivado em Arte, Crônicas, Obras Inquietas, Os síndicos da guilda de ourives de Amsterdam, Pintura, Produção Literária, Thomas de Keyser

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