Crônicas de um ano inteiro: “Nós que vamos morrer te saudamos”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, tratei de seres que sabem que vão morrer e o seu comportamento antes do fim, mas termino com um sonho – e com uma esperança.

Boa leitura.

 

Nós que vamos morrer te saudamos

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Aparece com frequência em entrevistas, em piadas ou em filmes: se soubesse que vai morrer, o quê você faria? As respostas são as mais amplas possíveis, desde uma viagem há muito sonhada até a realização de algum antigo sonho.  Contudo, tratamos isso sempre em abstrato, no campo das ideias, que é o lugar por excelência no qual podemos ser corretos e insinceros, arrancando aplausos admirados da consciência. Desconhecemos a hora em que iremos morrer, e isso nos enche de arrogância para imaginar um final digno para essa suposição. Estamos vivos e – de forma convencida – nos achamos imortais, pelo menos até que a morte nos contradiga.

No entanto, existem seres que, nesse exato momento, sabem que vão morrer. Foram desenganados ou padecem de enfermidades incuráveis. Estão em hospitais, em casas, esperando. Ignoram o momento exato em que deixarão o mundo, mas tem a noção de que esse instante se aproxima com passos céleres. No que pensam aqueles que, por uma ironia do Destino, sabem que a última respiração se aproxima? Terão medo, desespero, ou a tão almejada paz de espírito? O Tempo é um amigo ou inimigo – os segundos que escoam pela ampulheta são preciosos ou meros desperdícios?

Um dos princípios mais antigos da Filosofia é que devemos viver cada dia como se fosse o último, pois, em alguma ocasião, infelizmente estaremos certos. Quando entravam nos anfiteatros romanos, os gladiadores saudavam César: “Ave Caesar Imperator, morituri te salutant”, ou “Salve César, nós que vamos morrer te saudamos”. Existia sabedoria nessa frase. Nem todos os gladiadores morreriam: os que passassem por tal dia, tinham saudado a morte de forma pretérita; os que sobreviviam, sentiam-se como se tivessem renascido. É medida de prudência iniciar cada dia imaginando que vamos morrer hoje, pois talvez seja o que nos faça viver com mais afinco, impedindo-nos de gastar tempo com o supérfluo, de silenciar palavras que deveriam ser ditas, de ocultar sentimentos que deveriam ser demonstrados. Não precisamos estar na frente de César para admitir que, se a Morte quiser, hoje ela nos pega.

Tenho conhecido muitos seres prestes a morrer. Estou cansado de ver a morte vicejar ao meu redor. Perdoem-me se não falo de política, de economia, ou se não falo sobre cafés que chegam gelados, sobre produtos vendidos com defeito, sobre partidas de futebol. Eu gostaria de pensar nisso, de perder tempo criticando o mundo que se atreve a ignorar os meus pensamentos – que são os melhores, acreditem, sei o que é melhor para todos com base no mais excelente juiz de todos, que sou eu mesmo -, mas a morte me rodeia com seu hálito frio e bate na janela do quarto toda noite, lembrando que caminha por aí. No passado, recordo que morriam duas ou três pessoas próximas por ano; nos últimos tempos, a cada ano que passa, as mortes de conhecidos, remotos ou próximos, somam algumas dezenas. Meu pai tem uma frase quando alguém morre, “estão chamando a minha turma”, e, nos últimos tempos, parece que cada vez chegam mais perto.

Pensar sobre a morte não significa que eu a tema, só quer dizer que, diante de tantas variáveis no mundo – inclusive o fato de todos nós podermos não mais existir amanhã -, perder tempo discutindo irrelevâncias não me atrai. Prefiro aproveitar mais o dia que pode ser o meu último. Não faz muito tempo, li que nunca se produziu tanta informação na Humanidade como nos tempos atuais, mas a questão é o que selecionamos como informação a nos ocupar. Às vezes, penso que existe um grande Ministério da Desinformação que, aos moldes do preconizado em “1984” do George Orwell, esforça-se em fazer as pessoas se distraírem com picuinhas ao invés de colocar o dedo nas grandes questões. Só isso explica o fato de, a cada dia, elegerem uma polêmica inconsequente, um meme engraçado, uma reportagem lacrimosa, para, então, quando todos falarem de algo desimportante, conseguirmos silenciar as angústias que continuam ribombando nas nossas cabeças.

Por isso, sempre retorno ao que realmente importa e, nesse momento, está na minha dolorida consciência de que existem seres que sabem que vão morrer. Não lutam, não se desesperam, não negociam termos com a Morte – simplesmente esperam ela bater em casa e vir levá-los embora. Não são as minhas palavras que irão deter o avançar inexorável do inevitável, e nem ao menos servirão de consolo (“Palavras, palavras, palavras!”, e Hamlet joga o livro longe).

As únicas alternativas que tenho é um sonho e uma esperança. O sonho é que a morte seja como um fechar de olhos aqui e um abrir de novo na Eternidade. Sem dor, sem peso, sem nada a atormentar. A esperança é mais um desejo: dizem que, quando os aviões acertaram as Torres Gêmeas em Nova York, em setembro de 2001, muitas pessoas ficaram isoladas pelo fogo na Torre B. Elas viram a Torre A ceder ao próprio peso e desmoronar e, nesse momento, ilhadas, souberam qual era o seu destino inapelável: morrer em alguns minutos. Pegaram seus celulares e ligaram para os parentes que lhes eram queridos e, quando não conseguiam falar com eles, deixavam mensagens. Em todas elas, uma única palavra era onipresente: amor. Antes de morrer, somos preenchidos pelo amor, e essa é a única esperança que posso desejar para os seres que se encontram nesta encruzilhada da sua existência – que se sintam tomados pelo amor daqueles que tiveram o privilégio de conviver com eles. Que saúdem a morte sabendo que foram amados.

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Arquivado em Crônicas, Morte, Produção Literária

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