Crônicas de um ano inteiro: “A dignidade da dor”

No texto no “Crônicas de um ano inteiro” dessa semana, eu falei sobre as minhas recentes experiências em hospitais veterinários – e de como um grupo de cachorros me ensinou algo sobre como a dor é o que nos transforma em irmãos.

Boa leitura.

A dignidade da dor

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Não sou uma pessoa acostumada a ambientes hospitalares e à solenidade toda própria dos locais que tratam de saúde, mas quis o destino que, nos últimos meses, passasse a frequentar muitos hospitais veterinários e clínicas. Basta observar como uma sociedade trata dos seus animais para saber qual tratamento reservam aos seres humanos. Não existe tanta diferença assim entre os dois tipos de hospitais, talvez só o fato dos pacientes animais serem muito mais permissivos e calmos do que seus congêneres humanos.

Para alguém que caiu de paraquedas no meio desses locais, completamente desprevenido, estou aprendendo a andar de bicicleta enquanto desço a ladeira: lido com veterinários entusiasmados ou frívolos, com atendentes delicadas e outras ríspidas, tendo que escutar uma linguagem repleta de termos técnicos e soando tão hermética quanto maldições em sânscrito. Mais do que tudo, precisei aprender a controlar a ansiedade – justo eu, que sempre me orgulhei dos meus nervos de aço temperado – para não pular no pescoço do médico veterinário exigindo providências. Também aprendi a importância de fazer perguntas corretas no momento para tanto, algo que hoje considero uma arte perdida que devia ser ensinada nas escolas desde o primeiro dia de aula. Mais vital do que conseguir respostas é fazer as perguntas adequadas, e é irritante – para não dizer perigoso – perder tempo com indagações descabidas.

A melhor maneira de entender a Humanidade é, às vezes, contemplando o comportamento animal. Pois na data de hoje, assim que cheguei a um hospital, antevi problemas, digamos, relacionais: minha cachorra não suporta cães maiores do que ela. Por um rescaldo comportamental da sua época de rua, assim que enxerga um cachorro do mesmo tamanho ou maior, precisa lutar para mostrar o seu valor. Mas esses tempos estão no passado, ela que ainda não entendeu o fato e continua puxando brigas com verdadeiros mastins. Segundos antes de entrar no hospital, olhei para o corredor pelo qual passaria e percebi que o inferno estava prestes a abrir as suas portas, pois, no mínimo, oito cachorros do porte que ela gostava de brigar estavam ocupando o espaço. Previ uma briga homérica, algo digno de se fazer um cântico de louvor.

No entanto, nada aconteceu. A minha cachorra comportou-se de forma exemplar, como se os demais não estivessem ali. Eles também continuaram calados, imersos nos seus pensamentos, alguns deitados, outros sentados, mas todos com os olhares distantes. Sentamos em uma cadeira e, na nossa frente, estava deitado um cachorro enorme, no estilo que o meu animal normalmente chamaria para uma briga. Era possível ver a sua respiração lenta, pausada, e o corpo ostentava várias feridas auto-infligidas (ele possuía uma doença de pele que causava extrema coceira, arrancando pedaços da própria carne para se coçar, o que lhe deixava com um assustador cheiro de carniça). Deitada na frente deste enorme cachorro, que em geral levaria alguns latidos e ameaças rosnadas, a minha cachorra contemplou-lhe com inegável pena, amplamente solidária à sua dor.

Enquanto todos os donos de cachorros teclavam nos seus celulares, eu prestei atenção nos animais, e vi que algo mágico acontecia naquele corredor estreito. Todos estavam em silêncio completo; nenhum latia ou miava. As diferenças entre espécies também não importavam mais. Cada um estava imerso na própria dor ou doença, mas trocavam olhares de simpatia e de mútuo reconhecimento entre si.

A dor é algo que irmana a todas as criaturas. Termina com as barreiras, reduz as diferenças, finaliza as discussões. Todos sentem – ou ainda sentirão – e, apesar das escalas criadas para mensurar a intensidade dessa experiência, só quem sente dor sabe que cada uma delas é individual e única na forma com que aparenta dilacerar nosso corpo e deixar o espírito de joelhos diante do seu poder paralisante. Não interessa se são dores físicas ou espirituais, se é a sensação de vazio gerada por um relacionamento negado ou a amputação física de um membro, qualquer dor é a mais violenta que sentimos, pois rompe a aparente integridade da nossa estrutura. Somos mais frágeis do que imaginamos e, se existe algo ensinado com dureza exemplar pelos sentimentos, é que, na dor, somos todos irmãos.

Escutei relatos de donos de animais dizendo que, quando o humano adoece, tratam dele como se fossem enfermeiros, e a explicação pode ser mais simples do que imaginamos: quem sente dor não gostaria que outra pessoa ou ser sentisse algo igual. Dentro daquele corredor do hospital veterinário, os animais trocavam olhares plenos de compreensão; estavam sentindo dor, cada um ao seu próprio jeito, mas todos sofriam igual. O sofrimento nunca é algo individual e, em certos ambientes, fica nítido que as dores se somam e se compartilham.

Impossível não pensar em quantas pessoas machuquei com as minhas condutas ou quanta gente já me feriu com as suas atitudes. É muito fácil machucar alguém, o difícil é ser solidário diante da dor alheia. Sentado no corredor do hospital veterinário, vendo animais com um comportamento digno enquanto o médico não lhes chamava, trocando olhares cheios de medo e de dor silenciosa, percebi que essa é uma lição que deixamos de aprender, assim como a arte de fazer perguntas certas: a ideia de que somos criaturas feitas de dor, que ela está dentro não só da nossa vida, mas em tudo que nos cerca, e que o único dever que deveríamos observar é não trazer mais dor e sofrimento para um mundo que já se encontra imerso em tais sentimentos. Não machucar ninguém, seja com atitudes ou com opiniões, é um procedimento de coragem no universo em que vivemos, onde a transmissão e a veiculação de dor parece mais importante do que tentar evitá-la.

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