Obras Inquietas – 18. “Retrato de mulher” (1650), Diego Velázquez

Na minha coluna da semana passada no “Obras Inquietas”, lá no Artrianon, eu tratei de um quadro não tão conhecido de Diego Velázquez, o “Retrato de mulher” (1650) ou “Retrato de Sibila”. Ele esconde vários mistérios. Inicialmente, por que Velázquez não lhe colocou título, como costumava fazer nas suas obras. Em segundo lugar, pelas sólidas evidências históricas de que o quadro representa Constanza, a musa de Bernini, que Velázquez conheceu quando ela já era mais idosa e tentou suplantar a sua admiração pelo trabalho do outro artista apropriando-se da musa que não lhe pertencia.

Dormir com o sonho de outro homem – eis algo inquietante.

Boa leitura.

 

18. “Retrato de mulher” (1646-50), Diego Velázquez

retrat-mulher

 

Olhe o que não está ali. É atrás do singelo que se esconde o mais formidável segredo: uma pintura repleta de sexo, o princípio de um crime passional. Está diante dos nossos olhos, mas não somos capazes de ver. Toda obra de arte é inquieta, acúmulo de átomos furiosos, a questão é achar o ponto de tensão sobre o qual ela se funda. Na imagem, a mulher (nunca saberemos a cor de avelã dos seus olhos ou a leve ruga que surge sobre o lábio quando ela sorri) aponta para um papel, pensativa. O coque despretensioso revela que ela está em um lugar despojado, provavelmente em casa; a roupa branca assemelha-se a uma camisola, e o seio escapa por entre as dobras da veste, esquecido. Ela acabou de acordar, o corpo ainda guardando o suor da noite, ainda repleto de lascívia. Na cama, o amante contempla os braços carnudos, o queixo erguido, a mulher que esqueceu momentaneamente dele e vê como a luz se reflete na musa do seu ídolo. Sim, aí está o impossível, pois ele, Diego, dormiu com a musa inspiradora de outra pessoa. Cada musa pertence somente a um artista, assim como cada amor pertence a quem é atingido por ele; não existem dois amores iguais. Contudo, isso não foi obstáculo para Diego, que invadiu os devaneios alheios e levou para a cama o sonho de mulher que não era seu. Não amou aquele ser de carne, rugas e fraquezas tão humanas que conhecera, mas a imagem que o outro artista possuía dela. Enquanto o escultor tentava eternizar um sentimento, o pintor amante fartava-se na carne jovem da musa que não era sua. Não basta possuir um corpo, isso é para ignorantes. Não é suficiente exibir para o mundo a sua conquista, isso é para fracos. A verdadeira, imperdoável, traição é muito mais terrível: é dormir com o sonho de amor de outra pessoa.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/01/28/18-retrato-de-mulher-1646-50-diego-velazquez/

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