Crônicas de um ano inteiro: “Pobres homens ricos”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, eu falei sobre a prisão de Eike Batista, sobre um texto que escrevi e pelo qual fui ameaçado de processo (sim, a vida é divertida), sobre minhas dúvidas em relação ao motivo dos corruptos roubarem tanto dinheiro, sobre as obras de arte destruídas em São Paulo por João Dória, sobre Pompeia e sobre Virgílio, terminando com Bansky, tudo para dizer que, se a pessoa não tiver uma formação humanística, todo o dinheiro do mundo não vai suprir o seu vazio interno.

Ah, o texto que mencionei na crônica está aqui, e eu estava errado, pois escrevi cinco anos atrás: https://homemdespedacado.wordpress.com/2012/03/19/eu-tenho-pena-do-eike-batista/

Boa leitura.

Pobres homens ricos

"Cave painting", Bansky

“Cave painting”, Bansky

Hoje pela manhã, o empresário Eike Batista deixou a condição de foragido e entregou-se à polícia. Ato contínuo, muitas pessoas comemoraram tal acontecimento, e algumas – com a necessária dose de maldade – perguntaram se ele iria para a prisão comum, pois não possui diploma de curso superior e nenhuma das condições que levam à segregação especial. Algumas dessas pessoas, inclusive, se consideram as mais democráticas e defensoras dos direitos humanos, o que não deixa de ser estranho: se tivessem visitado uma cadeia ao invés de ler a respeito, saberiam que não se deseja tal destino nem ao pior inimigo. Na nossa sede por justiça, deixamos ela se aproximar muito do conceito de vingança e da reparação punitiva dos crimes. Nesse contexto, não surpreende que eu vi muita gente comemorando um soco desferido contra um neonazista: ainda estamos vivendo na “Lei de Talião”, olho por olho, dente por dente. Não evoluímos tanto assim depois de 3.000 anos de “civilização”.

A prisão do empresário me fez lembrar um texto que escrevi quatro anos atrás, intitulado “Eu tenho pena de Eike Batista”. Pensei nesse texto por ter sido a primeira vez que recebi uma ameaça de processo: um advogado mandou uma “notificação extrajudicial” para que eu retirasse esse texto do meio virtual ou “sofreria as penas da lei cível e criminal”. Até hoje não sei se era sério ou não. Também recordo que dei gostosas risadas, posto que sou igualmente advogado, e uma das poucas coisas que sei fazer é ficar no limite exato entre calúnia e opinião. Não tinha cometido crime algum; a ameaça era um blefe. Esse papo de “sofrer as penas da lei cível e criminal” pode assustar grande parte das pessoas, mas, para mim, é tão vazio quanto dizer que o céu é azul, pois estamos sempre sofrendo as consequências da lei cível e criminal assim que respiramos, oras. Não retirei o texto do meu blog, e ele continua por aí na internet. Como era de se esperar, não fui processado.

Nesse texto, comentei uma entrevista em que Eike Batista mencionou que o seu filho, Thor Batista, completara o colégio sem nunca ter lido um livro. Isso foi falado com orgulho tanto pelo pai quanto pelo filho, em uma demonstração de que, para a pessoa se tornar (na época) bilionária, ela não precisava de leitura. Cultura era supérflua; o importante era a educação e o dinheiro. Ao final, afirmei ter pena de Eike Batista, pois do que adiantava um homem possuir uma quantia impressionante de dinheiro se não tinha nenhuma formação humanística, inclusive para saber gastá-lo? A vida é muito mais do que iates, aviões particulares e carros de luxo. Ter dinheiro e não ter conhecimento é como a primeira epístola aos Coríntios de São Paulo: falasse eu a língua dos homens e dos anjos, se não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que retine.

Se existe algo que me intriga na corrupção do país, além das quantidades impressionantes que foram desviadas de forma tão simplória, é o que os corruptos pretendiam fazer com tamanhas quantidades de dinheiro. Cem milhões, duzentos milhões, quinhentos milhões de reais… parecem-me quantias tão elevadas que dificilmente seriam gastas em uma vida. A maioria dos corruptos são homens, e estão em uma idade provecta. Qual o sentido de tanto dinheiro desviado? Uma hora acabam as joias, os relógios, os imóveis, as viagens, os bens de consumo, e fica o quê? O vazio de não ter a maior de todas as posses, o conteúdo humanístico. Eles também nunca serão felizes. Acham que o dinheiro desviado é capaz de trazer felicidade, mas, coitados, nem sabem direito o que é ser feliz. Ainda estão na fase de confundir realização pessoal com acumulação de dinheiro. Nem o Tio Patinhas pensava assim ao mergulhar na sua caixa forte.

Quinze dias atrás, em outra atroz falta de formação humanística, o prefeito de São Paulo, João Dória, mandou apagar as obras de arte ostentadas nos muros da cidade, chamadas de “pichações”, um conceito carregado de carga pejorativa e que deixa entrever uma ideia tanto de ilegalidade quanto de subalternidade, o que valeria uma discussão em outro momento (como a palavra com que denominamos algo pode ser decisiva também para o destino desse objeto).

Acaso Dória tivesse uma formação humanística não voltada para o dinheiro ou para o sucesso, como grande parte das pessoas do Brasil, saberia que muros pintados também são arte. Pompeia e Herculano estão repletas de murais mostrando cenas do cotidiano que estariam perdidas para sempre se não fossem esses anônimos artistas. Da mesma forma, o grande poeta Virgílio costumava escrever poemas desaforados nos muros da Roma antiga. Um pouco mais de informação histórica sobre o que é uma obra de arte teria sido decisivo para João Dória entender o enorme crime que cometeu, pois quem mata a arte mata um mundo inteiro. Ao limpar a cidade, realizou um genocídio artístico.

Em 2008, Bansky fez uma obra de arte em um muro na Leake Street, em Londres. Ela se chama “Cave painting”, e mostra um funcionário da Prefeitura apagando, de forma plácida, os desenhos feitos em uma caverna pré-histórica. Esse é o risco de dar poder para quem privilegia o dinheiro ao invés do ser humano: ver obras de arte e o passado desaparecerem sob uma borracha insensível. Eike Batista, os políticos corruptos, João Dória – toda uma geração de homens que encheram as suas contas bancárias e perderam o mais importante: a alegria de se maravilhar com um bom livro, uma pintura arrojada, uma pichação que parece viva. Todos eles, pobres homens ricos.

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Arquivado em Arte, Arte urbana, Bansky, Corrupção, Crônicas, Eike Batista, João Dória, Produção Literária

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