Obras Inquietas – 17. “Esqueleto e marinheiro” (2004), Marianna Gautner

Nessa semana, no “Obras Inquietas” lá no Artrianon, eu tratei de “Esqueleto e marinheiro” (2004), de uma artista que admiro muito, Marianna Gautner.

Aproveitei para falar da chegada inoportuna da Morte e do medo que toda mãe possui cada vez que seu filho se abandona ao sono, mas também falei um pouco de estoicismo, pedindo ajuda para Fernando Pessoa e para um dos meus filósofos prediletos, Epicteto.

Boa leitura.

17. “Esqueleto e marinheiro” (2004), Marianna Gautner

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Toda vez que você entra no quarto, eu estou lá, nas trevas, no canto escuro onde até a luz tem medo de entrar. Consegue sentir a minha presença? Em silêncio, espreito a vida do seu filho, essa pequena alma que carrega consigo um cadáver; sonho com o sabor doce da sua última respiração, anseio pelo olhar de súplica que ele lançará assim que ver meus lábios mortos se aproximando para um beijo. Eu nasci quando ele veio ao mundo. Você tem medo dos segredos que a noite esconde; receia uma respiração entrecortada, se apavora ao imaginar um sufocamento, teme que, em um segundo, o vômito entre pelo local errado e acabe com a vida antes mesmo dela começar. Mulher tola: acha que pode me vencer. Pensa que seu filho poderá sobreviver à morte quando, na verdade, estou escolhendo o melhor momento para acabar com a existência deste corpinho que dormita no berço. Seu filho é pequeno e frágil, ao passo que eu sou paciente, implacável – e infinita. Você não vai conseguir protegê-lo para sempre e, um dia, eu irei pegá-lo, seja no berço, seja na rua, seja na cama; seja na saúde ou na doença, na alegria ou na pobreza, o certo é que chegará o dia em que irei levar o seu filho para o Reino dos Mortos. Nesse dia, o último dele, sorverei a alma que me foi tantas vezes negada e deliciar-me-ei com o seu pranto, Pietà desastrada que fracassou em salvá-lo. Você não pode fazer nada por seu filho, mulher, pois a morte espreita esse cadáver adiado que procria desde que ele respirou pela primeira vez. Então, desista. Pare de espiar, pare de ter medo, pare de me enfrentar. Só não o matei até agora por mera vontade, pois essa criança já estava morta a partir do instante em que nasceu. No canto do quarto, eu espreito o seu medo, enquanto escolho a hora em que, enfim, matarei o seu filho.

 

Texto originalmente publicado em https://artrianon.com/2017/01/21/obras-inquietas-17-esqueleto-e-marinheiro-2004-marianna-gautner/

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Arquivado em Crônicas, Esqueleto e marinheiro, Impressões, Marianna Gautner, Obras Inquietas, Pintura, Produção Literária

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