Crônicas de um ano inteiro: “Não devemos ser Sherlock Holmes”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, eu falei sobre a minha luta implacável contra o mais ardiloso dos inimigos: a ficção.

Falei ainda dos métodos que uso para impedir que a imaginação me sufoque, assim como da minha necessidade de ficar o mais próximo possível do fato objetivo, mas também falei da “pós-verdade”, do mundo de detetives em que estamos vivendo, da morte do Teori Zavascki, de teorias da conspiração que envolvem até Walt Disney e de que é melhor ser São Tomé ao invés de Sherlock Holmes.

Boa leitura.

Não devemos ser Sherlock Holmes

sherlock

Há mais de duas décadas que enfrento o meu mais implacável inimigo: a ficção.

Ainda lembro o dia em que percebi que não era mais capaz de distinguir o real do imaginado. Para mim, imaginar e viver era a mesma coisa e, acreditem, era como uma droga: a menina não gostava de mim no mundo real? Pois na minha cabeça vivíamos um relacionamento cheio de altos e baixos, mas de pontos deliciosamente picantes. Eu não tinha conseguido o trabalho desejado? Pois então imaginava todos os percalços dele com tamanha intensidade que era um alívio não tê-lo conseguido. A ficção entrava como um substituto da realidade, um refúgio no qual poderia me esconder, uma vida alternativa repleta de alegrias. E não existem beijos como os que troquei na minha imaginação, assim como não há lugares melhores para trabalhar ou para viajar.

A ficção fornecia tudo aquilo que o mundo negava, e era melhor do que a realidade. Tão forte era a imaginação que contagiava os outros. Além disso, consegui apagar trechos inteiros da minha vida. Às vezes, acontece algo que me faz pensar “eu já passei por isso antes” e logo lembro um fato que sepultei cuidadosamente com camadas e mais camadas de ficção. Muitos eu condenei ao limbo da insignificância por causa de pensamentos encadeados com fatos mínimos, nos quais a ficção entrava com doses generosas de suposições, fazendo com que eu odiasse pessoas sem nenhum motivo real.

Quando notei isso, comecei o processo de desintoxicação. Em primeiro lugar, prendi a ficção nos textos que escrevo. Hoje, ao invés de devanear com impossibilidades, escrevo sobre elas. Em seguida, tornei-me um descrente, e não deixa de ser estranho que um escritor declare não se permitir sonhar em voz alta ou no interior da sua cabeça. Por último, passei a aceitar somente a primazia do fato: acredito naquilo que está ao alcance dos meus sentidos. Recuso-me a deixar a imaginação influir na experiência. É por isso que não adianta me atacarem com indiretas, com ironias mordazes, com tiradas cruéis. Mantenho-me restrito ao fato, apesar da ficção ficar toda hora me tentando com seus lábios de serpente e sua voz cálida.

É interessante que, após um longo e dificultoso processo de retomada da realidade, eu esteja progressivamente mais concentrado no mundo, enquanto as pessoas ao redor estão fazendo o movimento contrário, adentrando cada vez mais no confortável espaço da ficção. Estou cercado de pessoas contando histórias dotadas de alto potencial imaginativo, com severas quebras de verossimilhança e, o pior, acreditando piamente nas criações. A ficção também invadiu os meios de comunicação: os jornais e noticiários estão repletos de suposições, as quais corroboram ou negam imaginações dos seus ouvintes, que tentam responder mostrando a sua versão dos fatos. O resultado é que estamos vivendo mais em ficções criadas pelas nossas mentes do que em um mundo objetivo no qual escutamos os fatos antes de decidirmos. No afã de sermos os primeiros a descobrir as grandes histórias que andam por aí, nos tornamos péssimos ficcionistas contando mentiras com fatos quebrados, com inverdades criadas por outras pessoas, com dados parciais.

No final do ano passado, o Dicionário Oxford escolheu como palavra do ano “pós-verdade” –  a noção de que os fatos objetivos são menos importantes do que as nossas crenças pessoais. Mais vale disfarçar um pensamento nosso dentro de uma moldura séria do que procurar a verdade dos fatos. Vejo vários sites especializados em fomentar a ficção alheia, e pessoas compartilhando as notícias deles como se fossem a base da sua elaborada teoria da conspiração. São notícias tão mal fabricadas que me espanta ver pessoas que considero inteligentes as difundindo. Aliás, eis uma mercadoria em falta no mundo atual: uma fonte de notícias dotada de credibilidade, alguém que, antes de divulgar, preocupa-se em investigar muito bem o fato.

Comento isso por que, na semana passada, li as mais variadas e incríveis teorias sobre a queda do avião em que estava Teori Zavascki, ministro do STF. Com grande dose de excitação, muitas pessoas se transformaram em detetives, juntando provas a esmo e tecendo acusações. Com a imaginativa mente de quem assistiu a muitos seriados de investigação, todos juntavam evidências que confortassem as suas teses, ligando-as de maneira inverossímil, a tal ponto que, se hoje alguém disser a verdade, ninguém mais irá acreditar. Ela se transformará em outra teoria da conspiração.

Antes de tudo, eu sou um ficcionista, e teorias da conspiração me agradam demais. Se tiver uma ligando a CIA, a Aeronáutica, o Trump, o Temer, o Moro e o Walt Disney, então, contem comigo. O problema é que, em uma época repleta de detetives, as pessoas esqueceram-se da primeira personagem que usou e abusou do conceito de “pós-verdade”: Sherlock Holmes.

O detetive criado por Conan Doyle era alguém que sempre tinha uma teoria para os crimes – e usava de todos os meios para mostrar que a sua visão era correta. Holmes costumava desaparecer no meio das suas investigações para surgir na hora decisiva com uma prova irrefutável que dava razão para a sua teoria. O detetive perfeito em quem as pessoas se escoram para desvendar os segredos do mundo era um forte adepto da “pós-verdade”, alguém que omitia informações, escondia dados e realizava investigações paralelas para provar o seu ponto de vista.

Existem muitos perigos em agir assim. Quanto mais a ficção invadir a realidade, menos seremos capazes de ver o fato, e as injustiças acabarão se multiplicando. Logo estaremos envolvidos em uma cadeia de ficções geradas por outras pessoas, e elas são como a Hidra de Lerna, matamos uma e surgem sete no seu lugar. Portanto, não devemos ser como Sherlock Holmes, um homem ansioso para demonstrar a sua ideia a qualquer custo. O melhor é termos São Tomé como guia, e só acreditarmos no que está diante dos nossos olhos.

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Arquivado em Crônicas, Limites da ficção, Literatura, Pós-verdade, Produção Literária, Sherlock Holmes

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