Estou lendo o discurso que Richard Wagner fez em homenagem a Beethoven, presente no livro “Beethoven”, e a sua teoria (ousada) de que toda a obra do outro é uma constante redescoberta da bondade que existe no âmago de todo ser humano: quando o músico começava as suas composições, a visão pessimista e desencantada sobre a Humanidade era inevitável, mas a música ia se abrindo como rompantes luminosos em meio a uma tempestade, até que, enfim, Beethoven cedia e percebia que, sim, o ser humano é bom, e que vai dar tudo certo, sim sim sim.

richard-wagner

Tirando a parte do nacionalismo alemão que prepondera em trechos do texto (falta-me conhecimento para tanto, mas parece que Wagner foi um pouco mal interpretado nesse assunto, pois ele distingue “sentimento alemão” de “espírito alemão”, e a bagunça entre os dois conceitos que levou ao surgimento do nacionalismo), em um parágrafo, Wagner tenta imaginar o colega músico preso dentro dos seus próprios ritmos e sons:

“Um músico que ensurdece! É possível imaginar um pintor que ficasse cego? Mas conhecemos o vidente que fica cego. Tirésias, para o qual o mundo da aparência se fechou, e que começa a perceber com o seu olho interior o fundo de toda aparência – a ele se assemelha agora o músico que ensurdeceu, o qual, não podendo mais ser perturbado pelos ruídos da vida, ouve somente as harmonias de seu interior, e é unicamente de sua profundeza que ele fala a um mundo que nada mais tem a lhe dizer. Eis agora o gênio livre de tudo que é exterior a si, inteiramente em casa, consigo e em si. Quem outrora viu Beethoven com os olhos de Tirésias, que maravilha deve ter descoberto: um mundo caminhando entre os homens.”

Na versão de Wagner, é comovente imaginar Beethoven andando por aí preso no seu mundo repleto de melodia, isolado na involuntária concha acústica que a surdez lhe proporcionou. É ainda mais emocionante imaginar que, mesmo preso dentro do próprio mundo, ele ainda achava que o ser humano tinha esperança, que a alegria iria triunfar, que somos todos bons. É um louvável exercício de fé na Humanidade. Algo que os tempos atuais insistem em contradizer a cada minuto, com todos ao nosso redor mostrando que o ser humano é ruim, que só possui intenções cruéis, que seus objetivos são nefastos.

E se, como Beethoven, acreditássemos que existem nesgas de luz no meio das trevas, e que vale a pena tentar ampliá-las através do nosso trabalho? Pois lidar com arte é justamente a tentativa de trazer coerência para o mundo despedaçado e cacofônico que nos cerca.

Ser um mundo inteiro para alguém e para si mesmo: eis um objetivo de vida aceitável.

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