Crônicas de um ano inteiro: “Feminicídio é ódio, e não amor”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, escrevi sobre o feminicídio. Na semana passada, por uma estranha coincidência, me contaram três feminicídios acontecidos recentemente, o que me levou a ler mais sobre o assunto e a perceber o quanto um crime de ódio é tratado como um caso de amor fracassado. Também me fez recordar um que testemunhei acontecer, e que é contado no texto.

Para acabar com o feminicídio, urgente é acabar com a visão do Romantismo, e isso passa pela mudança do discurso.

Boa leitura.

Feminicídio é ódio, e não amor

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Não estou acostumado a acompanhar noticiários e reportagens durante a semana, pois, no meu tempo livre, dou ênfase para a leitura de livros. No entanto, em meio ao clipping de notícias, chamou minha atenção o crescimento exponencial do feminicídio, ou o assassinato de mulheres pelo fato de serem mulheres. Acredito que isso sempre existiu em vastas quantidades, a diferença é que está sendo mais divulgado agora. Não bastando perceber um crescimento das manchetes, ainda escutei mais três relatos que sequer tinham surgido nas notícias, contando detalhes assustadores de outros feminicídios cometidos recentemente. Ou seja, não é um fenômeno isolado, mas um vírus cruel que se espalha, voraz, pela sociedade.

Em todos os casos que escutei, após matar a mulher, o homem cometeu suicídio. É uma subversão do ideal romântico de “morrer por amor” e, pensando no livro de Isaiah Berlin sobre as consequências nefastas que o Romantismo legou para o mundo, além do culto ao eu e ao hedonismo egoísta, poderíamos listar igualmente o feminicídio. No caso dele, o homem não mata por amor, mas por que não deseja que a mulher ame mais ninguém. Eis a suprema exibição de egocentrismo: sem a presença do homem, o mundo não pode continuar existindo para a mulher. Ainda assim, uma leitura breve nas notícias chega aos mesmos lugares comuns que tentam explicar a tragédia: “ele era ciumento”, “ele era agressivo”, “ele estava tentando voltar” e dezenas de outras expressões que, de forma educada e – espero – inconsciente, tentam atribuir um motivo lógico para o feminicídio aproximando-o de um gesto de amor tresloucado quando, na verdade, não há mais amor em tal ato.

Não existe uma explicação lógica para o feminicídio. Tentar encontrá-la é diminuir a gravidade do ato. Temos uma tendência cartesiana de achar um motivo para tudo, o que é uma forma de nos tranquilizar e dizer que não faríamos aquilo. No entanto, um feminicídio é um ato de ódio cometido contra uma mulher, e é preocupante que se tente diminuir este fato dizendo que foi um gesto de ciúme ou um desvario amoroso encerrado em tragédia.

Ainda somos escravos de uma visão romântica do mundo. Acreditamos em amores impossíveis, que os sentimentos nem sempre surgem na hora certa e precisam ser “estimulados” por meio da insistência, que as histórias possuem finais felizes e, se não chegamos lá, é porque ainda não terminou. Pior ainda, acreditamos que o amor move os seres humanos, e é pensando assim que tentamos considerar tudo de acordo com os seus termos.  Então, seguindo a imprensa, os feminicídios viram tragédias de um amor que não deu certo, com uma espécie de alerta implícito para “tomem cuidado com quem vocês se relacionam”, como se fosse tão possível prever o ódio quanto seria adivinhar a existência do amor.

Lendo as manchetes, percebe-se ainda a tentativa de classificar o feminicídio como o gesto cometido por um homem que amava demais. Eis algo inexistente: não existe como mensurar um sentimento. Ninguém ama demais ou de forma insuficiente, cada um o faz da forma que percebe o amor. Pode acontecer dele andar tão perto do ódio que os dois se tornam inseparáveis para quem é objeto de interesse e, neste caso, por imaginar – sempre seguindo essa visão que nos foi imposta pelo Romantismo – que é um amor desesperado, a mulher acaba cedendo, para, um dia, perceber que era ódio e tentar se afastar de uma relação viciosa.

Deveria existir um cuidado linguístico maior ao se tratar do feminicídio. Não acredito em programas governamentais para debelar tais práticas ou na denúncia sistemática deste crime como forma de prevenção, mas creio firmemente na força das palavras e que, diante de uma fogueira, elas podem servir tanto como água quanto como gasolina. Observando a forma com que nos referimos ao feminicídio, vejo admiração incontida: Fulano amava tanto que demonstrou tal sentimento matando a mulher amada. Ou: só ama de verdade quem mata o objeto do seu amor e, em seguida, se mata. Não pode ser uma coincidência que quase todos os homens se suicidam depois de cometerem o assassinato.  Estão entregando a sua vida ao Deus do Amor quando, na verdade, nunca amaram.

Eu estive perto de um feminicídio, e sei o quanto palavras são perigosas. Muitos anos atrás, um cliente começou a se referir com raiva à sua mulher, imaginando que ela tivesse um caso. As reclamações pontuais logo viraram discursos impregnados de perdigotos e de xingões, não só sobre a sua esposa, mas contra todas as mulheres. Eu era jovem (não que isso justifique algo, somente a minha inexperiência) e achei que fossem desabafos soltos ao vento, tanto que não me importei, não denunciei e inclusive brinquei algumas vezes sobre o assunto.

Quando o senhor F. matou a sua mulher, atirando nela dentro de um ônibus, eu percebi que todos os sinais do crime sendo premeditado estavam o tempo inteiro na minha frente. Não sei se poderia ter evitado tamanha desgraça, pois ainda não sabia o mal que se esconde no coração dos homens, mas, por algum tempo, perguntei-me o quanto a minha passividade diante das ameaças do senhor F. não serviu de chancela silenciosa para a sua conduta e se as minhas brincadeiras inconsequentes também não ajudaram a lhe dar mais convicção. Desde então, sou muito cauteloso com o que falo e com o que escuto, pois nunca se sabe qual é a extensão do fosso da alma de qualquer ser humano.

Devemos deixar de considerar como “ato romântico que deu errado” um crime de ódio. Também é essencial que tenhamos muita atenção sobre as palavras que proferimos ou que estão ao nosso redor. Podemos ser a gota involuntária que faltava para encher o copo de uma pessoa, assim como podemos escutar a tragédia antes dela acontecer. No entanto, mais do que tudo, o importante seria deixarmos de lado as fantasias românticas que cercam inclusive os discursos ao nosso redor e passar a atacar o feminicídio como aquilo que ele é: um imperdoável crime de ódio.

 

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Arquivado em Amor, Ódio, Crônicas, Feminicídio, Produção Literária, Romantismo

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