Obras Inquietas – 15. “A boneca” (1936), Hans Bellmer

Na minha coluna da semana passada no “Obras Inquietas”, lá no Artrianon, eu falei de “A boneca” (1936), uma das obras  de Hans Bellmer que até hoje desperta polêmica entre os entusiastas da arte, pois se aproxima demais do flerte com o grotesco, com a erotização de adolescentes e com a violência contra o corpo feminino. Mas a base mesmo do texto é um comentário que a artista Louise Bourgeois fez sobre Bellmer: “na obra de arte, eu sou o assassino”. No caso, o “eu” tanto pode ser o artista quanto o espectador, e esse jogo dúplice é que nos deixa doentes – e fascinados.

Mas também aproveitei para falar de pessoas que amam tanto algo que precisam destruí-lo, algo que, infelizmente, temos visto muito por aí.

Boa leitura!

“A boneca”, Hans Bellmer

a-boneca

 

Vocês só veem o ódio, mas, quando começa, é um ato de amor. Toda relação nasce de um sentimento bonito, são os humanos que acabam por destruir tudo, acrescentando carne, suor, saliva, fezes, esperma, pelos, excrescências. Ainda lembro o suspiro que me escapou quando a vi atravessando a rua, diáfana, pura, uma borboleta indo se juntar às demais meninas que corriam no pátio da escola. Passei semanas buscando alguém que fosse igual e, quando achei, esse ser era de plástico e não possuía alma, mas, ao mesmo tempo, era melhor do que você, pois nunca envelheceria, ou teria a pele alva traída por machucados, ou sentiria dor, medo, pânico, angústia. Amei daquela forma intensa com que somente um homem pode se entregar ao desvario, até o dia em que, atormentado pelo silêncio, eu disse fala, e você não falou, e eu disse sinta, e você não sentiu, e eu disse ame e você somente me olhou com oceanos azuis impassíveis. Então, eu te quebrei inteira. Pedaço por pedaço. Cortei, despedacei, desiludi. Eu te mutilei, queimei teu corpo, ouvi o plástico gemer de dor, mas você manteve seu silêncio magoado. Se você não me ama, então não sentirá nada por mais ninguém. Enquanto eu te matava, estava chorando, e não entendia como podia amar de forma tão dolorida a vítima enquanto a estava machucando. Os seus gritos silenciosos me atormentavam. Depois que destruí tudo o que você foi ou podia ser, tentei reconstruí-la de acordo com a minha memória de apaixonado, revivendo aquele fugidio sorriso de uma borboleta correndo ao atravessar a rua, mas eu, Victor Frankenstein incompetente, não consigo mais ter você de volta. Todos veem o ódio com que eu a tratei, mas esquecem que tudo começou com muito amor, e que, mesmo quando a destruí, fiz por que a amo. As pessoas esquecem que, quando faço a minha arte, eu sou o assassino – eu sou o Deus da Morte.

 

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/01/07/obras-inquietas-15-a-boneca-1936-hans-bellmer/

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Arquivado em A boneca, Arte, Crônicas, Hans Bellmer, Obras Inquietas, Produção Literária

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