Crônicas de um ano inteiro: “Os que fazem mesmo assim”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, eu pretendia falar do discurso da Meryl Streep e dos lacedemônios no Desfiladeiro das Termópilas, mas não consegui, por que a Alemoa está passando por uma série de graves problemas médicos desde ontem, e isso acabou comigo.

Apesar disso, eu escrevi a crônica, como uma homenagem a todos os que fazem as coisas mesmo assim.

Boa leitura.

 

Os que fazem mesmo assim

meryl-streep

Hoje eu pretendia escrever sobre o poderoso discurso que Meryl Streep fez na noite passada ao ser homenageada na cerimônia do Globo de Ouro, uma fala sobre a importância dos estrangeiros na formação de um povo (somos todos estrangeiros), sobre a força da arte para resolver os dilemas, sobre a tristeza que sentiu ao ver um cadeirante ser ridicularizado pelo presidente recém-eleito dos Estados Unidos e sobre a essencialidade da imprensa em tempos de informações deturpadas, terminando com uma ode à empatia que precisamos ter como guia para as nossas condutas.

Devia escrever sobre isso, mas não vou. Muitas pessoas mais capacitadas falaram com propriedade desses assuntos, elencando os clichês de sempre. Ao invés, irei me concentrar nos primeiros e quase ignorados minutos do discurso de Meryl Streep. O momento em que ela saudou a plateia e, em uma voz titubeante, confessou estar um pouco afônica. Em seguida, levantou um maço de papéis e falou que preferia ler as palavras preparadas ao invés de discursar de improviso. Esse foi o preâmbulo de um discurso de cinco minutos em que, ao contrário do esperado, a voz de Meryl Streep raramente fraquejou e em que as suas anotações quase não foram consultadas.

Meryl Streep estava sem voz e a memória não lhe ajudava, como disse, mas, mesmo assim, subiu ao palco e discursou. Podia estar em casa tomando um chá e repousando a voz; podia falar algumas frases diplomáticas sobre a sua carreira; podia agradecer pai, mãe, filhos, diretores; podia lembrar histórias pitorescas ou – como é costume no Brasil – contar algum drama particular ou história de superação pessoal, chorando e levando o público às lágrimas. Apesar da voz fraca, do discurso anotado para burlar a memória fraca, do medo que deve ter sentido pela falha repentina da sua voz em um momento decisivo ou de esquecer alguma parte do que pretendia dizer, mesmo assim, Meryl Streep foi lá e fez. Não despertou lágrimas ou risadas; a maioria dos semblantes da plateia lhe contemplavam com seriedade e reflexão. Não usou lugares comuns; descreveu os locais de nascença de vários atores trazendo-os para cima do palco como testemunhas e parte das suas palavras. Não falou bobagens, não buscou o riso fácil, não se deteve egoisticamente em si; mirou a verdade, pretendendo transformar a sua voz em caixa de ressonância dos que não podem falar. Não precisava fazer e, mesmo assim, Meryl Streep fez.

Pretendia escrever sobre isso. Juro que pretendia. Inclusive queria falar dos lacedemônios – ou espartanos, como queiram – que, no Desfiladeiro das Termópilas, pararam no caminho do mais poderoso exército do mundo sabendo que iriam morrer e, mesmo assim, não esmoreceram. É uma expressão mágica, o “mesmo assim”. Diz respeito a pessoas que, mesmo atormentadas, ainda assim conseguem executar as suas tarefas. Pessoas que, enquanto o mundo desmorona ao seu redor, conseguem manter a concentração para que ninguém note o seu despedaçamento interno.

Não consigo escrever o texto planejado por um motivo íntimo: há dois meses adotei uma cachorrinha de rua. Estou acostumado com ela, não consigo mais conceber uma chegada em casa sem a sua presença tranquilizadora vindo ver o que eu lhe trouxe de presente. Pois na noite de ontem, enquanto Meryl Streep discursava, a cachorrinha passou muito mal. Em uma consulta veterinária realizada hoje pela manhã, os prognósticos vieram revestidos de palavras assustadoras: câncer, tumor, deficiência cardíaca, falência do fígado ou dos rins, doenças no sangue. No fundo do olhar doce da Alemoa, vejo uma pergunta incômoda: tu vais me salvar? E eu não sei se vou. Tenho medo de que essa pergunta silenciosa vire outra que já testemunhei, quando meu outro cachorro faleceu nos meus braços: então é o teu rosto que verei pela última vez antes de morrer?

Não consigo me concentrar no discurso de Meryl Streep. Não consigo pensar em lacedemônios encarando flechas. Tudo o que penso é na dor repleta de silêncio da minha cachorrinha enquanto faço todos os exames possíveis para chegar a alguma resposta, rezando para que os piores prognósticos sejam afastados e o seu problema de saúde seja uma bobagenzinha do tipo que vou dizer, rindo, “que susto tu me deste, Alemoa!”.

No entanto, mesmo assim, eu escrevi esse texto. Não para lidar com a minha dor, para afastar meu medo ou para ocupar o tempo enquanto começa outra carrada de exames no corpo tão fraco da minha cachorrinha. Escrevi simplesmente por que não existe a opção “não escrever”. E penso em quantas mães que, nesse exato momento, tiveram que deixar seus filhos doentes em casa sob cuidados alheios, rezando em silêncio para que eles melhorem; ou nas pessoas que sofrem por que algum parente está em estado vegetativo sobre um leito de hospital, sem saber se aquele é o último dia ou só mais um; ou nos atendentes de bar que não sabem se terão dinheiro para comer até o final do mês se comprarem um presente para o seu filho. Essas pessoas estão aí, ao lado de vocês, sorrindo com falsidade enquanto as cabeças vagueiam por problemas insolúveis, ou disfarçando a sua preocupação com gestos indiferentes, ou fazendo discursos no Globo de Ouro, ou escrevendo textos que não mudarão o mundo. Nós, as pessoas que, mesmo assim, continuam levando a vida adiante por que não podemos parar, por mais que doa – e por maior que seja o nosso medo.

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Arquivado em Cachorro, Cinema, Crônicas, Meryl Streep, Produção Literária

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