Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (05/01/2017): “Longa vida aos invejosos”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu falei da inveja. Tudo por causa de um presente que ganhei: um “olho de Hórus” gigante contra o mau olhado.

Mas também falei da minha visita ao Salão Nobre de Escritores de Salto, no Uruguai, e faço suposições sobre a guerra que esse Salão Nobre representaria no mundo literário gaúcho; trato de Julio Cortázar e do seu desejo de escrever como Bioy Casares (todos os escritores sonham em ser Bioy Casares) e termino falando dos epigramas de Paladas de Alexandria e a sua receita para lidar com a inveja: ser melhor do que o objeto invejado.

Boa leitura!

Longa vida aos invejosos

De todos os pecados capitais, provavelmente a inveja é o mais temido. Não são poucas as pessoas que me perguntam se tenho medo dos invejosos; em compensação, nunca ninguém me perguntou se receio os gulosos, os preguiçosos ou as luxuriosas. Não entendo o motivo pelo qual a inveja alheia iria me atemorizar. Se alguém se sente dessa forma, é um sentimento que lhe aflige, e não a mim. Enquanto a inveja não sair do espírito de outro e se meter no meu percurso, não existe razão alguma para temê-la. As pessoas se preocupam com os sentimentos que posso despertar e, assim, recebo várias orações, amuletos e imagens de santos, todas com o intuito de me defender desse inimigo oculto: o invejoso.

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A inveja é temida por que, no mundo atual, ela virou a regra. Estamos nadando em um oceano de rancor. Basta acessar qualquer rede social, ler alguma reportagem ou até mesmo conversar com um grupo de pessoas para que logo surjam expressões demonstrando a inveja sentida pelo poder de um empresário ou político, ou pela aparência de alguma atriz, ou pelo dinheiro que está nas contas bancárias que não nos pertencem. A grande regra da atualidade é cobiçar a vida do outro. A grama do vizinho é muito mais verde e bonita do que a nossa. No entanto, ao invés de melhorarmos o nosso quintal, preferimos desancar a grama que não nos pertence e atribuí-la a poderes mágicos, à sorte ou ao destino.

Três anos atrás, eu estava em Salto, no Uruguai, visitando o Museu de Horacio Quiroga, construído na casa onde ele nasceu e passou seus primeiros anos de vida. Estava sozinho no museu, e o guarda que me acompanhava convidou-me a conhecer o lugar que mais orgulho dava para a cidade. Desci as escadas e, no porão, fui apresentado ao Salão Nobre dos Escritores de Salto, o qual ostentava fotos, escrivaninhas, objetos pessoais e manuscritos de escritores da região. Com exceção de Horacio Quiroga e de mais um que outro nome que avivasse algum poema escondido na memória, eu não conhecia nenhum dos nobres integrantes do Salão Nobre dos Escritores. Ainda assim, eles estavam ali, e tinham sido alçados a membros de tal panteão por contribuírem para a arte literária nacional e serem provenientes da cidade.

O guarda perguntou se a minha cidade, Porto Alegre, dispunha de um local semelhante, um Salão Nobre onde estivessem reunidos os escritores como uma forma de reconhecimento ao seu trabalho em favor da literatura. Por segundos, passou na minha cabeça um breve filme: nunca existiria um consenso sobre qual escritor faria parte de dita honraria literária. Existiriam brigas intermináveis tanto para entrar quanto para tirar autores que fariam parte do Dream Team de Literatura da região. Existiria ranger de dentes, lágrimas, muito despeito, muita ironia, muitos memes, muita gente se revestindo de crítico literário da noite para o dia, muitas discussões sobre representatividade na lista, muitas vidas de escritores esmiuçadas em busca de máculas que justificassem a exclusão do seu nome, muitos critérios mais políticos do que de qualidade e permanência do material, infinitas discussões sobre o que é “literatura de verdade”, muitos “por que ele e não eu?”, muitos jornalistas e “formadores de opinião” dando palpite, muitos textões pretensamente inteligentes e repletos de piadas de gosto duvidoso. A Guerra de Tróia começou com o pomo das Hespérides jogado sobre uma mesa, e seria uma pálida refrega perto da batalha de inveja que um Salão Nobre desses causaria. Preferi a resposta curta, “não temos”, ao invés de dizer a verdade, “não temos maturidade para lidar com essa questão”.

Não sabemos lidar com a inveja. Consideramos algo destrutivo, e esforçamo-nos para ficar longe daqueles que nos invejam, mas ela é um sentimento que pode ser usado como trampolim para grandes realizações. Ao invés de vilipendiar o outro que secretamente invejamos, seria mais vantajoso tentarmos superá-lo. Essa é a base de toda a “angústia da influência” pensada por Harold Bloom: as grandes obras literárias se constroem por que desejamos, de forma inconsciente, destruir os autores que nos deram origem. Ao mesmo tempo em que possuímos o desejo de destruição, também padecemos de eterna angústia por não saber se conseguiremos levar a cabo tal tarefa. Nem preciso dizer que, ao transformar a tradição literária ocidental em um bando de escritores recalcados tentando vencer a inveja, Harold Bloom foi muito insultado e ridicularizado.

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Ainda assim, prefiro pensar que a inveja é uma força construtiva; se o outro é melhor do que nós, então devemos não diminuí-lo, mas suplantá-lo. Reconhecer a sua importância, adotá-lo como modelo e, em seguida, tentar ir além do ponto que admiramos. Em um dos contos mais instigantes de Julio Cortázar, “Diário para um conto”, a história inicia com o narrador afirmando textualmente a sua inveja por outro escritor:

“2 de fevereiro, 1982.

Às vezes, vai me invadindo uma espécie de comichão de conto, esse sigiloso e crescente deslocamento que me aproxima pouco a pouco e resmungando dessa Olympia Traveller de Luxo (de luxo a pobre não tem nada, mas por outro lado tem travelliado pelos sete profundos mares azuis aguentando tudo quanto é golpe direto e indireto que pode receber uma portátil metida em uma mala entre calças, garrafas de rum e livros), é assim às vezes, quando cai a noite e ponho uma folha em branco no rolo e acendendo um Gitane me chamo de estúpido (para que um conto, afinal, por que não abrir um livro de outro contista, ou escutar um dos meus discos?), mas às vezes, quando já não posso fazer outra coisa a não ser começar um conto como quereria começar este, é quando eu gostaria exatamente de ser Adolfo Bioy Casares.”

Em outros momentos do conto, o narrador vai aludir a Bioy Casares sempre com muita admiração e inveja, dizendo como o outro era melhor escritor, mais apto a lidar com os sentimentos de uma história e que, se ele está tentando escrever como se sentia em relação a Anabel, não consegue fazer justamente por não ter a capacidade de Bioy Casares. Interessante jogo é estabelecido: ele não é Bioy Casares (é Cortázar), e não consegue escrever a história como o colega escritor faria, mas, ainda assim, no meio do fracasso anunciado pelas suas tentativas de imitar o outro, a trama acaba surgindo. É a inveja sendo usada para construir, e não para destruir.

Só quem leu Bioy Casares sabe que, sim, todo escritor almeja ser como ele, na forma tranquila de narrar, na imaginação poderosa e pacífica, na maneira ordenada com que dispõe a mais complexa das tramas sem sequer parecer que está narrando. Todos sonham em ser Bioy Casares, mas acabam chegando – com muito esforço – em um Borges. Quando Cortázar brinca que gostaria de escrever como Bioy Casares, externa algo que todo autor tem no seu interior: a inveja em relação àqueles em que o narrar é quase tão natural quanto a respiração. O mesmo Flaubert sentia em relação a Balzac, ou Dostoiévski em relação a Gogol. Por isso mesmo, usaram esse desconforto para criar as sua sobras, não para diminuir os esforços dos outros.

Não se deve temer o invejoso. Nem sequer podemos dizer que ter ciúmes do sucesso alheio é algo atual, mas, sim, que foi potencializado pelo maior acesso à informação. Quanto mais conhecemos o mundo, mais inveja temos daquilo que não somos e não conseguiremos ter.

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No século IV a. C., viveu Paladas, um obscuro poeta nascido em Alexandria e que, no seu tempo de vida, almejou algum reconhecimento. Não sabemos quase nada da sua vida. Os detalhes sobre ele são tão poucos que quase poderíamos desconfiar da sua existência, se alguns poemas não tivessem chegado até nós na forma de restos e de fragmentos. Paladas de Alexandria era especializado em epigramas, forma literária em que pequenos poemas tentam alcançar o máximo de significado. Aproxima-se muito das máximas ou de propagandas, com a diferença de que são mais filosóficos e existenciais do que pretendem passar uma lição de moral ou vender algum produto.

Paladas tratou da vida e da morte, do declínio da civilização grega, das mulheres ciumentas, da velhice, mas também abordou a inveja, como no epigrama 90:

“Quão desmesurada é a maldade da inveja!

Odeia-se o afortunado a quem o deus ama.

De tal modo a inveja nos privou da razão

que nos fez prontamente escravos da loucura.

Nós, os gregos, homens reduzidos a cinzas,

só temos sepultas esperanças de mortos.

Todas as coisas estão hoje transtornadas.”

Se estavam transtornadas na época de Paladas de Alexandria, o que dizer dos tempos em que vivemos. Mas o poeta encontra uma forma de escapar da inveja que sentimos, e seria através da capacidade de rirmos de nossas próprias limitações e idiossincrasias, como demonstra o epigrama 87:

“Se não soubermos rir da vida que nos foge

e da Sorte, rameira que a corrente arrasta,

seremos a causa de nossa própria dor,

vendo os indignos mais ditosos do que nós.”

Outro efeito da inveja, detectado por Paladas de Alexandria mais de 2.300 anos atrás, é voltar as suas garras contra quem a fomenta. Quanto mais inveja sentimos, menor a nossa capacidade de vencermos um sentimento tão debilitante. Muitas pessoas afundam em sentimentos ruins, colocando-se em eterna comparação com os outros, ao invés de pensarem em maneiras de se engrandecerem. É fácil dizer que alguém conseguiu um emprego melhor, é mais bonito ou possui mais oportunidades que nós mesmos, o difícil é lutar para sermos cada vez melhores e lutar pelo nosso próprio lugar ao sol.

Pensando assim, Paladas de Alexandria resolve apelar para uma terapia de choque e mostrar que os planos de grandeza e as invejas que sentimos não são nada, pois não somos – para usar uma expressão popular – “a última bolacha do pacote”. Um pouco de perspectiva sobre a nossa realidade é sempre apreciável:

“Se lembrares, homem, como foste por teu pai gerado,

esquecerás as ideias de grandeza.

Platão, o sonhador, encheu tua cabeça de empáfia

ao te chamar de imortal, planta celeste.

De barro és feito; por que a presunção? Só fala assim

quem se compraz em fingimentos vistosos.

Mas se buscas a verdade, recorda que vieste de um

ato de luxúria e de uma gota suja.”

Se hoje escrevo sobre inveja, é sobre o presente que uma leitora enviou: um enorme olho contra mau olhado, “para colocar na parede de casa e afastar os invejosos”. Por mais agradecido que eu esteja, não darei tal destino ao presente, apesar de apreciar bastante a ideia de como o “olho de Hórus” surgiu no Egito antigo como símbolo de proteção. Não creio necessitar de um escudo contra a inveja. Afinal, se estou fazendo algo digno de ser invejado, quer dizer que estou no caminho certo. Assim, tudo o que posso desejar é uma longa vida aos eventuais invejosos, pois irão se dar mal à espera de um tropeço, e o meu desejo sincero de que tentem ir, por suas próprias forças e movido pela sua raiva, aos lugares que eu nunca chegarei.

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Arquivado em Adolfo Bioy Casares, Harold Bloom, Inveja, Julio Cortázar, Paladas de Alexandria, Salto, UY

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