Obras Inquietas – 14. “Mulher chorando” (1937), Pablo Picasso

Na minha coluna no “Obras Inquietas” da semana passada, falei de “Mulher chorando” (1937), quadro de Pablo Picasso que mostra a sua amante e musa Dora Maar. O pintor espanhol adorava ver a mulher chorando e, assim a provocava até que ela enfim cedia, ocasião em que ele a pintava. “Nunca consegui vê-la, nem sequer imaginá-la, a não ser chorando”, disse Picasso na sua biografia.

Um quadro feito de lágrimas e de angústia. Nada tão atípico: afinal, quem de nós nunca fez alguém chorar de propósito?

Boa leitura.

“Mulher chorando” (1937), Pablo Picasso

Weeping Woman 1937 Pablo Picasso 1881-1973 Accepted by HM Government in lieu of tax with additional payment (Grant-in-Aid) made with assistance from the National Heritage Memorial Fund, the Art Fund and the Friends of the Tate Gallery 1987 http://www.tate.org.uk/art/work/T05010

Quantas lágrimas são necessárias para que um lamento se transforme em uma enxurrada? Não existe medida correta para algo virar dor ou tornar-se desespero. A mulher se preparou para uma festa: colocou seu melhor casaco, ajeitou o chapéu vermelho sobre a cabeça, o laço azul destacando-se na moldura dos seus cabelos loiros. Está bonita, elegante, e anseia por risadas, despreocupação e – quem sabe – um pouco de amor, como todos nós. Não sabe ainda o seu destino aterrador de musa. Ela não existe como mulher, mas é um poço de angústia e, naquela noite, o pintor cobiça as suas lágrimas como se fossem os diamantes brotando de uma fonte inesgotável. Ele a provoca. Xinga. Bate. Ridiculariza. A noite, que se imaginava feliz, vira um arrastar de tristeza, uma pedra de Sísifo repleta de calosidades. Enfim, a mulher está no ponto desejado pelo artista, uma panela de pressão prestes a explodir, e as lágrimas azuladas rebentam do seu corpo – flores na primavera -, no início lentas, doloridas, escavando rios em meio à maquiagem outrora festiva, agora virada em um rasgo de dor, e, em seguida, abundantes, largas, infinitas. A mulher pega o lenço e, com o pano amarrotado, tenta conter o fluxo de medo, mas em vão. Na sua frente, o pintor exulta enquanto a esboça, cada vez mais rápido, na expectativa de não perder o capricho de cada gota impregnada de sal que adultera a juventude do outrora alegre rosto. Todas as pessoas que choram são iguais; somos irmãos nas lágrimas. O rosto da modelo se desfaz em um borrão indistinto no qual se mistura suor, lenço, maquiagem e lágrimas, e nós já vimos esse semblante: já fizemos alguém chorar muitas vezes, já olhamos nosso rosto em algum indecente espelho após a passagem da tristeza deixar suas marcas no nosso espírito. O pintor quer que as pessoas pensem nas ocasiões em que choraram e, para isso, usa a mulher sem piedade, para que a dor de um expresse o sentimento de todos, mesmo que ela o odeie, mesmo que ele a faça sofrer, mesmo que ela não queira tal encargo. Nós também somos o pintor – estamos sempre cobiçando que os outros chorem. Portanto, não perguntes por quem a mulher chora, pois ela chora por ti.

 

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2016/12/31/obras-inquietas-14-mulher-chorando-1937-pablo-picasso/

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1 comentário

Arquivado em Arte, Crônicas, Mulher chorando, Obras Inquietas, Pablo Picasso, Pintura, Produção Literária

Uma resposta para “Obras Inquietas – 14. “Mulher chorando” (1937), Pablo Picasso

  1. Sempre queremos esquecer das tão sanadoras lágrimas ..
    Provocadas com sarcasmo ,mas nobre a finalidade .
    Os fins nem sempre justificam os meios .

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