Crônicas de um ano inteiro: “Estamos perdendo o toque humano”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, eu falei sobre a progressiva perda do nosso toque humano, e de como estamos nos brutalizando cada vez mais para sobreviver, mesmo que à custa de nossa humanidade. Mas também falei de um conto de Émile Zola, dos estranhos eventos que se sucederam comigo durante uma caminhada matinal com a Alemoa e de uma música do REM.

Boa leitura.

Estamos perdendo o toque humano

* Foto de Edu Leporo

* Foto de Edu Leporo

Em algum momento da História humana, perdemos a capacidade de toque. Quando falo em “toque”, não quero dizer o sentido do tato, o de apalpar ou ao menos sentir a presença alheia através do nosso corpo, mas menciono “toque” como a capacidade de se conectar ao outro, seja por meio físico, verbal ou até mesmo intuitivo. Hoje, vivemos tão fechados nas nossas esferas que não permitimos a aproximação de estranhos. Pior ainda, consideramos as tentativas desajeitadas daqueles que chegam mais perto como intromissões indesejadas na nossa intimidade, como agressões ao nosso sagrado direito de ficarmos sozinhos ou, em última análise, como inaceitável violência ou comportamento agressivo.

Contudo, às vezes, quando uma pessoa chega perto de outra, ela somente pensa em estabelecer uma ponte. Não deseja dinheiro, sexo ou obter vantagem; só quer contato humano, algo que inclusive independe do toque físico, podendo acontecer através de uma troca de olhares, de uma palavra simpática, de entender um lamento inesperado que surge do âmago de alguém. O excesso de violência e a insegurança onipresente nos brutalizou de tal forma que consideramos qualquer pessoa como um inimigo em potencial, afastando até mesmo aqueles que podem nos ajudar ou mostrar outras facetas de compreensão do mundo.

Todos os dias, tenho por costume caminhar com a minha cachorra tão logo o sol se firma no céu. Sempre existem moradores de rua no nosso bairro e, com o passar do tempo, acabei me acostumando. Nós nos respeitamos e mantemos uma distância protocolar.

Entretanto, hoje aconteceu o inesperado. Enquanto estava com a cachorra na praça, o maior dos moradores de rua levantou-se do local onde dormia com outros e veio em nossa direção. Também sou grande, então não fiquei com medo, e preferi encará-lo. Vestido com farrapos, o homem se aproximou, devagar. Quando chegou perto, estendeu a mão e me disse “Feliz Ano Novo”. Não estava alcoolizado e nem drogado; parecia um desejo sincero. Por segundos, pensei se devia apertar a mão que me era oferecida, vendo que ela estava coberta por uma crosta de sujeira (sabe-se lá por onde ela passou e o que pode ter segurado). Ao mesmo tempo, a mente simulava dezenas de violências que poderiam ser feitas dentro de um gesto amistoso, desde um puxão até uma facada, pois oferecer a mão para um aperto também é abrir a guarda. Foram milionésimos de segundos, mas decidi: apertei a mão estendida e disse “Feliz Ano Novo” de forma segura e firme, o qual me soou cínico, ainda mais diante dos meus pensamentos e da situação vivenciada pelo homem como morador de rua.

Creio que nem ele esperava uma resposta, pois o aperto foi rápido. Logo em seguida, os três moradores de rua que estavam sentados com o primeiro se aproximaram e estenderam as suas mãos, também me desejando feliz Ano Novo. Apertei as mãos deles, retribuindo as palavras. Em seguida, com um aceno de cabeça, me despedi e continuei a caminhada com a cachorra, sem entender direito o que tinha acontecido e com a sensação de que passara por um sonho, tamanha a aura de irrealidade que cercou o momento. No entanto, meus dedos ainda recordavam da superfície áspera e brutal das mãos alheias, ou seja, aquilo realmente acontecera.

Após refletir sobre acontecimento tão estranho, percebi que os moradores de rua se aproximaram por que desejavam conversar com alguém que os via como obstáculos indesejados na sua caminhada com um cachorro. Queriam mostrar que estavam ali, e o “Feliz Ano Novo” tanto podia ser uma maneira de puxar conversa quanto uma ironia disfarçada. Porém, “Feliz Ano Novo” também pode significar aquilo que as palavras querem dizer. Nunca saberei o motivo exato; entrou na longa lista de eventos e fatos para os quais não tenho explicação.

Não faz muito tempo, li um conto de Émile Zola, “A morte de Olivier Bécaille”, em que o protagonista sofre uma espécie de catatonia paralisante. As pessoas pensam que ele está morto, e nenhuma se aproxima o suficiente para questionar tal fato. Passam a tratar Olivier como um cadáver, desconhecendo que ele escutava o que acontecia ao seu redor com riqueza de detalhes, incluindo a visita do agente funerário e do médico, a colocação de roupas para o funeral, o corpo depositado no caixão, o horror de saber que seria enterrado vivo. Tudo por que não se aproximaram o bastante de alguém que estava imóvel diante da plateia, e ansioso para que tal contato acontecesse.

Zola criticou algo que se faz presente até os dias atuais: somos incapazes de nos aproximar dos outros seres humanos, mantendo-nos fechados dentro dos nossos egoísmos. Agindo assim, podemos cometer injustiças e tratar pessoas decentes de forma errada. Os moradores de rua desejavam mostrar que não eram objetos abandonados em um parque, mas possuíam sentimentos, medos e vontade de falar. Quando apertei a mão deles, acabei lhes dando o mesmo status social que possuo: o de ser humano, possuindo voz e presença no mundo. Não eram mais uma estatística ou o vulto incômodo de algum medo projetado em qualquer estranho que interrompa meu percurso; eram somente pessoas conversando com outra, como deveria ser.

Às vezes, é bom dar o benefício da dúvida. Nem todos os que se aproximam querem nos matar. Na música “Man on the moon”, que a banda americana REM fez em homenagem a Andy Kaufman, um comediante que tentou desesperadamente se conectar às demais pessoas e acabou sofrendo escárnio e desprezo, um verso pergunta: “Are we loosing touch?” Sim, estamos, e a consequência está ao nosso redor: quanto mais tratamos os outros como objetos, mais eles se esforçam para nos lembrar que não são, e não existe melhor forma do que a agressão e a violência para dar materialidade a alguém invisível.

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Arquivado em Émile Zola, Crônicas, Morador de rua, Produção Literária, Toque humano

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