Crônicas de um ano inteiro: “A diversão e o Senhor da Dança”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, eu falei sobre a dificuldade de achar diversão genuína nos tempos atuais. Como uma das minhas maiores diversões é escrever, tracei um paralelo entre esse assunto e uma pergunta feita por Aldous Huxley, a história vivenciada por um amigo e “Hellblazer”, a revista em quadrinhos que trata das aventuras (melhor dizer desventuras) de John Constantine, o melhor personagem já criado. Se existisse um prêmio para equiparações absurdas, eu já tinha vencido.

Boa leitura!

A diversão e o Senhor da Dança

Joyful women having fun after hard work

No início, eu achava que acontecia somente comigo e, assim, não comentava em voz alta, imaginando que poderia sofrer deboches ou incompreensão. No entanto, outras pessoas que não se conheciam acabaram me comentando o mesmo assunto, todas de idades diferentes, e foi inevitável concluir que é algo que se espalha cada vez mais pela nossa sociedade: está difícil encontrar lugares para se divertir.

Um dos motivos de orgulho para a pós-modernidade é justamente dispor de lugares para todas as tribos e tendências. Nas grandes cidades, a multiplicidade de interesses faz com que os grupos se organizem em torno de pontos onde podem encontrar seus semelhantes e partilhar de diversões conjuntas. Ainda assim, mesmo no âmago desses lugares, cresce o desconforto. Eu posso ir a uma convenção de fãs de quadrinhos e, apesar de gostar do que vejo e escuto, não relaxar o suficiente para me divertir. Posso estar em uma festa de metaleiros em um bar, escutando música pesada, ou apreciando uma feira medieval em um parque da cidade e, ainda assim, não conseguirei chegar naquele estado de espírito de alguém que realmente se diverte em um local. Sim, eu soltarei muitas risadas e estarei integrado ao ambiente, mas, por dentro, a diversão buscada sempre parece insatisfatória.

Em um dos seus provocantes ensaios de “Música na noite”, Aldous Huxley coloca o dedo na ferida: quem de nós ainda se diverte hoje realmente em um lugar de diversão? Um leitor apressado responderia que sim, ele se diverte muito quando sai à noite. No entanto, aprofundando a questão, veríamos que, com exceção de alguns raros momentos da nossa vida, raramente nos divertimos de verdade, e ainda menos quando saímos à noite. Os locais de diversão atuais não são feitos para folguedos: eles servem para entorpecer com drogas lícitas ou ilícitas. Ao mesmo tempo em que anseiam pela nossa chegada, assim que estamos lá dentro, esforçam-nos para nos fazer consumir e sair o mais rápido possível para que outro corpo repleto de dinheiro novo venha ocupar o nosso lugar. Seus ambientes escuros impedem-nos de ver o que está acontecendo com clareza; a música em volume altíssimo não nos deixa conversar com as outras pessoas, e precisamos nos comunicar aos berros, o que deixa a garganta seca e necessitada de mais líquido, uma maneira nada sutil de nos fazer consumir mais e mais.

Muitos anos atrás, um amigo meu teve um surto em um bar noturno e precisou sair às pressas. Ele não tinha consumido álcool, não se drogara e é uma das mentes mais racionais que conheço, mas contou-nos que, quando estava no meio do lugar, no auge da festa, olhou ao redor e só viu gente morta. Quando rimos e comentamos que tinha sido algum truque de luz, ele enfatizou, com pavor genuíno, que as pessoas estavam vivas por fora, mas mortas por dentro. Desde essa narrativa, não tem ocasião que eu não saia à noite e, observando o mundo ao redor, não perceba que meu amigo tinha razão. Percebo uma infinitude de sorrisos falsos, gente bêbada até o ponto de esquecer o próprio nome, músicas suadas e trepidantes, pessoas bem vestidas escondendo angústias e medos, em especial o pior deles: não ser capaz de se divertir naquela noite. Gastar dinheiro e voltar fracassado para casa. E assim bebem, se drogam, pulam e esperam, achando que a diversão em breve chegará à festa e dará algum sentido para ela.

Em uma das melhores histórias de “Hellblazer”, John Constantine está em um bar na noite de Natal, deprimido, quando percebe a chegada de um homem sorridente e vestido com roupas antigas, além de ostentar uma anacrônica coroa de flores na cabeça. Os dois conversam, e Constantine descobre que aquele é o Senhor da Dança, uma divindade pagã que existe desde o início dos tempos, e teve o seu nome e existência “apagados” pelas religiões que lhe sucederam, mais preocupadas em retirar a diversão dos seres humanos e mergulhá-los em culpa do que em deixá-los gozar a alegria de estar vivo. Esse Deus antigo anda pelos bares do mundo, e basta ele estar no recinto para que as pessoas finalmente se divirtam de verdade, sem que tal diversão envolva maneiras de se agredir, se entorpecer e se machucar, seja com gestos ou com palavras.

Faz muita falta o Senhor da Dança nas festas atuais. A diversão tornou-se uma mercadoria e, como tal, possui um preço a ser pago, e não é barato. Não é à toa que os locais de diversão abrem e fecham com rapidez, pois, tão logo o verniz legal que lhe emprestaram torna-se batido, a sua natureza de depósito indiferente de corpos repletos de dinheiro a ser gasto torna-se evidente. Por isso, percebo um movimento contrário: as pessoas não saem mais para se divertir em locais específicos, mas criam a diversão nas suas próprias casas, onde conseguem modular a altura do som, escolhem a comida ideal para a ocasião e se divertem conversando e trocando ideias.

Ainda existem muitas pessoas que saem à noite, mas elas são cada vez mais novas e a diversão é cada vez mais difícil de achar. Chega um tempo em que menos é mais, e não saímos mais para ver e sermos vistos, mas preferimos ficar com quem nos conhece. As ocasiões em que mais me diverti nos últimos tempos teve conversa inteligente, comida apropriada, bebida bem escolhida e muita risada e espirituosidade, o que mostra outro pensamento de Huxley: a verdadeira diversão está dentro de nós e nas companhias que escolhemos. Quando enfim entendemos isso, sabemos que o Senhor da Dança não espera em algum local indefinido para nos divertir, mas sempre esteve dentro de nós, ansioso para conversar e abrir garrafas de champanhe enquanto a noite se arrasta entre as estrelas, lânguida.

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