Crônicas de um ano inteiro: “O desaparecimento do Natal”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, falei de uma teoria que desenvolvi recentemente e que coloca todos vocês dentro de um delírio meu, mas também falei dos Natais de outrora e quem são os responsáveis por deixar cada ano pior do que o anterior.

Boa leitura!

O desaparecimento do Natal

broken-christmas

Uma das teorias mais engraçadas que criei nos últimos tempos saiu de uma recente conversa de mesa de bar. Uma moça comentou que tinha saudade da época em que o final do ano sempre trazia consigo uma profecia de final de mundo, pois discutir teorias estapafúrdias era garantia de diversão. Eu argumentei que ela estava errada: nem toda profecia de fim de mundo é falsa, algumas podem ser verdadeiras. Prova maior disso é que o mundo acabou mesmo em 2012, no ano da profecia maia. Diante do silêncio geral, eu disse que, sim, o meteoro viera nos dizimar conforme o previsto, e estávamos vendo, na abóbada celeste, a sua aproximação repleta de ferocidade e destruição. A vida que eles achavam que ainda existia era, na verdade, um delírio meu no segundo exato que precedia a destruição do planeta. Nesse espaço diminuto de tempo, eu criei um mundo inteiro em que o meteoro não existia, e coloquei vocês dentro do meu delírio, mas não se preocupem: em breve, não mais existiremos. Afinal, se a fonte do delírio morrer, vocês também acabarão.

Não foram poucos os que me olharam com desconfiança, e alguns até mesmo contemplaram o céu. Estávamos sentados em uma mesa na rua, e o globo lunar distante podia revelar a sua verdadeira face de meteoro a qualquer instante. Segundos depois, todos riram, e a sensação incômoda se desfez. No entanto, ainda tenho dúvidas se estava brincando ou se não tinha visto a realidade de ser um sonhador em um mundo repleto de ilusões que caminham.

Comento isso hoje por que vejo muitas pessoas reclamando que 2016 foi o pior ano de todos os tempos. Como prova, argumentam as pessoas que faleceram em 2016 (David Bowie, Prince, Leonard Cohen, Harper Lee, Alan Rickman, Muhammad Ali, Fidel Castro), as tragédias (a queda do vôo da Chapecoense, os atentados terroristas na França, a delicada questão humanitária na Síria), as convulsões políticas (Dilma Rousseff sofreu impeachment no Brasil, as manifestações no país, a “PEC da Morte”, Trump venceu as eleições nos EUA)… tudo é justificativa para que muita gente esteja ansiosa pelo término de 2016.

As redes sociais possuem uma ferramenta que mostra o que estava acontecendo no mesmo dia em outros anos do passado. Para meu espanto, quando estávamos em 2015, dizíamos que aquele era o pior ano de todos. Em 2014, idêntica ladainha sobre ser o pior dos tempos. O mesmo em 2013. Parece evidente que, a cada fim de ano, temos a tendência de considerá-lo o pior de toda a História da Humanidade. Depois de passarmos incólumes por ele, cuspimos no mesmo prato que foi saboreado durante 365 dias, com a esperança de que o futuro vai nos trazer iguarias melhores.

Pergunto-me se são os anos que estão ficando piores à medida que passam ou nós que estamos nos tornando mais brutalizados, mais selvagens, e, nesse caso, nunca mais teremos ano bom. Estava lembrando como era o Natal em outros anos. Para começar, o mês inteiro de dezembro era um período repleto de alegrias; tínhamos genuíno prazer em arrumar nossas casas. Era sagrado que, na época natalina, minha família resolvesse repintar a casa inteira e ajeitar aquilo que estava estragado. Tínhamos menos dinheiro naquela época, mas não era obstáculo, sempre dávamos um jeito. Não contratávamos pintores ou marceneiros; fazíamos tudo com as nossas mãos de criança ou adolescente, e nunca existiu demérito nisso.

Também tínhamos o hábito de iluminar a casa com luzes de Natal. Colocávamos em todas as janelas uma série de luzinhas piscantes. Uma competição saudável se estabelecia entre vizinhos, todos em busca da iluminação mais espetacular para as janelas da sua casa. Não bastando, fazíamos pesquisa de mercado: andávamos pelas ruas da cidade procurando novas ideias de iluminação, caminhando entre casas e prédios que brilhavam como estrelas.

Nas televisões, a programação era destinada ao Natal e aos melhores filmes do ano (que passavam à noite). Todos os filmes clichês frequentavam as telas, e não perdíamos nenhum, para entrar no clima. Por todos os lados da cidade, abundavam músicas festivas. Sim, existiu um dia em que o CD natalino da Simone foi o ápice do ano. Hoje fazemos piadas e memes sobre tudo (acabo de ver um meme ridicularizando a morte do embaixador russo na Turquia), mas as risadas atuais são mais esgares de desespero do que um produto genuíno da alegria. Rimos dos outros para que eles não riam de nós.

Na noite de Natal, tínhamos até Papai Noel. Sinto falta do Papai Noel, ele era a nossa âncora de normalidade em um mundo estranho que o esperava um ano inteiro. O atestado maior de que eu me tornara um adulto foi quando encarnei o Papai Noel em uma das festas da família. Ganhávamos muito menos presentes e fazíamos amigos secretos divertidos, sem piadas grosseiras ou humilhantes. Não passávamos o tempo todo dizendo que o ano fora ruim, mas olhávamos para a frente com alegria: o próximo ano seria melhor. E estávamos passando por Plano Cruzado, por Guerra Fria, por racionamento de alimentos, por ditadura, por muitos problemas e medos.

A pós-modernidade chegou e desconstruiu tudo. O Papai Noel é uma criação capitalista. O amigo secreto é uma ostentação impregnada de injustiça. A troca de presentes é um gesto de discriminação, pois alguns ganharão presentes melhores do que os outros. As luzes chamam a atenção dos bandidos e são bregas. Arrumar a casa para um período do ano é ilusório, o melhor é estar sempre comprando coisas novas ao invés de consertar as existentes. As televisões passam besteiróis americanos repletos de escatologia e de piadas duvidosas. O próprio caráter religioso do Natal se perdeu, e não menciono o aspecto católico, mas a ideia de termos uma noite de paz universal, de sorrisos e de alívio. Uma noite inteira para fazer valer um ano de privações. Hoje, o Natal se transformou em um longo banquete, em que se come de tudo e se bebe qualquer líquido que possua álcool, enquanto xingamos o ano (ou a política ou o futebol ou a economia ou alguma celebridade) e nos entorpecemos lentamente.

Não sou uma pessoa nostálgica, muito menos acho que as pessoas deveriam retornar a esses valores do passado. Só sinto uma certa tristeza ao imaginar os Natais de outrora, repletos de risadas, de pessoas bem humoradas e de comidas simples, em comparação com os de hoje, em que um grupo de estranhos sentam ao redor de uma mesa com seus celulares e se dedicam a falar mal de algo. Não merecemos mais ter Natal; não nos comportamos direito no decorrer do ano, e sequer temos a humildade de reconhecer o quão errado agimos. Ao menos eu experimentei alguns Natais de verdade no decorrer da minha vida, e isso é um consolo.

A cada ano, pensamos que a vida se torna pior, mais bruta, mais violenta, mais selvagem. Contudo, não devemos culpar o ano; os culpados somos somente nós. Se pensamos que 2016 foi um péssimo ano, não é culpa do Tempo, essa variável que permeia o Universo, mas as nossas próprias condutas que estão transformando cada ano no pior de todos os tempos.

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Crônicas, Generalidades, Natal, Produção Literária

Uma resposta para “Crônicas de um ano inteiro: “O desaparecimento do Natal”

  1. Ana Cleides Maciel Macedo

    Texto fantástico!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s