Crônicas de um ano inteiro: “Por um pouco mais de empatia”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, eu falei sobre o discurso de ódio que está disseminado pela sociedade – e que nos faz criar afinidades por ódio, ao invés de estimular o diálogo e a estipulação de pontes em comum -, mas também falei da necessidade de sermos mais empáticos, entrar na visão do outro e tentar entendê-lo de dentro para fora.

Eu mencionei uma pesquisa realizada na Universidade de Michigan, EUA, sobre os países mais empáticos do mundo. A análise mais interessante que li encontra-se neste link: http://azmina.com.br/2016/12/por-que-os-brasileiros-nao-tem-empatia/  A autora quase foi esquartejada pelas redes sociais, mas a reflexão que ela fez tem muito valor: estamos nos dividindo tanto em grupos e subgrupos que não temos mais a capacidade de sermos empáticos com os problemas e aflições de outras pessoas. Os grupos criam mais barreiras do que a sensação de pertencimento e, assim, acabam nos deixando mais brutais em relação a quem não é igual a nós.

Boa leitura!

Por um pouco mais de empatia

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Ontem, uma operação policial mal explicada no Rio de Janeiro matou o filho da funkeira Tati Quebra Barraco. Ao ser alertada desse fato, ela se encontrava na metade de um show, mas retornou ao palco e terminou a sua apresentação. Em seguida, nas suas próprias palavras, “desmoronou como mãe”. Dizem que não existe dor e angústia maior para qualquer pessoa do que perder o próprio filho, ainda mais de forma violenta.

No entanto, logo após esse fato, as redes sociais se infestaram de comentários de ódio, preconceituosos e até mesmo com piadas de mau gosto sobre a morte do rapaz. Foi um tsunami raivoso, que se espalhou pelo país, gerando uma série de textos apoiando a liberdade de expressão alheia, além de alguns endossarem tais opiniões e outros atacarem de forma raivosa quem tinha proferido os outros comentários de ódio. Era raiva retroalimentando mais raiva, mais fúria. O país mergulhou em uma espiral de ódio, consumindo-se com virulência, à medida que as manifestações só cresciam. Enquanto isso, uma mãe chorava pelo seu filho, assim como tantas outras mães anônimas choravam ou choram as mortes de outros jovens.

Gostaria de dizer que é um fato isolado, mas não. Mascarada atrás de opiniões que se revestem de um espírito crítico, encontra-se disseminada uma forte cultura ao ódio. Ela não está sequer destinada a um objetivo comum. É, simplesmente, ódio ao que está aí. Seja ele o que for, seja ele do jeito que aparecer. Pelo ódio estar tão presente no nosso dia a dia, ficamos com a desagradável opção de odiar ou ser odiado e, assim, entregamo-nos a ele com fervor. Mal saímos do domingo e já detestamos a segunda feira, a ressaca, o trabalho, o ano que não chega ao fim, o time de futebol, os políticos, os juízes, o vizinho que escuta som alto, o cachorro que latiu no meio da madrugada… os ódios estão por todo os lugares.

Não comparamos mais opiniões, mas trocamos ódios mútuos e procuramos aqueles que repercutem nossas raivas. Não temos mais tolerância com a opinião alheia: preferimos odiá-la, e somos tão bons nisto que nem lembramos mais do que gostamos, somente do nosso desprezo por aquilo que o outro aprecia. Sequer somos capazes de discordar com veemência ou até mesmo desconsiderar o gosto alheio; precisamos odiar com intensidade, com volúpia, como se disto dependesse toda a nossa existência. Ao final do dia, quando pensamos no que fizemos, é possível que alguns lembrem das discussões em que entraram e da raiva que espalharam entre outras pessoas, e se sintam contentes por terem falado o que pensavam. Na realidade, somente acrescentaram mais ódio às engrenagens tortuosas do mundo.

O problema é que nos falta empatia, ou seja, a capacidade de entender o mundo pelos olhos do outro. Estamos tão fechados ao redor do egoísmo que somos incapazes de imaginar que, do outro lado da conversa, existe uma pessoa diferente, com outros tipos de vivências e de experiências, e que não tem a obrigação de ter o mesmo pensamento nosso. A empatia é o que nos conecta como seres humanos, mas, com o avançar das redes sociais, trocamos o contato fraterno e a troca saudável de opiniões pela indiferença virtual e a imposição agressiva de nossa visão de mundo.

Em um estudo recente feito pela Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, e publicado na revista Cross-Cultural Psychology, o Brasil ficou em 51º lugar na lista dos países mais empáticos do mundo. Considerando-se que 63 países foram avaliados, estamos próximos da zona de rebaixamento quando o critério se trata de medir a empatia. Até zonas de guerra são mais empáticas que o Brasil, como o caso do Iraque e do Egito.

Comentando esse estudo, os pesquisadores disseram-se surpresos com a posição do Brasil, tido por eles como um país amistoso que não se envolve em grandes conflitos geopolíticos. Para o estrangeiro, o Brasil pode parecer um país amigável e risonho, mas para nós, que moramos aqui, podemos considerá-lo assim? Parece mais um local onde somente os muito fortes sobrevivem: carros correm fora dos limites permitidos, o governo impõe uma aposentadoria que só acontecerá depois que morrermos, crianças e jovens morrem aos milhares, tratamos mal ou com desprezo quem realiza tarefas modestas, referimo-nos com epítetos grosseiros a quem não pensa como nós, brigamos por religião, por política, por futebol, para saber se cães ou gatos são melhores, por biscoito ou bolacha… definitivamente, o Brasil não é para amadores. É um eterno pátio de recreio de escola, repleto de garotos violentos praticando bullying com requintes de crueldade enquanto meninas bonitas desfilam suas roupas coloridas.

É muito cômodo odiar. Para tanto, basta fazer o contrário da outra pessoa e sempre ter um argumento para usar contra ela, até que os dois se assemelhem a lutadores cansados em um ringue, ambos machucados e nenhum querendo dar o braço a torcer. O difícil mesmo é compreender o outro, tentar entender a sua opinião e, então, ver o que ela é diferente da nossa para tentarmos chegar a um ponto em comum. Por maior que seja o nosso desejo de odiar como forma de marcar presença no mundo, o ideal é tratar a empatia como um exercício. Praticá-la às vezes, um pouco a cada dia, até que vejamos o outro não como um inimigo em potencial, mas como alguém que pode ser mais parecido conosco do que imaginamos.

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