Crônicas de um ano inteiro: “Pelo direito de ser infeliz”

No meu texto dessa semana para o “Crônicas de um ano inteiro”, escrevi sobre algo que me perturba: tenho a obrigação de ser feliz e buscar a felicidade em tudo o que faço? Não seria melhor aceitar a infelicidade e saber que existirão momentos fugazes de alegria em cada dia?

Boa leitura!

 

Pelo direito de ser infeliz

infeliz

 

A ditadura da felicidade está espalhada por todos os lugares. Basta observar as manchetes, filmes e livros que apregoam as benesses de ser feliz, estabelecendo isso como meta de vida a ser desesperadamente buscada em cada mínima atitude que tomamos. Assim, somos soterrados por propagandas que exigem que sejamos felizes, pois esse é o ponto máximo da vida de qualquer pessoa. Comprometemo-nos em relações fracassadas pelo dever de buscar a felicidade conjugal. Temos filhos por que nos disseram que ter filhos é uma garantia de felicidade. Formatamos a nossa vida buscando a felicidade e – ironia das ironias – nunca saberemos ao certo o momento em que a atingiremos, e nem se ele já passou.

É comum que me perguntem se sou feliz. Sem preparação alguma, sem nada relacionado com o assunto da conversa, uma pergunta rápida e seca, tentando me pegar desprevenido. Considero uma dúvida indiscreta: pode alguém de vida tão pacífica como eu, um homem branco, solteiro, heterossexual, na faixa dos 40 anos, com profissão garantida e um razoável nível de leitura, não ser feliz? Eu evito respostas diretas, não por ser infeliz – as pessoas são binárias, quem não é feliz, por consequência lógica, é infeliz –, mas por não acreditar na felicidade. Não conheço nenhuma pessoa sobre quem possa dizer “Lá vai alguém feliz!”.  Penso que podemos ter momentos de felicidade, mas eles passam tão rápido na nossa rotina quanto um sol brilhando entre nuvens tempestuosas.

Não faz muito tempo, li que a filosofia é uma tentativa de fazer os homens se tornarem felizes. É um assunto sobre o qual todo grande filósofo acabou se debruçando, e só conseguiram lançar luzes insuficientes sobre o tema. Nos dias atuais, existe todo um filão de pessoas sendo felizes vendendo livros de auto-ajuda que nos ensinariam a chegar até a plenitude mediante a adoção de formas pré-concebidas, mas esse é um percurso que só podemos fazer sozinhos, e não tem ninguém para nos segurar a mão no caminho. São livros enganosos, mas ter a ilusão de alcançar a felicidade é tão bom quanto possuí-la.

Eu não acredito que a felicidade seja representada por uma pessoa, seja ela uma esposa ou marido, ou até mesmo um filho; parece-me loucura deixar a chave da felicidade nas mãos de outrem, passar para alguém o peso de me deixar completo. Não acredito que esteja em acumular dinheiro; tenho um amigo cujo sonho era juntar um milhão de reais até os 40 anos para ter tranquilidade financeira, no que teve sucesso, mas estava com tantos problemas de saúde que gastou boa parte desse dinheiro com hospitais, médicos e remédios. Não acredito que a felicidade esteja na religião, no futebol ou na política; no máximo, ela terá alguns momentos de contentamento, não a sensação de alegria irrestrita a que chamam de felicidade. Não acredito que ela esteja no Nepal, no Hawai, em um prato de comida ou em uma estação do ano, pois a felicidade não pode ser condensada em algo, e sim precisamos ir ao seu encontro e construí-la um pouco a cada dia.

O que vale a pena pensar é se somos criaturas projetadas para a felicidade. Quanto mais ambicionamos possuí-la, mais infelizes nos tornamos. É possível que perseguir a felicidade seja uma ilusão tão grande quanto amarrar uma sombra, capturar a neblina. Talvez o nosso estado natural seja a infelicidade, e basta pensarmos que algumas das maiores descobertas da Humanidade – para não falarmos de obras de arte – saíram de pessoas infelizes ou inconformadas com a situação vigente. A infelicidade é a nossa verdadeira mola propulsora, é o ímpeto que nos força a ir adiante; quando somos infelizes, queremos produzir algo que acabe com essa sensação. Não fazemos nada buscando a felicidade, mas tentando deixar de ser infeliz, e isso muda todo o nosso mundo: saber que a infelicidade não é nossa inimiga, mas o que nos permite conviver com outros sete bilhões de pessoas incômodas.

Libertando-se dessa ideia que vem desde o início dos tempos, de que devemos almejar a felicidade, queremos ter o direito de sermos infelizes. Não mais buscar dietas restritivas, padrões de beleza irreais ou diplomas com trabalhos pomposos que ninguém nunca lerá, e simplesmente abraçarmos a nossa falibilidade. Deixarmos de lado relações abusivas, sairmos de empregos que não gostamos, não ter mais uma vida de capa de revista, mas viver sabendo que a infelicidade é uma constante e nunca algo passageiro. Assim, naqueles momentos em que o beijo inesperado tocar nossos lábios, ou quando bebermos uma bebida refrescante em um dia quente, sentiremos uma onda tépida percorrer o nosso corpo e então saberemos que, ali, no curto espaço de um instante e de forma inesperada, atingimos o píncaro da felicidade. Em breve, voltaremos à angústia de viver sem saber se estamos agindo certo ou errado. Mas ali, em um átimo de segundo, fomos inundados pela felicidade repentina, e que ela pode surgir de novo a qualquer momento se não estivermos a procurando com o desespero que nos ensinaram.

É possível que essa seja a única receita válida para ser feliz: saber que nunca chegaremos na felicidade absoluta, mas teremos várias pequenas felicidades no decorrer da vida se permitirmos um abraço, se nos abandonarmos a um beijo, se sorrirmos mais e estarmos abertos para o inesperado. A verdadeira felicidade não mora na noção de que devemos persegui-la em todos os segundos da nossa vida, mas que precisamos ter a coragem de desistir dela para, então, encontrá-la escondida nos desvãos do cotidiano.

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Arquivado em Crônicas, Generalidades, Infelicidade, Produção Literária

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