Obras Inquietas – 09: “Susana e os anciões” (1610), Artemísia Gentileschi

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, eu abordo um quadro que me deixa extremamente perturbado, ainda que o assunto não seja fácil e possa facilmente descambar para o contrário da sua ideia. No entanto, a literatura é feita para isso, e eu não escreveria se não tivesse tal ímpeto: enfiar o dedo onde machuca e escarafunchar.

Em “Susana e os anciões” (1610), de Artemísia Gentileschi, o que mais me chama atenção é que a pintora conseguiu mostrar o exato momento em que Susana foi assediada pelos dois velhos lascivos, o instante em que ela não tinha escapatória. Os demais quadros feitos por outros artistas talentosos não possuem tal sutileza; em geral eles estão um segundo antes (quando começa o assédio) ou um segundo depois (quando Susana recusa a abordagem), não o instante precário em que Susana soube que estava em uma situação desesperadora – e indecisa sobre qual atitude tomar.

Boa leitura!

“Susana e os anciões” (1610), Artemísia Gentileschi

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Cale a boca. Eu sei que você quer. Se não quisesse, não estaria aí, desnuda, com esses seios brancos, duros, ansiosos pelas nossas mãos. Vem cá. Dê-me a tua boca: quero saber o gosto da fruta que mora no seu interior. Não chore; não implore por piedade, pois você nasceu para nos satisfazer. Se não fizer o que queremos, vamos acabar com a sua honra. Diremos para todos a puta que você é. Todos irão acreditar, quem pode desconfiar de nós, dois respeitáveis anciões? Nenhum homem mais irá lhe olhar. E o mesmo vale para a sua criadora, a pintora: mulheres não servem para pintar. Você não tem talento, não é nada. Devia estar limpando as nossas casas, sua vadia. As risadas debochadas saem do quadro, se espalham no atelier. Pare de chorar, mulher, tire logo a roupa. Satisfaça nós, os seus senhores, senão iremos dizer que vimos você com outro homem aqui, e todos terão nojo de tocar na sua pele suja. E você, pintora, desista de ser aquilo que a sua natureza proíbe. Mulheres nasceram para obedecer, não para criar obras. Vocês são o lixo que gruda nas nossas sandálias. Vocês e esses corpos lisos, ansiosos para serem violados, corpos que se oferecem ao sol, às águas e aos nossos olhos e mãos. Venha cá, mulher, nós estamos mandando. Obedeça. Pare de fugir. Você não tem para onde ir. Ninguém irá lhe salvar. Hoje você irá servir de pasto para a nossa fome; queremos encher seu corpo com nossas marcas de macho, desenhar linhas de sangue e roxos na sua pele perfeita. E você, pintora, olhe tudo acontecer e saiba que, se não fosse ela, faríamos com você. Faríamos com qualquer mulher, pois vocês são menos do que gente para nós. Recolha as suas lágrimas e preste atenção nos detalhes, pintora, enquanto você, Susana, cala logo essa boca, para de chorar e abra logo as pernas. Ninguém vai acreditar em você; ninguém vai lhe salvar. Hoje é o dia em que você perderá a sua inocência.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2016/11/25/obras-inquietas-09-susana-e-os-ancioes-1610-artemisia-gentileschi/

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Arquivado em Crônicas, Impressões, Obras Inquietas, Pintura, Produção Literária, Susana e os anciões

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