Crônicas de um ano inteiro: “Qual o preço de um amigo?”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro” (publiquei na segunda, mas estou um pouco atrasado na atualização do blog), contei algo que até hoje me deixa consternado ao lembrar.

Boa leitura!

Qual o preço de um amigo?

cachorro-sozinho

 

Das muitas histórias que me assombram, existe uma que continuamente relembro. Aconteceu seis meses atrás. Era um belo dia de sol, e o parque estava lotado da sua costumeira fauna: ciclistas, crianças gritando nos brinquedos, casais caminhando com casquinhas de sorvete. Na beira do lago, um pouco distante do local onde transitava a maioria das pessoas, estava um homem sentado com uma cachorra maior e três filhotes. Não sei o que me chamou atenção nele, mas é provável que tenha sido a placa oferecendo os cachorros para doação. Os filhotes se enovelavam, brincando, enquanto a cachorra acompanhava tudo com olhos pachorrentos, dormitando ao sol.

Era um péssimo lugar para oferecer cachorros: escuro, mal sinalizado, úmido, fora da rota da maioria das pessoas. O homem estava condenado ao fracasso. Na placa, em letras menores, ele informava que, ao contrário dos filhotes, a cachorra não seria doada, mas vendida por 15 reais. Percebendo a minha presença, o desconhecido começou uma conversa, e queria não ter escutado o que ele me narrou.

A cachorra acompanhava o homem há mais de sete anos. Ela se chamava Sonja, e era a sua melhor amiga e companheira, o motivo pelo qual ele voltava correndo para casa. Por uma contingência da vida, a empresa onde ele trabalhava pedira concordata e o homem acabara sendo demitido. Era administrador de empresas. Não estava fácil conseguir emprego, ele só fazia bicos. Foi vendendo e descartando tudo o que possuía, até que nada mais de valor restou. O homem agora morava em uma pensão vagabunda do centro da cidade, e não tinha mais espaço para a Sonja e seus recém-nascidos filhotes. Nas últimas noites, ele comprara um pãozinho e dividira com a cachorra, mas sentia que a insegurança financeira estava fazendo mal para a sua amiga. Por esse motivo, decidira doar os filhotinhos e vender a cachorra, para que a Sonja tivesse algum dono capaz de lhe alimentar.

O homem estava arrasado, olhando para os próprios pés, os gestos plenos de vergonha. Era visível que ele não queria se descartar de Sonja – que continuava dormindo placidamente -, tanto que escolhera um local em que só por um milagre apareceria algum interessado em adotar os filhotes ou comprar a cachorra. Ele olhava para todos os lados, acuado, desejando que alguém se aproximasse e, ao mesmo tempo, rezando para que a pessoa seguisse adiante. Estava esperando um Deus ex-machina, alguma entidade trazendo a resposta para os seus problemas. Contudo, na vida real, isso jamais acontece.

Se essa história me causa tanto desconforto é por que pode acontecer com qualquer um. Ser derrotado. Perder todas as esperanças. Não ter para onde ir ou quem possa socorrê-lo. Precisar se desfazer de todos os bens e vínculos afetivos para sobreviver. A derrota final está ao alcance de todos nós, e é muito fácil chegar ao inverno da nossa desesperança.

Mas, mesmo assim, nunca entregamos os pontos. Vamos nos desfazendo de tudo que nos caracteriza até não restar mais nada: primeiro, os bens de maior valor; a seguir, os secundários, a vaidade representada pelas roupas, os pequenos objetos que nos fazem recordar momentos especiais e vão sumindo paulatinamente, enquanto juramos que não iremos nos desfazer de mais nada; por último, a dignidade, o amor próprio, a autoestima.

Descartamos tudo o que temos e somos em benefício da sobrevivência, esperando que a guinada aconteça. Mas ela já pode ter passado, e não notamos. Em uma das obras mais inquietantes já escritas, “A fera na selva”, de Henry James, o protagonista passa o livro inteiro esperando o momento decisivo, a hora da virada, o instante em que a sua vida inteira iria se definir e, enquanto espera, não nota a mulher apaixonada que caminhava em silêncio ao lado, acompanhando a sua jornada, sabendo que ela era a felicidade tão ansiada e não vista pelo homem. Estamos sempre aguardando dias melhores, mas eles podem estar passando neste exato momento e não conseguimos ver. Talvez estejamos vivendo no melhor dos tempos, mas o pessimismo nos impede de ver a realidade.

O homem no parque perdeu tudo, menos a esperança. Por algum tempo, lembrando da cena, perguntei-me sobre o motivo dele estar doando os filhotes, mas vendendo a cachorrinha. Irritava-me a ideia de alguém descartar o seu único amigo fiel depois de tantos anos de infortúnio: é possível colocar um preço em um amigo? Mas logo entendi que o maior ato de amor que um ser pode ter por outro é desejar o seu bem estar mesmo que distante. Ter a humildade necessária para reconhecer que o outro pode ser feliz, desde que não esteja ao seu lado. Descartar o próprio sentimento para que o outro alcance a felicidade em algum caminho diferente. Quinze reais não era o preço do cachorro, era uma desculpa que o homem deu para não deixar o seu último amigo ir embora em vão.

Ou talvez os quinze reais cobrados pelo cachorro fosse o momento da virada tão arduamente esperado, o segundo em que o desespero viraria o início de uma nova vida. Na dúvida, não comprei o animal, mas lhe alcancei os quinze reais. Quando saí de lá, Sonja continuava dormindo com inocência, mas o seu dono sorria. Ganhara mais um dia com a sua amiga, e é assim que os sentimentos se constroem: um dia de cada vez.

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Arquivado em Cachorro, Crônicas, Generalidades, Produção Literária

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