Obras Inquietas – 08: “Agnus Dei” (1635-1640), de Francisco de Zurbarán

Na minha coluna “Obras Inquietas” dessa semana, um quadro de Francisco de Zurbarán com a pergunta que não quer calar: de quem somos o cordeiro hoje?

É uma obra interessante sob outros aspectos. Ela possui todos os requisitos para ser um “still life”, ou “natureza morta” como chamamos no Brasil. A riqueza de detalhes, a imobilidade do cordeiro, a vida representando a morte. O problema é que o cordeiro está vivo´, ou seja, é uma natureza morta com um ser ainda vivo, mas que sabe a iminência da morte próxima e do sacrifício. Eis a imanência da arte, tanto da pintura quanto da literatura: fazer a representação de um cordeiro se manifestar sobre a injustiça e sobre a vacuidade da vida.

Boa leitura!

 

“Agnus Dei” (1635-1640), Francisco de Zurbarán

 

agnus-dei-francisco-de-zurbaran

 

Eu sou aquele que vai morrer por causa dos seus pecados. Não fiz nada, mas, apesar disso, virei a materialização ainda pulsante e quente dos seus erros. É bom ter alguém a quem culpar, não? Cometer crimes, proferir blasfêmias, realizar atrocidades e, em seguida, limpar a consciência besuntando-se no sangue de um inocente. Não acredito que o seu Deus exige a minha morte para lhe salvar: ele também não é o meu Criador? Por que o meu criador irá destruir a vida de quem nunca errou, em troca de você e seus erros mesquinhos e crimes vergonhosos? Para você, matar-me irá eximi-lo das suas culpas, mas, para aquele que jamais cometeu nada errado contra o Senhor seu Deus, você é o assassino cruel que acordou hoje, imerso no suor da vergonha, e escolheu uma vítima incauta que teve o azar de estar passando por perto. Tive uma existência curta e sem sentido – nasci, conheci brevemente minha mãe, andei por campos, dormi sob estrelas -, mas eu gosto de viver. Não posso ter nascido só para ser assassinado por causa das fraquezas de outro. Não atrapalho ninguém, e até meus balidos são baixos para não chamar atenção. Tudo inútil, pois fui o escolhido. Não há justiça; no final do dia, os inocentes sempre morrem por causa dos culpados. Observe meu pelo sedoso, os chifres que tantas vezes raspei nas pedras, os cascos ainda jovens; em breve, eles estarão sem vida e meu sangue escorrerá em sacrifício para o chão, ainda trêmulo na lâmina faiscante usada para cortar minha garganta. Você será rápido, os dedos escondendo o nojo, ou lento, deixando cada centímetro da faca afundar-se na minha pele e sufocar o gemido estrangulado que sairá da minha garganta, enquanto morro sem saber o que fiz de errado? Senhor, tende piedade de mim, pois não sei o que fiz de errado para morrer hoje.

 

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2016/11/18/08-agnus-dei-1635-1640-francisco-de-zurbaran/

Deixe um comentário

Arquivado em Agnus Dei, Arte, Crônicas, Francisco de Zurbarán, Obras Inquietas, Produção Literária, Uncategorized

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s