Crônicas de um ano inteiro: “Uma vida cultural na esquina da sua casa”

Na minha crônica dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, escrevi sobre as pessoas que reclamam não existir nada para fazer nas suas cidades, mas ignoram que a vida cultural somos nós que fazemos e pode estar inclusive na esquina da sua própria casa, escondida dos olhos pelo peso da nossa rotina diária.

E também falo da bela cachorrinha que adotei, a Alemoa, que tem me levado para passear e descobrir o que existe no bairro. Suspeito que ela voltará a aparecer mais vezes nos meus escritos.

Boa leitura!

 

Uma vida cultural na esquina da sua casa

na-esquina

 

O fato de ter adotado uma cachorrinha de rua há pouco tempo forçou-me a redesenhar e modificar boa parte da minha rotina. Entre alguns hábitos que estou instituindo (ou modificando), encontra-se a realização de longas caminhadas. Nunca caminhei tanto como nos últimos dois dias. A cachorrinha só faz as suas necessidades na rua, o que me força a esperá-la e a respeitar o seu tempo. Em breve, iremos nos entender automaticamente, mas, por enquanto, ainda estamos nos adaptando.

Enquanto aguardo ao chamado da natureza, deixo a curiosidade da cachorrinha definir o meu trajeto e foi assim que descobri, com grande surpresa, uma confeitaria a menos de 200 metros da minha casa. Ela se chama Buenos Aires, pertence a um argentino e é especializada em pães portenhos. Em um ano e três meses morando naquele prédio, eu nunca tinha visto a confeitaria que estava diante dos meus olhos e, se não fosse a cachorrinha a me impelir para lugares incomuns e a me fazer observar o mundo próximo, jamais a teria encontrado. E isso aconteceu no espaço de somente dois dias de passeio: o que mais poderá aparecer no meu caminho nos próximos tempos?

A sensação que tive foi que a confeitaria Buenos Aires surgiu no dia anterior da sua descoberta, instituindo-se em um passe de mágica, mas a verdade é que sempre esteve ali, eu que jamais prestei atenção. Tal situação me deixou com uma dúvida incômoda: quantos outros lugares incríveis deixei de ver no meu dia a dia? Ampliando a ideia, quantas pessoas legais deixei de conhecer ou quantas situações maravilhosas não vivi, tudo por causa da cegueira seletiva imposta pelo cotidiano?

Uma das frases que mais escuto é “não existe nada para fazer na cidade”. Não só em Porto Alegre, mas em quase toda a cidade em que já estive, desde o interior do Estado até grandes centros (com a exceção honrosa de São Paulo e Rio de Janeiro, que sempre possuem vastas programações). As pessoas reclamam que a cidade é parada, que não existe vida cultural, que é só ir para o trabalho e voltar para casa. Também pensava assim, mas, no momento em que comecei a aceitar convites para eventos e a prestar mais atenção na programação cultural, percebi que, ao contrário do imaginado, não faltam atividades, estamos vivendo em meio ao excesso. Não consigo estar em todos os compromissos que gostaria de prestigiar. Às vezes, são três ou quatro programações interessantes acontecendo no mesmo intervalo de tempo, e tenho que fazer escolhas cruéis. São filmes para assistir, peças de teatro para comentar, bate papos e palestras sobre assuntos relevantes, espetáculos de música, feiras públicas, eventos na rua… isso sem contar os encontros privados com amigos e amigas inteligentes, que marcam jantares, cafés e encontros para falarmos de livros e trocarmos histórias.

Mesmo em cidades distantes dos centros culturais, a vida é intensa para quem procura novidades. Na época em que morei no interior do Estado, não conseguia ficar em casa para descansar, tão grande o caleidoscópio de eventos que insistia em me envolver. As cidades menores talvez não tenham a mesma diversidade de outros lugares, mas existem saídas diurnas e noturnas, conversas na beira da calçada, parques para sentar e conhecer pessoas, e até mesmo uma roda de chimarrão ou de cerveja é pretexto para uma programação cultural. Recordo uma noite no campo eterno de Encruzilhada do Sul que consumimos contando histórias de terror. Para a pessoa que está aberta a novas experiências, e para quem possui bom humor, qualquer lugar é cheio de aventuras excitantes. Já comi mariscos semi-vivos em Florianópolis; já participei do primeiro dia da vindima em Faria Lemos; já caminhei no cemitério de Quaraí às dez horas da noite, buscando um túmulo inexistente; já me perdi em Montevidéu. São aventuras que só vivi por que tive a coragem de dizer não e lutar contra o vício insidioso da preguiça que se espalhava pelos meus músculos com promessas de conforto.

Boa parte do consenso geral dos que afirmam “não tem nada para fazer na cidade” parte do conformismo. Se ficarmos dentro de casa, sim, a cidade não tem nada para nos oferecer de atrações. Somos cheios de desculpas para justificar a falta de criatividade. Para aqueles que consideram a cidade insegura à noite, existe a opção de fazer uma atividade cultural dentro de casa mesmo: chamar os amigos, arrumar um jantar, assistir a um filme, conversar sobre um livro. Para aqueles que dizem estar sem dinheiro, grande parte das atrações são gratuitas, e as pagas possuem valores módicos que não representam a ruína financeira de ninguém. Para aqueles que acham desinteressantes as atividades culturais apresentadas, é possível criar a sua própria atividade e, assim, suprir a deficiência constatada. Parcela significativa das pessoas que reclamam da falta de atrações na cidade ficam em casa assistindo a jogos de futebol e a programas na televisão. Se preferem ficar em casa nessas atividades, é um direito seu, mas não é justo culpar a cidade pela sua própria preguiça. Qualquer local possui atrações, tudo é uma questão de desejar encontrá-las – ou, então, criá-las.

Em “Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”, de Ariano Suassuna, em determinado momento o personagem Quaderna comenta sobre a Vila de Taperoá, do alto da sabedoria dos seus 10 anos de idade: “Naquela minha primeira manhã na Vila eu já tinha entrado em contato com a rua do sexo, da embriaguez, do jogo e dos desmandos do pecado; com o teatro; com a miséria degradante do Alto; com o esgoto do crime, na Cadeia; e com o anúncio de uma guerra iminente a se travar entre as forças do meu Padrinho e as de Antonio Moraes – e Samuel ainda achava que ali na Vila não acontecia nada!”. As cidades possuem os seus encantos, mistérios e atrações para quem consegue abandonar o caminho do conformismo. Em “As aventuras de Huckleberry Finn”, de Mark Twain, dois garotos saem de balsa e buscam aventuras no meio do cotidiano, fazendo com que elas acabem surgindo aos borbotões. É sempre assim: para quem está disposto a correr riscos e a descobrir a efervescência cultural das cidades, basta abandonar-se à aventura e deixar o imponderável reger os seus passos. Ou adotar uma cachorrinha curiosa, capaz de levá-lo a lugares que nunca esteve antes, como a esquina da sua própria casa.

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Arquivado em Crônicas, Produção Literária, Vida cultural

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