Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, eu falo de “Casal” (1986), uma pintura de Montserrat Gudiol, pintora catalã especializada em fazer imagens brotarem de dentro das cores.

No quadro, a angústia do silêncio. Um abraço sem sentido. A mão guardando o resquício de um gesto interrompido. O rochedo de aparência tranquilizadora que, na verdade, é o mar tempestuoso. O peso de uma relação morta. Os segundos que se arrastam, infinitos, como se o próprio infinito só existisse para morar dentro de um segundo.

 

“Casal” (1986) – Montserrat Gudiol

 

"Casal" (1986), Montserrat Gudiol
“Casal” (1986), Montserrat Gudiol

 

Todos nós já estivemos nessa situação, mas preferimos esquecer: em meio ao mais absoluto desespero. Tão atordoados que sequer conseguimos esboçar palavras; tão atônitos que não conseguimos nos mexer, cada músculo do corpo imerso no visco da areia movediça. Rezando para que o tempo passe logo e, mesmo assim, os segundos se arrastam, infinitos como se o próprio infinito só existisse para morar dentro de um segundo, enquanto chafurdamos no poço fundo onde dormitam os medos. A angústia é silenciosa, um verme paciente que rói o pensamento, faca cravada nas entranhas a se retorcer em movimento eterno, agonizante. A mulher não está ali; os olhos arremessam seus desesperos silenciosos para um local indefinido. A boca é um risco de dor a vincar o rosto com a raiva de palavras não ditas que, como serpentes, deslizam umas sobre as outras, ansiosas por liberdade, impregnadas de veneno. Cabeça pousada sobre o ombro da mulher, o homem se acalma, imaginando-se protegido dos horrores do mundo, mas ele ignora que não abraça um rochedo de segurança, mas o próprio mar tempestuoso. Uma criatura feita de fúria vermelha, que sai do sangue quente do seu corpo e espalha pavor pelo mundo todo, em ondas concêntricas de raiva e sentimentos desfeitos. O casal continua existindo de um lado, que abraça sem ser abraçado, mas, do outro, os sentimentos se desfizeram como a estátua de sal da mulher de Lot, aquela que sequer tem um nome. Aqui ela também não tem identidade, mas o seu drama é o de todos nós, estagnados em uma situação indesejada, querendo se libertar, mas sem saber como. A mulher ocupa o centro do universo. Dentro dos olhos vazios, o medo do futuro estraçalha a felicidade que deveria existir dentro de um abraço apaixonado. A mão – tão branca, tão fantasmagórica – estava a meio caminho da carícia no rosto masculino, mas desistiu quando percebeu a sua falsidade, a vontade de ceder ao comodismo de uma relação que já morreu e só esqueceram de sepultar. A mulher carrega todo o sofrimento da relação sobre os seus ombros, e ela nunca se sentiu tão sozinha.

 

Texto original no link https://artrianon.com/2016/11/11/obras-inquietas-07-casal-1986-de-montserrat-gudiol/

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