Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (11/11/2016): “Lições de vida com Conan, o Bárbaro, ou a importância de não ser prudente”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu falo de como manter o bom humor no meio de um mundo insano. Mas, após uma abertura em homenagem à Jane Austen, aproveito para falar de algumas coisas divertidas, como o livro que Michel Houellebecq escreveu sobre H. P. Lovecraft, no qual o francês chegou a conclusões tão deprimentes sobre a raça humana que parecia Marvin, o Androide Paranoide, de “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, do Douglas Adams; falo brevemente de “Sparkenbrook”, de Charles Langbridge Morgan, e de como a mesma história vivida agora pode se transformar em um romance ou em uma sátira no futuro; conto a vida de Charles Fort, o mais genial homem que já pisou na Terra, um cara que passou toda a vida buscando provas de que a nossa realidade estava errada, o que resultou em “O Livro dos Danados”, uma obra seminal; revelo para o mundo todo que sou integrante orgulhoso da Sociedade Forteana (ora, bolas, tenho até carteirinha, isso não é segredo para ninguém); ao final do texto, conto a história de um homem que foi vários homens, Widsith, o Grande Navegador, que viveu mais de 400 anos, e era o menestrel oficial dos governantes, imperadores, generais, déspotas, sátrapas e faraós de todos os reinos que se prezassem no Oriente Médio e na Europa, tudo para encerrar com uma brilhante lição de Conan, o Bárbaro, sobre o verdadeiro sentido da vida.

Há boatos (não-confirmados até o momento) de que eu só tenha escrito este texto como um longo pretexto para citar Conan, o Bárbaro de forma pretensamente sábia. Negarei até a morte.

Boa leitura!

 

Lições de vida com Conan, o Bárbaro, ou a importância de não ser prudente

 

É uma verdade universalmente aceita que uma pessoa solteira e de fortuna mediana (para não dizer leve) esteja procurando alguma diversão na vida, em especial na véspera – literalmente – dos seus quarenta anos de idade. Efemérides sempre assustam com a ideia de que outro período de tempo se fechou de forma inapelável, e o fato de eu estar parafraseando Jane Austen dá a medida exata para a ironia com que enxergo o mundo atual, repleto de disputas por frases de efeito nas redes sociais enquanto a realidade insiste em nos espancar com fatos, inapeláveis e cruéis.

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Não faz muito tempo, tive que responder para um leitor o que valia a pena na vida e, como não podia citar Conan, o Bárbaro, e a sua clássica solução para o mesmo dilema (“matar os inimigos, esmagar os seus crânios e ouvir o choro das suas viúvas”), restou-me responder que era o bom humor. O que não deixa de ser uma pena, contudo, é que o bom humor seja uma mercadoria em falta no mundo atual. Em geral, ele é associado à parvoíce, à insensibilidade e à omissão, como se precisássemos estar sempre falando sério para sermos entendidos, como se não existissem modalidades de humor muito mais perspicazes do que textos de um especialista. É necessária muita inteligência para manter o bom humor no meio desse mundo estranhamente irreal em que vivemos, um local em que oscilamos entre frases com trocadilhos pseudo-publicitários-inspirados-para-caber-em-um-meme ou textos repletos de palavras, números, dados, opiniões, som e fúria inócua.

Não é tão difícil ser bem humorado, só é necessário se afastar das pessoas que pregam o mau humor como solução para as vicissitudes mundiais. Nos últimos dias, por exemplo, estou me divertindo horrores com um livro escrito por Michel Houellebecq em 1991, chamado “H. P. Lovecraft: against the world, against life” (“H. P. Lovecraft: contra o mundo, contra a vida”, em tradução livre), um estudo de crítica literária relativamente longo que o escritor francês fez sobre o seu colega norte-americano, criador dos Mythos e das divindades sombrias chamadas de Old Ones.

Diga-me o que lês e te direi como isso entra na tua obra, e esse é um caso exemplar. É possível ver muito de Lovecraft dentro dos livros de Houellebecq, em especial a desesperança com o gênero humano. Algumas frases são tão magnificamente depressivas que é impossível não rir sozinho (todas traduções minhas): “entre o homem e um Old One, o Old One ao menos possui sentido”; “a vida é dolorosa e desapontadora. É inútil, inclusive, escrever novos romances realistas. Nós geralmente sabemos como nos posicionamos em relação à realidade, e não damos mais atenção para isto”; “o universo não passa de uma furtiva combinação de partículas elementares. Uma figura de transição no meio do mais absoluto caos. Isto é o que vai, enfim, prevalecer. A raça humana vai desaparecer. Outras raças surgirão a seguir, e também irão desaparecer. Os céus vão ficar glaciais e vazios, trespassados por uma tíbia luz de estrelas meio-mortas. Elas também vão desaparecer. Tudo vai desaparecer. Tudo.”. Quando leio essas frases, não consigo conter as gargalhadas, pois Houellebecq soa muito como Marvin, o Androide Paranoide, personagem de “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, de Douglas Adams, um robô de Q.I. tão elevado que só se manifesta com frases do mais absoluto pessimismo e desprezo em relação à vida. Chego a imaginar as frases do autor francês ditas no mesmo tom de desespero controlado do robô.

É saborosa a simples ideia de que Houellebecq seja leitor e admirador confesso de Lovecraft, e é engraçado constatar tal junção improvável de interesses. Ou talvez eu tenha mesmo um senso de humor “duvidoso”, conforme já me disseram, algo que continuo sem descobrir se é bom ou ruim. Também já me disseram que não levo os assuntos com seriedade, mas é possível que a pessoa rindo seja justamente aquela que possui a reflexão mais profunda, capaz de perceber, por trás dos textos insossos chamados “de opinião” (existem textos sem opinião?), a vacuidade quase constrangedora dos pensamentos alheios repetindo fórmulas gastas como se fossem grandes novidades. O mundo é uma grande farsa, interpretada por péssimos atores que esqueceram as falas e ficam repetindo os mesmos clichês “ad infinitum”. Em “Sparkenbrooke”, de Charles Langbridge Morgan, o personagem principal, Piers Tenniel, afirma para Mary: “se ficarmos velhos, e ainda nos conhecermos na velhice, havemos de nos lembrar então desta noite; mas tu farás disto um romance e eu uma sátira, e tanto aquele como esta serão falsos.” Se ficarmos velhos, olharemos o dia de hoje como um romance ou como uma sátira, e o fato de não existir diferenças muito grandes entre ambos diz muito a respeito do nosso mundo. Levar algo a sério não é garantia de reflexão bem realizada.

É possível que a pessoa mais séria do mundo tenha sido também a mais engraçada, em especial por sempre ter falado a verdade. Em 1874, nos Estados Unidos, nasceu Charles Fort. É uma grande demonstração de ignorância mundial o fato de que poucos conheçam os trabalhos e as pesquisas de Charles Fort. Na minha opinião, ele foi o único homem sério que já pisou na Terra, e isso por que reconheceu que vivemos em uma realidade irreal. Fort abraçou a ideia de que as estranhezas fazem parte indissolúvel do nosso cotidiano; só não vemos por que nossos olhos foram acostumados a desacreditar no maravilhoso.

Para abrir nossos olhos, Charles Fort entregou a sua existência ao objetivo de mostrar-nos os grilhões que nos prendem. Fort passou toda a vida colecionando provas de fatos bizarros que se sucediam ao redor do mundo. Com paciência exemplar, lia jornais em várias línguas procurando aqueles fatos que escapavam de explicações simples: uma chuva de rãs nas Filipinas; uma maré vermelha nas ilhas Fiji; o aparecimento de um tigre na Islândia. Por menor que fosse a nota ou a informação passada sobre o assunto, Charles se esforçava para conseguir mais detalhes, testemunhos, fotos. O homem passava seus dias rastreando notícias estranhas nos jornais, procurando elementos que demonstrassem a sua teoria de que a nossa realidade está repleta de fissuras por onde o fantástico se esgueira. Tão grande era a sua dedicação para esta tarefa hercúlea que se mudou para Londres, passando a realizar pesquisas no Museu Britânico atrás de mais provas.

Em um determinado dia, Charles Fort juntou todas as suas pesquisas em um livro, “O Livro dos Danados” (“The Book of the Damned”). No início da obra, desafiou os cientistas a encontrarem explicações científicas para os fatos estranhos apontados com dia, hora e local quase cartesiana. Não é um livro bem escrito; ele se equilibra perigosamente entre a informação e o desafio, e as frases são escritas aos arranques, sem nenhuma depuração, deixando trechos muito chatos e outros panfletários. Em um capítulo intitulado “Vemos convencionalmente”, o autor explica a sua visão da realidade:

“Não apenas pensamos, agimos, falamos e vestimos igualmente, pela nossa rendição à tentativa social na busca da Entidade, nas quais somos apenas multicelulares. Vemos aquilo que devemos ‘devidamente’ ver. É ortodoxo dizer a uma criança que um cavalo não é um cavalo… mais do que seria dizer a uma alma simples que uma laranja é uma laranja. É interessante por vezes caminhar ao longo de uma estrada, olhar as coisas e perguntar-se que aspectos teriam as coisas se não se tivesse aprendido a ver os cavalos, as árvores e as casas, como cavalos, árvores e casas. Creio que para uma supervista são esforços locais que se confundem indiscernivelmente uma na outra num nexo onicompreensivo.”

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Como sempre acontece com as pessoas que não conseguimos compreender, Charles Fort – que recebeu o título de “colecionador de fenômenos anômalos” – passou a vida sendo ridicularizado pelas suas investigações. Os cientistas não eram capazes de confrontar as suas pesquisas, então preferiram atacar o homem. As risadas nunca o impediram de continuar juntando provas. Fort morreu por um tipo raro de leucemia que o matou em poucos dias (nem preciso dizer que até hoje pairam dúvidas sobre esta morte misteriosa). A sua dedicação a esta cruzada solitária contra a ditadura da realidade gerou frutos, pois foi fundada a Sociedade Forteana, um grupo que pesquisa eventos fantásticos ou sem explicação que acontecem por todo o mundo – Sociedade esta da qual faço parte, com muito orgulho.

Charles Fort sempre falou muito sério sobre a realidade, mas consideraram que ele estava brincando. Ninguém nunca entendeu o humor do americano: a única maneira de provar que a realidade ao nosso redor pode ser modificada se mudarmos os paradigmas de visão é revelando as suas falhas e, para isto, só pesquisa séria e listagem de dados irrefutáveis. Em muitos aspectos, Charles Fort antecipou distopias e até mesmo o filme “Matrix”, além das suas ideias servirem de fundamento filosófico para as noções de realidade aumentada.

É inusitado imaginar que uma pessoa pode passar a vida inteira falando seriamente e, apesar disso, ser considerada comediante. Assim como Fort, eu acredito que a realidade existe somente como convenção social, e o humor é a única forma real de atingir o âmago de qualquer situação. Não só para desconstituí-la, mas para colocá-la na sua devida importância.

Assim como ocorreu com Charles Fort, outra pessoa que quase não conhecemos e que usou o humor como maneira de desmascarar a realidade foi Widsith, o Grande Navegador, que existiu nos primórdios do século VII a. C. Boa parte da sua obra, escrita em inglês arcaico, não chegou até nós, somente 143 versos. Widsith – cuja tradução mais acurada significa “bem-viajado” – foi um trovador anglo-saxão que não só viajou por todas as terras do mundo conhecido por mais de 400 anos (documentados), como conversou com todos os reis, governantes, sátrapas, faraós, ministros e outros governantes, da Inglaterra até o Oriente Médio e a Índia.

É duvidoso que Widsith, o Grande Navegador, tenha vivido por mais de 400 anos. O mais provável é que tenham sido vários bardos que se sucediam na função de menestrel, todos recebendo o nome de Widsith. Ao decorarem os cantos do antecessor, passavam uma ideia de continuidade, como se fossem a mesma pessoa.

O interessante é que Widsith tinha livre acesso a todos os governantes. Era uma figura neutra com direito absoluto de passagem, o menestrel oficial dos líderes. Bastava chegar às portas de qualquer palácio do governo ou barraca de guerra que ele era conduzido até o cargo máximo do local, cantava os feitos dos antecessores e possivelmente agregava algum elemento do governante que acabava de conhecer. Widsith era o livro vivo de todos os líderes que passavam pela Terra, aquele que lembrava seus nomes e feitos depois que eles já tinham morrido ou sofrido derrotas. Em termos atuais, seria como se uma única pessoa conversasse de maneira íntima com todos os governantes de cada país, tornando-se o depositário final de suas glórias, aquele que diria para os líderes que eles tinham sido, sim, importantes.

Foi nessa condição que Widsith, o Grande Navegador, conversou com pictos, frísios, escotos, medos e egípcios; esteve diante de César na Gália e falou com godos, suecos e getas. Do rei Eormanric, recebeu um colar de anéis de ouro que valia seiscentas moedas. Descreveu encontros com Hrothgar e Hrothwulf no salão Heoror, apesar deles serem personagens de “Beowulf”, o mais famoso épico anglo-saxão, o que deixou dúvidas sobre o resto do poema: teriam existido os heróis clássicos ou seriam homens transformados em mito por escritores mentirosos? Widsith não responde, adejando de forma suave sobre os versos, sempre duvidoso, sempre instável: uma neblina escrevendo palavras no vento.

Widsith na versão Lego

Widsith na versão Lego

Existem evidências históricas de que, ao estilo de Homero, Widsith, o Grande Navegador, não foi somente um menestrel, mas vários reunidos sob a mesma alcunha. Também se sabe que o cristianismo, sempre mal-humorado, tratou de expurgar todos os traços da sua existência. Afinal, é intolerável permitir que alguém sem rosto e com nome compartilhado por uma multidão de pessoas ande por aí enunciando nomes de homens e mulheres ao invés de lembrar das vidas dos santos. Se Widsith sobreviveu por mais de 400 anos cantando para todos os líderes do mundo conhecido foi graças ao seu bom humor. Os líderes de então adoravam ouvir fofocas, maledicências e os feitos dos seus antecessores, assim como sonhavam com os versos que lhes seriam legados pelo menestrel. Penso que o canto do bardo incansável tinha ainda uma função dupla: lembrava a efemeridade dos reinados, assim como o “Ozymandias” de Percy Bysse Shelley, e mostrava para os governantes os erros que os outros tinham cometido, permitindo-lhes planejar melhor os seus passos futuros. Widsith usava o bom humor e suas habilidades de trovador para não só se insinuar na sua boa vontade e ser ouvido, mas para se transformar na memória coletiva dos governantes.

É utópico imaginar um mundo em que os governantes escutam os feitos dos líderes de outros tempos e aprendem com os erros cometidos no passado. Nos tempos atuais, cada governante que começa seu mandato acha que o país (e o mundo, e o universo) nasceu com ele. Não possuem a necessária ideia de continuidade, algo que também falta para todos nós. O mundo não nasceu conosco, e nem deixará de existir depois que partirmos, por maior que seja a nossa presunção em imaginar o contrário.

Portanto, a única maneira de atingir a imortalidade em vida é não levando todos os assuntos sempre a sério, mas acreditar – assim como Charles Fort – que a realidade é algo modificável a qualquer segundo se assim desejarmos. Ou nos divertirmos ao imaginar encontros tão improváveis de escritores como um Houellebecq lendo a obra de Lovecraft (e nadando no vasto mar de piche da desesperança pela Humanidade, mar este em que Lovecraft surfava com desenvoltura). Ou sermos como Widsith e usarmos o bom humor para chegar perto das pessoas mais influentes e, assim, tentarmos mudar o mundo sem que ninguém note. Respeito muito quem consegue ver seriedade neste mundo não-sério, mas respeito mais aqueles que sabem que a vida não é nada se não conseguirmos ver a Grande Graça que se esconde por trás dos horrores do cotidiano: a experiência de estar vivo. A mesma experiência que somente Conan, o Bárbaro, foi capaz de definir na sua plenitude:

Já conheci muitos deuses; quem nega sua existência é um cego, assim como aquele que confia demais neles. Não me importo com o que existe além da morte. Tanto pode ser a escuridão em que acreditam os céticos nemédios, o reino de gelo e nuvens onde vive Crom, as planícies geladas e os corredores fechados da Valhalla nos quais crê o povo de Nordheim. Eu não sei, não me importo. Preciso viver intensamente enquanto posso. Quero experimentar os ricos sucos da carne vermelha e o vinho picante, o aperto quente de braços brancos como o marfim, a loucura do triunfo na batalha quando as lâminas azuladas queimam e se tingem de vermelho. Isto basta para me alegrar. Que os mestres, os sacerdotes e os filósofos meditem sobre as questões da realidade e da ilusão! De uma coisa eu sei. Se a vida é ilusão, também sou uma: a ilusão é real para mim. Eu vivo, eu QUEIMO com a vida, eu amo, eu mato, eu sou feliz assim.”

 

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/li%C3%A7%C3%B5es-de-vida-com-conan-o-b%C3%A1rbaro-ou-a-import%C3%A2ncia-de-n%C3%A3o-ser-prudente-4410d4fc7c1b#.we5zez8xg

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