Crônicas de um ano inteiro: “Um mundo cada vez mais perfeito, cada vez mais chato”

Na minha crônica dessa semana na página do Facebook “Crônicas de um ano inteiro”, eu falei de como o desejo de perfeição está nos deixando cada vez mais pasteurizados e previsíveis. Mas também falei de Caravaggio, de censura e de Johann Sebastian Bach, e eis uma combinação insólita o suficiente para mostrar que as pessoas que pensam fora das fórmulas óbvias ainda são as mais excitantes.

Boa leitura!

Um mundo cada vez mais perfeito, cada vez mais chato

 

amor-omnia-vincit-caravaggio

“Amor omnia vincit”, Caravaggio

 

A grande notícia da semana passada passou quase despercebida no noticiário local, atordoado por planilhas de novas corrupções, por descrições de atos violentos e pelas costumeiras discussões que logo serão esquecidas. Mais de 400 anos depois de ter morrido, Caravaggio voltou a sofrer censura, dessa vez pelo Facebook. O quadro “Amor omnia vincit”, feito em 1602, foi colocado no mural do promotor de artes Hamilton Moura Filho Desivel, e as políticas restritivas de conteúdo da rede social mais usada no mundo consideraram-no atentatório à moral e aos bons costumes. Durante algumas horas, a imagem ostentando um Cupido desnudo foi proibida de aparecer na rede social. Após os protestos de vários internautas, inclusive de Hamilton, que afirmou que a cultura não podia ser bloqueada pelos meios de comunicação em pleno século XXI, o Facebook voltou atrás, enviando uma mensagem para o usuário: “Erroneamente removemos algo que você publicou. Nós pedimos desculpas e publicamos novamente o seu post”.

No entanto, o estrago estava feito e, em especial na Europa, a discussão sobre os limites entre costumes e arte foi intensa. Hamilton Moura Filho Desivel afirmou: “Vivemos em um mundo onde a cultura fica em segundo plano. O que me deixa triste é que a única coisa que pode mudar a direção que esse mundo está tomando é exatamente a cultura. O sistema quer manter esse exército de idiotas que vemos por aí porque a cultura dá a possibilidade de pensar. E, quando você pensa, tem a possibilidade de mudar o seu destino.”

Não se pode deixar de ver a ironia da situação. Caravaggio desperta polêmicas há 400 anos. Acaso estivesse vivo, estaria se divertindo muito com essa nova celeuma causada em torno da sua obra. Quando pintou quadros com representações de cenas religiosas, Caravaggio despertou furor ao colocar prostitutas, criados e mendigos em posição de destaque. Os anos passam e a obra do pintor italiano some e reaparece, em geral envolvida em escândalos. No passado, era por causa da religião. Nos dias atuais, contudo, é por obscenidade. Daqui a 400 anos, ainda estará nos escandalizando. Caravaggio sempre despertará emoções conflituosas.

O mundo transformou-se em um lugar repleto de julgadores da moral alheia. Não podemos esquecer que, para censurar o quadro de Caravaggio no mural de Hamilton, o Facebook recebeu uma denúncia de alguém que se sentiu ofendido por uma representação do Cupido. Dessa vez foi o Caravaggio, mas, algumas semanas atrás, censuraram a icônica foto da Guerra do Vietnã em que uma menina nua sai correndo da aldeia que acabou de queimar depois de um bombardeio de napalm. Se continuar desse jeito, em breve, a falsa moral da burguesia da atualidade – falsa por que, entre paredes, no segredo do lar, continuam praticando atos extremamente vergonhosos – acabará por ditar não só a arte, mas também nossos pensamentos e ideias. Viraremos uma sociedade de autômatos preocupada em produzir discursos pasteurizados e impregnados de clichês. Em resumo, viraremos uns chatos.

Boa parte da responsabilidade por nossa moral cada vez mais engessada e conservadora – pois até mesmo de forma inconsciente estamos evitando falar assuntos que despertem discussões e reproduzir imagens que possam lançar interpretações duplas – vem do nosso desejo irreal de perfeição. Agimos de maneira a não despertar polêmicas; comportamo-nos de forma tal que não estejamos no centro do palco e debaixo do holofote. Falamos exatamente o que esperam que pessoas normais falem, e consideramos o diferente não como exótico, mas como algo que precisa ser destruído e assimilado à manada de ideias comuns. É impensável o surgimento de um Caravaggio nos tempos atuais, apesar de muitos artistas se jactarem dos seus pensamentos progressistas. Mesmo quem age assim, acaba seguindo normas cuidadosamente refletidas para não serem violadas de forma muito radical. São rebeldes estilizados, pois todo grupo precisa ter uma oposição justamente para afirmar a sua identidade. São rebeldes controlados.

Na gênese dos problemas que nos afligem como seres humanos, está a vontade de sermos aceitos pelos nossos semelhantes. Não tolerado, mas amado. É por esse motivo que colocamos fotos impregnadas de felicidade e depois realizamos retoques até a exaustão para que seja uma representação do melhor dia da nossa vida. Escrevemos textos sem sabor – ou com uma polêmica cansada, para suscitar os mesmos argumentos batidos de sempre – para que os leitores saibam que está tudo igual. Elegemos os mesmos políticos com as promessas vazias de costume, pois aqueles que possuem ideias criativas são instáveis demais na sua inovação. Pensar fora da caixa nos assusta. Melhor sermos sempre os mesmos.

Pensei sobre esse desejo de perfeição ao assistir a um vídeo do violoncelista Bruno Concset tocando a “Suíte n.º 04 para Cello em E-menor”, composta por Johann Sebastian Bach em 1717. O cenário era perfeito: o Koninklijk Theater Carré, localizado em Amsterdam, Holanda. O som era cristalino e as imagens irretocáveis. No entanto, algo deixava a música diferente, quase gutural de tão humana, um rasgo inesperado nas gravações a que eu estava habituado. Não entendia o que era. A resposta surgiu entre os comentários sobre o vídeo: um inglês elogiou o fato dos responsáveis terem deixado, na gravação, o som que os dedos fazem ao deslizar sobre as cordas do instrumento musical. Nas gravações que eu escutei, o som era tão cristalino que não tinha espaço para o travo humano deixado por dedos agitados que deslizam e machucam cordas. No afã de deixar a música o mais pura possível, os engenheiros de mesa do som resolviam eliminar justamente o ser humano que toca o instrumento, pois ele atrapalharia a fluência da melodia.

A situação é emblemática: tão grande é o nosso desejo de aceitação que preferimos eliminar o ser humano da equação social, pois ele nos perturba. São suas imperfeições naturais que estragam a boa ordem dos acontecimentos. Vivemos em um mundo tão perfeito que estamos nos transformando nos resmungões que não conseguem ver a obra de Caravaggio sem chamá-la de indecente ou escutar uma suíte de violoncello de Bach e achar que o instrumentista podia desaparecer. O ideal de perfeição é tão absoluto que não vemos mais fotos com sorrisos espontâneos, não rimos mais com a mesma espontaneidade, não conversamos da mesma forma livre de outrora. Para chegarmos a um mundo perfeito, precisaremos deixar de ser humanos.

  • Como um bônus, aos que se interessarem, eis o vídeo que menciono na crônica.

http://allofbach.com/en/bwv/bwv-1010/

 

pppp

3 Comentários

Arquivado em Amor omnia vincit, Arte, Caravaggio, Crônicas, Johann Sebastian Bach, Música, Produção Literária

3 Respostas para “Crônicas de um ano inteiro: “Um mundo cada vez mais perfeito, cada vez mais chato”

  1. As gravações da Alpha e da Harmonia Mundi têm mantido o que chamo de “marcenaria da música”. Cocset grava para a Alpha há uns 20 anos. Prefiro as gravações ao vivo, com as imperfeições e até com a plateia tossindo…

    • Eu não tinha percebido o quanto estamos tentando eliminar o fator humano das gravações de música, mas elas dão outro sabor para a experiência. Os efeitos de estúdio e a eliminação quase obsessiva de interferências ambientais deixam tudo com a mesma cara.

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