Obras Inquietas – 06: “O anjo” (2013), de Michaël Borremans

Na minha coluna dessa semana no Artrianon, eu falei de “O anjo” (2013), quadro de Michaël Borremans. É um pouco difícil de acreditar, e eu também tive dúvidas sobre isso, mas é uma pintura, e não uma fotografia. O artista tirou a fotografia da modelo e, depois, transformou-a no quadro, o que deixa seu trabalho ainda mais estonteante.

Em entrevista, Michaël Borremans disse que a imagem no quadro é a Transcendência. Seu processo criativo também foi peculiar: depois que teve a ideia e tirou a foto, o pintor prendeu-se no próprio estúdio e, durante uma semana, trabalhou de forma exaustiva o quadro. Não conseguia se afastar dele. Sentia uma estranha pressão por estar diante da obra ainda inacabada. Foi uma pintura que lhe escravizou, mas o mais chocante é a sensação de familiaridade que o quadro transmite: já estivemos perto deste anjo. Nós o conhecemos. Pode ter vários nomes e sensações, mas ele está assustadoramente próximo, com seus olhos negros nos julgando e condenando.

Boa leitura!

“O anjo” (2013), de Michaël Borremans

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Escute o silêncio. Você já sentiu medo hoje? Atrás de todos nós, existe uma figura à espreita. Desconhecemos o nome exato. Não falamos a sua presença em voz alta, pois irão nos chamar de loucos, mas ela está ali, no ponto que a vista não alcança, no escuro do quarto insone, no meio da multidão de rostos disformes.Uma sombra em uma poça de chuva. Às vezes, na madrugada, você escuta um estalar que não devia estar ali, um passo discreto, um roçagar em um móvel. Também já escutei. É a mulher de braços inermes refletindo a sua vida, caminhando de um lado para o outro com passos felinos, perguntando-se se você merece mais um dia, em dúvida se você é herói ou bandido, alívio ou danação. Você sabe do que estou falando.Ela é a neblina que mora no espelho do banheiro, a dor que se esconde na vergonha súbita a nos afligir como uma ferroada de abelha. Essa mulher sem rosto foi a primeira a embalar o nosso berço; acompanhou nossas desilusões, testemunhou as derrotas e sorriu com amargura nos dias em que a luz do sol nos dava a certeza de que viveríamos para sempre. Entretanto, seus dedos são gelados e estão sempre ao alcance do nosso pescoço. Quando menos esperamos, a máscara sem alma se aproxima e aperta com força. Sentimo-nos sufocar e, em meio ao mar de angústia que aperta o nosso peito, pensamos em desistir de tudo e saltar fora desse teatro insano que dança ao nosso redor, musical multicolorido repleto de músicas ruins e intermináveis, mas resistimos. A perseguidora não sonha somente com a nossa morte; ela deseja que paguemos caro pela coragem de ter vivido.Quer vingança. É a torturadora dos momentos de descanso; a faca que, cravada na nossa memória, nunca cessa de girar e de nos fazer sangrar. Agonizamos um pouco a cada dia, enquanto a máscara sombria da inimiga que nunca descansa esconde a sua raiva. Você não consegue vê-la, mas ela está ali, no canto da sua memória, na porta entreaberta do armário. Atrás de você, está a culpa, ansiosa para cravar dentes cheios de escuridão no seu corpo e revelar o medo que nunca desaparece. E ela sabe exatamente como irá lhe matar.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2016/11/03/obras-inquietas-06-o-anjo-2013-michael-borremans/

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Arquivado em Arte, Crônicas, Michaël Borremans, O anjo, Obras Inquietas, Pintura, Produção Literária

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