Crônicas de um ano inteiro: “Outonizar-se com dignidade”

Fui convidado a integrar um belo projeto chamado “Crônicas de um ano inteiro”, uma página no Facebook que tem a seguinte proposta: a cada dia da semana, uma pessoa escreverá uma crônica sobre um assunto do cotidiano, e todos serão disponibilizados na internet. Ao final de um ano, teremos uma crônica a cada dia da semana. Eu fiquei com as segundas feiras. Ou seja, toda segunda desafiarei a tristeza alheia por outro começo de semana escrevendo um texto. Convido todos a acompanharem a página no Facebook e a lerem as crônicas dos demais colegas de empreitada.

Na minha estreia, falei do aniversariante do dia 31/10, Carlos Drummond de Andrade. Mas também aproveitei para confessar a minha paixão por uma árvore. Onde se lê árvore, contudo, podemos ler muitas outras coisas. Um texto nunca é somente um texto – também é algo a mais.

Boa leitura!

 

Outonizar-se com dignidade

drummond-por-do-sol

 

Não sei a data exata em que aconteceu. Acredito que tenha sido em torno de dois ou três anos atrás, mas pode ser quatro, talvez até cinco: o fato é que, na minha trajetória diária para o trabalho, subitamente descobri que estava apaixonado por uma árvore.

Estava passando pela rua quando percebi as folhas amarelas conspurcando o parque em pleno verão. Impossível não ver, pois, em meio às dezenas de árvores que se exibiam para o sol, todas tão iguais – e tão enfadonhas – no seu verde, aquela única se destacava por afrontar o calor da estação com folhas acobreadas pintando os galhos secos. Havia algo de rebeldia insensata nesta atitude – não me importa se os outros pensam que hoje é verão, para mim é outono. Passei pela árvore, sorrindo da sua insanidade, mas ela não passou por mim.

Nos dias seguintes, vi as folhas paulatinamente caírem até que árvore ficou desnuda. Envergonhada, ela erguia as mãos em prece para o sol inclemente. Ao seu redor, as demais riam com cicios de vento. As folhas novas surgiram e se espalharam. Acompanhei todo o processo: a árvore devagar tingindo-se de verde, em um processo de ressurreição, voltando a se orgulhar da sua existência. Não tinha passado uma semana e ela se juntava às suas amigas, mas com folhas renovadas, enquanto as outras já imploravam as chuvas rápidas do período.

Desde essa época, passei a acompanhar as metamorfoses da árvore. Percebi que ela possuía um peculiar senso de humor: quando está brava, ela encolhe seus galhos, parecendo bem menor do que é, além do cheiro de folhas podres cercarem-na como uma couraça; quando está feliz, a sombra impregnada de conforto espalha-se por uma área que vai além do seus braços e os passarinhos chilreiam com fúria, dando a sensação de que a árvore assobia. Quando todas as árvores seguem uma tendência, a minha amiga vai para o lado contrário, mas faz de forma tão extrema que se torna adorável. Ou ela possui um temperamento forte ou é uma árvore muito atrapalhada nesse ofício de ser árvore, e, em qualquer situação, eu a amo.

Ela não sabe dos meus sentimentos, mas deve desconfiar, depois de tanto tempo que a admiro e passo períodos de silêncio perto dela (ou tirando fotos, pois guardo, com orgulho, traços da nossa relação). Ainda recordo dos momentos tensos que vivemos. No ano passado, após um vendaval que devastou metade dos parques de Porto Alegre, quando pude sair de casa, fui até o seu encontro. A árvore estava lá, machucada: muitos dos seus galhos tinham caído, outros ainda pendiam do tronco. Ao seu redor, várias amigas tinham morrido, os corpos marrons espalhando-se nas proximidades do lago. Era visível o luto das sobreviventes pelas suas irmãs mortas, e não consegui sufocar um arrepio ao imaginar a terrível noite das árvores em meio à horripilante tormenta, escutando o vento e a chuva desabarem com fúria, o estalar de galhos quebrados, o estrondo de troncos caindo, as chicotadas de água. Todos passam por períodos difíceis na vida, mesmo as árvores, e só pude dar todo o meu carinho e apoio psicológico, pois cabia a ela descobrir a força indômita que mora dentro das dores.

Alguns meses atrás, sem que ninguém saiba, eu adotei a árvore. Passei a considerá-la como minha. Eu sei que pertence à cidade e que não posso levá-la para casa, mas, em espírito, a árvore me pertence. Não ando por aí abraçando troncos ou fazendo juras de amor; nosso relacionamento é silencioso e baseado no respeito. Fico perto dela, sentindo o perfume, admirando a tessitura rugosa da pele. Vejo os passarinhos que se refrescam nos seus cantos, aprendi a detectar os sons ocos que o vento faz ao passar por entre seus ramos.

É muito fácil hoje, nessa segunda feira de ressaca pós-eleitoral, estarmos tecendo considerações sobre o momento político do país, sobre a situação do time de futebol na tabela do Campeonato, sobre fantasias de Halloween, sobre a corrupção. O difícil mesmo é fazer como Carlos Drummond de Andrade, que hoje completaria 112 anos de idade, e também se apaixonou por uma árvore rebelde. Em sua crônica “Fala, amendoeira”, ele descreve o momento em que a paixão surgiu e, assim como no meu caso, foi pela estranheza:

“Esse ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza – essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão – névoa baixa e seca, hostil aos aviões. Pousou a vista, depois, nas árvores que algum remoto prefeito deu à rua, e que ainda ninguém se lembrou de arrancar, talvez porque haja outras destruições mais urgentes. Estavam todas verdes, menos uma. Uma que, precisamente, lá está plantada em frente à porta, companheira mais chegada de um homem e sua vida, espécie de anjo vegetal proposto ao seu destino.”

A seguir, o poeta conversa com a árvore e pergunta por que ela já se despiu em doce expectativa. A amendoeira responde que está outoneando sozinha e, ao ser indagada sobre o motivo, responde: “Anda tudo muito desorganizado, e, como deves notar, trago comigo um resto de verão, uma antecipação de primavera e mesmo, se reparares bem neste ventinho que me fustiga pela madrugada, uma suspeita de inverno.” Ao final, a amendoeira olha para o poeta e seu conselho final é sábio: “Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves… Outoniza-te com dignidade, meu velho.”

Drummond sabe a verdade: esse texto nunca foi sobre um homem apaixonar-se por uma árvore. Foi sobre eu aceitar a existência do meu outono.

Feliz aniversário, meu velho.

 

E eu não poderia deixar de acrescentar uma foto da minha árvore favorita no mundo, no auge da sua rebeldia insensata:

img_0659

Deixe um comentário

Arquivado em amendoeira, Árvore, Carlos Drummond de Andrade, Crônicas, Fala, Produção Literária, Uncategorized

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s